Entrevista Carlos Leal

“A carga fiscal no turismo tem de ser aliviada ou anulada”

Carlos Leal, diretor-geral do grupo UIP, dono do Pine Cliffs (Foto: DR)
Carlos Leal, diretor-geral do grupo UIP, dono do Pine Cliffs (Foto: DR)

Numa semana de abertura de Londres a Portugal, as reservas no Pine Cliffs aumentaram 56%. Foram mais 800 mil euros de efeito direto nas receitas.

Em entrevista ao Dinheiro Vivo, Carlos Leal, diretor geral da United Investments Portugal (UIP), dona do Pine Cliffs, explica o efeito da retirada do país da lista negra do Reino Unido, revela que mantém os investimentos planeados apesar das perdas e deixa sugestões que poderiam ajudar o setor do turismo a recuperar.

Que efeito teve a reabertura do corredor com o Reino Unido no Pine Cliffs?

O mercado britânico é muito importante para Portugal, em particular para o Algarve, dito isto, logo que o corredor turístico foi aberto sentimos logo efeito. Numa semana, as reservas aumentaram 56%, o que significou mais 800 mil euros de efeito direto nas receitas.

  1. O aumento de reservas respeita ao que resta do verão ou tem já efeitos ao resto do ano?

A maioria das reservas foram para este verão até meados de Setembro e também algumas para fim de outubro. Já para os meses de inverno, como é expectável nesta altura, não sentimos nenhum impacto. Contudo tenho de sublinhar que este incremento é muito importante, mas não é suficiente para recuperar todo o ano de 2020.

  1. Quanto pesam os turistas britânicos nos resultados do grupo e qual o top 5 de clientes?

Os britânicos são um mercado muito importante para os hotéis da UIP em particular para o Pine Cliffs Resort, e também prevemos que seja para o Yotel Porto, que iremos abrir ainda este ano. No caso do Sheraton Cascais Resort é um mercado que tem crescido significativamente, o que tem influenciado positivamente a evolução dos últimos anos. Os top 5 mercados são obviamente o mercado Britânico, português, alemão, holandês, espanhol e francês, como um forte crescimento nos mercados do Estados Unidos e Brasil (antes do Covid 19)

  1. Tiveram neste ano um aumento de portugueses?

Sim tivemos um incremento importante do mercado nacional. Os portugueses encontraram nos nossos resorts uma alternativa segura, de qualidade superior, às viagens que tinham previstas para o estrangeiro.

  1. Que expectativas têm para os resultados deste ano? Com a lista negra e o confinamento, perdeu-se mais de metade do ano?

Esta pandemia afetou todos os setores económicos e o turismo diria que foi sem dúvida um dos mais afetado. O encerramento das unidades hoteleiras e a ausência e incerteza dos voos para Portugal, agudizaram a crise e isso resultou em perdas significativas. Mas, as perdas são avultadas e não é realístico nem possível recuperar o que já foi perdido. (um quarto de hotel se não for vendido no dia não é possível por na montra para revenda!) No entanto, temos de ser positivos, o Covid não vai ficar para sempre, temos de pensar no futuro e, o Grupo UIP já está a fazê-lo, continuando a desenvolver os novos investimentos e a encontrar soluções inovadoras para captar novos mercados e clientes.

  1. Foi preciso fazer ajustes, nomeadamente ao nível de pessoal e de investimentos previstos?

O Grupo UIP, durante o período de confinamento com o fecho dos nossos hotéis, recorreu ao lay-off, mas conseguiu não despedir ninguém. Precisamos de todos para nos prepararmos para a retoma, e os nossos colaboradores são fundamentais e a razão do nosso sucesso. Os novos investimentos em Lisboa e no Porto continuam, apenas tiveram alguns atrasos de obra, fruto do confinamento. Iremos abrir o novo Yotel ainda este ano, e iremos apresentar a unidade modelo, do Hyatt em ainda durante este trimestre e o projeto da Quinta Marques Gomes, em Vila Nova de Gaia, também está a seguir o seu curso com vendas imobiliárias muito acima da média.

  1. Já perspetivam planos de recuperação para o próximo ano? Há oportunidades a explorar?

Estamos otimistas, mas temos de ser prudentes quanto a perspetivas para o futuro, pois uma segunda ou terceira vagas da pandemia podem mudar tudo. Estamos a estudar alternativas e restruturar para estarmos mais resilientes e preparados para situações como a que vivemos hoje. Esta pandemia também teve efeitos positivos, em nos obrigar a encontrar soluções e adaptamos a situações inesperadas. Continuamos a trabalhar para encontramos soluções inovadoras para captar novos mercados e clientes, e nos preparar para uma retoma, que acreditamos que aconteça durante o próximo ano. Mas vai continuar a ser um ano difícil, com uma necessidade acrescida de conter custos para mitigar a redução na receita.

