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Ricardo Reis

Por Ricardo Reis

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É preciso desconstruir argumentos recorrentes sem sentido para Portugal seguir em frente

As narrativas fantasma

28/01/2012 | 00:00 | Dinheiro Vivo

Nos últimos dois anos, a economia portuguesa tem sido uma verdadeira montanha-russa de emoções. Apesar disto, há argumentos e debates que se repetem sem fim, mesmo quando alguns deles parecem fantasmas sem ligação com a realidade.

"A despesa pública tem de ser o motor da economia." A encarnação mais infeliz deste argumento foi o manifesto que em 2008, a poucos meses de Portugal precisar da ajuda da troika para evitar a bancarrota, pedia mais investimento e dívida pública. Mesmo depois dos cortes dos últimos meses; mesmo depois de dez anos com a despesa a aumentar continuamente sem nenhum crescimento económico; mesmo quando umas décimas a mais de défice público causam aumentos brutais nas taxas de juro e matam o crédito a privados; continuamos a ouvir esta ideia. O argumento torna-se ainda mais surreal quando pseudoentendidos leem e repetem sem pensar o que escreve Paul Krugman sobre os EUA. Lá, as taxas de juro estão a zero; em Portugal só com muita sorte cairão abaixo de 5% em 2012.

"O BCE tem de intervir no mercado financeiro, imprimir dinheiro e pôr fim à crise na Europa." De acordo com esta narrativa, o arrojo da Fed salvou a economia americana enquanto a timidez do BCE enterra a Europa. Só que os números mostram que se imprimiram mais euros do que dólares nos últimos dois anos. A lista de medidas revela que o BCE tem assumido mais riscos do que a Fed alguma vez assumiu. E as leis impõem que o BCE pode fazer muito menos sem apoio dos governos europeus, ao contrário da muito protegida Fed. É legítimo exigir mais e melhor do BCE, mas a narrativa segundo a qual o BCE não fez nada até agora é pura ficção.

"A culpa da crise é de José Sócrates." A nossa economia não cresce há dez anos. Despesa e dívida públicas sobem sem parar há 20 anos. Podemos apontar para o crescimento das regalias e do tamanho da função pública no tempo de Cavaco Silva; para a explosão do Estado social sem riqueza para suportá-lo no tempo de Guterres; para a saída intempestiva de Durão Barroso e a confusão com Santana Lopes que adiaram soluções quando eram urgentes; ou para o descalabro nos últimos meses do governo Sócrates. Mas, as eleições já foram há 7 meses, temos um Governo estável e há muito trabalho a fazer para reformar o País.

"É preciso privatizar para tirar o Estado da economia." Privatizar é fácil, sobretudo quando se vende com pressa e barato. Mas os portugueses veem os jogos de influência entre Estado e grandes empresas em mercados. Veem a interferência da política na regulação do sector energético. Veem a Autoridade da Concorrência perder caso atrás de caso em tribunal por questões processuais, resultado de leis mal feitas e juízes mal preparados. Privatizar é só o primeiro passo; os outros têm falhado sucessivamente em Portugal.

Como qualquer boa história de fantasmas, estas narrativas vão continuar a repetir-se. Esperemos é que não distraiam quem tem de resolver os verdadeiros problemas do País.

Professor de Economia na Universidade de Columbia, em Nova Iorque
Escreve ao sábado

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