Crónicas de um português emigrado em São Paulo, Brasil
O sentimento de culpa do emigrante
25/04/2012 | 01:33
| Dinheiro Vivo
E se de repente um português sentir mais vontade de votar na brasileira Dilma do que em dois ex-jotas portugueses? Um emigrante perde inevitavelmente a ligação sentimental ao país de origem? Os pioneiros irlandeses dos EUA temiam que sim, esta coluna tenta provar que não.
A country music americana nasceu com os emigrantes irlandeses. Um estudo recente das letras das canções originais revelou que, ao contrário do que se possa pensar, eles não se cantavam a si próprios, não exaltavam o salto no desconhecido que tinham dado, não lamentavam as dificuldades de adaptação ao novo mundo, não descreviam o que os seus olhos viam. Pelo contrário: os poemas falavam do que a memória lhes dizia, dos velhos e crianças que ficaram na Irlanda faminta, do verde da paisagem da ilha, da Igreja Católica que lhes moldou, melhor ou pior, a personalidade.
A conclusão desses estudos é que os pioneiros irlandeses nos EUA temiam a apostasia, isto é, esquecerem-se de quem eram e contaminarem-se pelo carrossel de emoções que lhe provocava o país de destino, tão maior e tão diferente da Irlanda-natal. Queriam ser exilados irlandeses, jamais imigrantes americanos. As letras das canções eram, por isso, gemidos de um sentimento de culpa.
Faz sentido este sentimento de culpa? Faz sentido esta gestão de emoções?
O ser humano toda a vida (e cada vez mais) geriu tudo e orçamentou tudo, do mais concreto ao menos palpável. Controla-se o dinheiro ao cêntimo e o tempo, sobretudo o tempo, ao minuto. Porque se tempo e dinheiro são a mesma coisa, o primeiro é ainda mais traiçoeiro do que o segundo porque é ainda mais difícil de prever quando nos vai acabar – o cálculo económico está mais avançado do que a medicina.
Gere-se o tempo ao sol, que é de borla, porque faz mal à pele; o tempo à chuva, igualmente grátis, porque pode resultar em pneumonia; o prato de cozido à portuguesa, mesmo que oferecido, porque engorda. Até se administra o número de agradecimentos – “não vou dizer 'obrigado’ a quem para na passadeira porque não faz mais do que a sua obrigação” –, o número de sorrisos – “não vou sorrir para um tipo que nunca me sorri”.
Conta da eletricidade, cêntimos, minutos, calorias, sorrisos, tudo se orçamenta: de facto, há economia em tudo que há, como diz o slogan do Dinheiro Vivo.
Voltando ao sentimento de culpa dos irlandeses, a questão é determinar se a ligação a um país também é orçamentável, como eles próprios deixavam subentendido. Um emigrante perde a sua ligação ao país de origem se se envolver com o país de destino? Um português torna-se menos português se sentir vontade de votar Dilma (e não pode) e não sentir vontade nenhuma de escolher entre dois exemplos acabados de ex-jotas? Um português torna-se menos português se também se indigna com as indignidades brasileiras além de se indignar com as portuguesas?
A resposta a este "drama existencial de emigrante" é não. Os milhões de emigrantes irlandeses não tinham razões para sentirem culpa e os milhões de portugueses que emigraram ou pensam hoje em emigrar também não: porque a ligação a países não se perde, acumula-se. Quando muito perde-se a ligação “à espuma dos dias”, mas a ligação a um país está no domínio das emoções e esse domínio é o único que não está sujeito a orçamento. Pode ser-se 100% português – se calhar quem está longe até é 110% porque passa a entender melhor o fado, porque começa a achar que a seleção nem está a jogar tão mal assim – e ser 20% ou 40% ou 100% de um segundo país. As emoções ignoram a matemática, fazem pouco da contabilidade.
Afinal, não é por se ter um segundo filho (ou dois ao mesmo tempo) que o amor pelo primeiro sofre algum desconto. As emoções são acumuláveis e estão – ou devem estar – imunes à austeridade, seja na Irlanda seja em Portugal. Há economia em tudo o que há, sim, mas nas emoções não se deve – não se pode! – economizar.
Jornalista
Escreve à quarta-feira