  1. Que medidas poderiam ser tomadas para facilitar a recuperação do turismo? O plano Costa Silva é adequado?

As medidas tomadas pelo governo desde no início da pandemia foram, na nossa opinião, fundamental para apoiar o país numa altura crítica, no entanto nas áreas do turismo e restauração ficaram aquém. Existe claramente ainda muito a fazer para encontrar e implementar soluções de apoio a um setor fundamental para a economia portuguesa como é o do turismo. Se isso não acontecer, vão de certeza existir insolvências, o que irá aumentar o impacto negativo no país com mais desemprego e menos receitas de impostos.

As linhas de crédito não ajudam?

Não é suficiente criar linhas de crédito atrás linhas de crédito, elas são importantes para as empresas cumprirem com as suas obrigações, mas as linhas de crédito são exatamente isso, crédito e crédito tem de se pagar mais tarde ou mais cedo, o que traduz num adiar do problema e não na resolução do mesmo. A carga fiscal tem de ser aliviada ou anulada, no curto e médio prazo. Fiquei muito satisfeito com o anúncio do governo acabar com as prestações antecipadas, pelo menos num curto espaço, mas não é suficiente.

O que gostava de ver?

Por exemplo, o IVA na restauração e no golfe continua elevado e devia ser reduzido, ou até eliminado por um tempo determinado para permitir o sector recuperar. Não podemos olhar para a situação do setor do turismo e definir uma estratégia genérica, tem de ser visto por regiões, a realidade de Lisboa não é igual à do Porto ou do Algarve ou do Centro. Temos de salvaguardar não só os nossos cidadãos, mas também garantir que continuamos com o corredor aberto para os nossos mercados principais. Para isso temos de implementar medidas de segurança de entrada no nosso país, como já é praticado em Portugal, nas ilhas do Açores e da Madeira, e noutros países da Europa.

A aviação tem aqui um papel?

Em relação ao aeroporto de Lisboa, obviamente que é extremamente importante ter um novo aeroporto, mas na minha opinião existem alternativas viáveis para resolver ou aliviar o problema a curto prazo, como por exemplo o de Beja. Nesta altura e na situação económica do país não vejo que seja uma prioridade imediata. Existe vários países como exemplo, em que as low cost utilizam aeroportos que estão mais do que a uma hora da cidade, o que é perfeitamente viável a distância de Beja, não só para Lisboa mas também para o Algarve.

Na minha opinião é mais importante a TAP apoiar o Algarve e reintroduzir voos para o aeroporto de Faro, que está subutilizado e tem capacidade de duplicar o número de passageiros, de vários países da Europa, sendo o principal o Reino Unido. Para concluir, na área dos aeroportos tem de haver distribuição equilibrada para assegurar ligações aéreas a todo o país, não só a Lisboa ou o Porto, para estimular a economia de todas as regiões.

É importante abrir o resto do país?

É muito importante criar um plano estratégico de marketing mais agressivo, para atrair a atenção para Portugal no mercado global em relação a toda uma gama de produtos e equipamentos incluindo os meios de proteção pessoal que surgiram como resposta à crise. O país deve promover um grande plano para captar a atenção dos mercados mais importantes com base nas valências que Portugal apresenta em termos da sua diversidade geográfica e paisagística.

A oferta deve ser diversificada, explorando as diferentes partes do território e é importante apostar na qualidade e ter como indicadores não só o número de visitantes, mas também a rentabilidade por turista. O setor do turismo é importante, e tudo o que possa aumentar a sua resiliência deve ser explorado. Portugal pode combinar o turismo convencional com o turismo da natureza, o turismo da saúde, o turismo cultural, o turismo oceânico, e construir uma oferta competitiva.

É importante para o futuro que o turismo se desenvolva em maior articulação com outros setores da economia, evitando o recurso sistemático a mão-de-obra precária e desqualificada. Neste quadro, a diversificação da economia, das cidades e do país pode contrariar a excessiva dependência de um único setor.

A resposta de Portugal à pandemia fez emergir vantagens competitivas em termos do combate à epidemia, dos resultados alcançados e da segurança que o país demonstrou, o que pode valorizar o mercado português de turismo face a concorrentes diretos. Uma campanha com o lema “Portugal Turismo no Confinamento” pode servir de plataforma de reanimação deste setor ao mesmo tempo que promove a imagem do país como destino seguro.

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