Coronavírus

AEVP. “Três milhões são positivos mas não chegam” para evitar uma crise no Douro

Região Demarcada do Douro
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Ministra da Agricultura diz estar em condições de desbloquear 3 dos 10 milhões reclamados pelo Douro para minimizar efeitos da covid

O Ministério da Agricultura anunciou, esta quarta-feira, a disponibilização de três milhões de euros provenientes dos saldos de gerência do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP) para a criação de uma medida de armazenamento específica para o vinho do Porto, mas a Associação das Empresas de Vinho do Porto (AEVP) diz que “não chega”. António Saraiva, presidente da AEVP, estima que sejam necessários “nunca menos de cinco milhões de euros” para financiar uma reserva qualitativa na região. Mas há, ainda, as outras medidas reclamadas e, sem as quais, diz, não é possível avançar.

“É muito positivo que a senhora ministra da Agricultura tenha conseguido desbloquear verbas dos saldos de gerência do IVDP, mas, claramente, o valor é insuficiente. Como explicamos, não interessa muito fazer mais vinho do Porto, e armazená-lo, numa tentativa de não deixar cair o rendimento dos produtores, se não se esvaziarem os armazéns para os podermos encher, de novo, na vindima e se não se fizer uma grande ação de promoção para reativar vendas”, avançou ao Dinheiro Vivo, António Saraiva, depois da reunião no Ministério. Este responsável lembra que produção e comércio acordaram numa estratégia tripartida de combate à covid no Douro, o que significa que “uma medida não pode avançar sem as restantes” e sem elas “a região está condenada a uma crise de proporções dramáticas”.

Em causa estão os 10 milhões de euros reclamados pelo sector do vinho do Porto para majorar, no DOC Douro, os apoios que o Estado já anunciou para a destilação de crise. “A 40 cêntimos o litro não há ninguém que entregue os seus vinhos, porque o custos de produção no Douro são sensivelmente o dobro. Isso implicaria perder, logo à cabeça, metade do seu valor, ninguém o vai fazer”, diz este responsável. “Importa libertar armazenagem para que as compras de vinhos do Douro se concretizem nesta vindima”, acrescenta.

Por outro lado, e embora as exportações tenham já registado alguma retoma em junho, as próprias regras do vinho do Porto têm efeitos “perversos” em momentos de crise: o sector está obrigado ao cumprimento da Lei do Terço, ou seja, a comprar três pipas por cada uma que quer vender, uma medida que pretende promover a qualidade e o envelhecimento dos stocks. Mas, em tempos de crise, a Lei do Terço tem um efeito ‘chicote’: cada garrafa que uma empresa deixa de vender são três em armazém, desincentivando ainda mais as compras na vindima.

O terceiro vetor é o da promoção e o sector exige meios para “reativar” as vendas de vinho do Porto e de vinho do Douro, com campanhas de publicidade no mercado nacional e internacional. Campanhas essas que deverão ser construídas com meios acrescidos aos da promoção já prevista pelo IVDP e que, segundo o Ministério, conta com dois milhões para esse efeito.

“Numa altura de crise, e com quebras de 15% nas vendas de vinho do Porto e de 12% nas vendas de DOC Douro, e a pouco mais de um mês da vindima, estamos a pedir um esforço extraordinário às empresas de vinho do Porto para que se disponibilizem a produzir vinho que não precisam e não querem, e que deixarão armazenado, pelo menos dois anos, para produzir a tal reserva qualitativa de modo a que, sendo um ano de benefício ‘curto’ para a viticultura duriense, não seja excessivamente ‘curto'”, explica António Saraiva. Na última vindima, o quantitativo de benefício (que significa a quantidade de pipas de mosto a beneficiar com a adição de aguardente, dando origem ao vinho do Porto) foi de 108 mil pipas. Este ano, o objetivo do sector é tentar fazer 100 mil pipas, mas incluindo já as 10 a 15 mil pipas de reserva qualitativa.

Com um custo médio da pipa a mil euros, isto significa que produzir 10 mil pipas custa 10 milhões de euros, que seriam suportados, na proposta apresentada, em partes iguais pelos comerciantes e pelas verbas a descativar do IVDP. Ou seja, são necessários, no mínimo, cinco milhões de euros só para a reserva qualitativa. Este vinho é para ser guardado, durante dois anos, e, depois, à medida que o mercado for crescendo, será reintegrado progressivamente em cada ano. E, à medida que as empresas o pretenderem colocar no mercado, terão de liquidar, previamente, as verbas recebidas dos fundos do IVDP descativados. “Mas todo este esquema cai por terra se, nos próximos anos, não voltarmos aos valores de comercialização de 2019. E, por isso, se não reativarmos vendas, nada disto vale a pena”, sustenta o presidente da AEVP.

António Saraiva lembra que o “calendário é curtíssimo” e que há uma “janela de oportunidade mínima” para que a ministra da Agricultura consiga descativar mais verbas dos saldos de gerência do IVDP. “É muito positivo que tenha conseguido três milhões, mas não chega”, frisa este responsável, lembrando que o comunicado de vindima, em que a produção autorizada de vinho do Porto será, finalmente estabelecida, tem de ser publicado até ao final do mês de julho, sendo que o Conselho Interprofissional do IVDP reúne, para o efeito, a 23 de julho.

“A senhora ministra frisou muito que o Ministério tem dedicado muito tempo e recursos ao desenho de uma operação de reserva qualitativa para o Douro, mas essa competência é do Conselho Interprofissional do IVDP que, em cada ano, define o quantitativo de benefício que se faz em cada vindima”, diz António Saraiva, sublinhando que, do Estado, o que é preciso é que “encontre meios para desbloquear as verbas necessárias para o efeito”.

Refira-se que, no novo milénio, só em duas ocasiões o quantitativo de benefício foi fixado abaixo das cem mil pipas, no pico da crise, em 2011 e 2012, ano em que os viticultores foram autorizados a produzir 85 mil e 96,5 mil pipas, respetivamente.

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