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Por Hugo Gonçalves

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"Faço minhas as palavras do crítico literário brasileiro Rodrigo Gurgel,..."

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Prestígio que os escritores portugueses suscitam no Brasil é superior à venda dos seus livros

O mercado é uma questão de língua

Time destaca as
Editoras internacionalizam-se
João Girão
02/11/2013 | 00:00 | Dinheiro Vivo

Quando Jorge Vaz Nande trocou Lisboa por São Paulo, o nome da sua profissão também mudou: de guionista passou a roteirista. Esse era um sinal de que, embora continuasse a fazer a mesma coisa e trabalhasse com a mesma língua, tinha de adaptar-se a uma nova maneira de escrever, particularmente tratando-se de diálogos. Três anos depois, Jorge diz: “Foi um enorme desafio. Sendo a mesma língua, não é bem a mesma língua. Empenhei--me em entrar no ritmo, tive de anular portuguesismos.” O ajustamento não implicava apenas usar o gerúndio, escrever “cadarço” em vez de “atacador” ou abrir as vogais quando falava. Cada palavra tem uma história; a sintaxe e o vocabulário relevam quem somos ou quem queremos ser. Jorge sabia que dificilmente uma tia do Estoril diria “bué de fixe”, mas teve de aprender que uma grã-fina dos Jardins, em São Paulo, jamais diria: “Chega aí, truta, qual é as treta?”

Certa noite, um mês e meio depois de aterrar no Brasil, cansado dos enganos, dos “oi?” como resposta e do esforço para anular palavras em detrimento de outras, entrou num McDonald’s. “Não queria saber como se dizia meia de leite (média) ou o que era catupiry (tipo de queijo). Só queria comer descansado”.

Pedir um Big Mac não exigia grandes ginásticas linguísticas. Jorge sentia-se confiante. Até que reparou que faltava uma coisa. “Pedi uma palhinha. Ela disse ‘oi’?”. Nessa noite, Jorge aprendeu a dizer “canudinho”.

A ideia de lusofonia inspira uma ilusão de proximidade entre países que nem sempre estão tão próximos quanto supomos. A ideia de um mercado lusófono de 250 milhões de pessoas, em quatro continentes, pode estimular a ambição expansionista de bancos, petrolíferas ou hipermercados, mas não inspira delírios de riqueza entre os portugueses cujo ofício é a língua.

Um mercado de 250 milhões de pessoas que falam português poderia ser um alento para quem trabalha com a língua, especialmente no Brasil

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