Luanda Leaks

Espanhóis e chineses na corrida para entrar no capital do EuroBic

Ilustração: Vítor Higgs
Ilustração: Vítor Higgs

Isabel dos Santos está a desfazer-se das posições aqui e vai contratar consultora para vender banco. Regulador não reavalia Teixeira dos Santos.

A decisão final caberá ao Banco Central Europeu (BCE). Mas a escolha do novo acionista do EuroBic está em marcha e pode recair sobre um banco chinês ou espanhol. Em causa está a posição de 42,5% que Isabel dos Santos, empresária e filha do ex-presidente de Angola, tem no banco liderado por Fernando Teixeira dos Santos.

A empresária angolana é a principal acionista do banco e a sua posição é detida através da Santoro Financial Holding, que detém 25% do banco, e da Finisantoro Holding Limited, que tem os restantes 17,5%. Fernando Teles é o segundo principal acionista do EuroBic, com 37,5% do capital. Da estrutura acionista constam ainda Luís Cortez dos Santos, Manuel Fernandes e Sebastião Lavrador, todos com uma posição de 5%.

O Dinheiro Vivo sabe que Isabel dos Santos irá contratar uma das grandes consultoras, especialista em venda de ativos, para avaliar e pôr à venda no mercado a sua participação no EuroBic.

Só se do mercado não surgir um acionista de referência, credível e que traga valor à instituição financeira é que os dez acionistas do banco admitem vir a reforçar posição ficando com essa quota, apurou o Dinheiro Vivo.

O mercado admite que o acionista Fernando Teles venha a reforçar a sua posição ou até a ficar com a maioria, mas esse é apenas um de vários cenários em cima da mesa. Até porque, segundo apurámos, neste momento a questão relativa à posição maioritária ficar nas mãos dos atuais acionistas não deverá ser um empecilho numa futura negociação.

Nesta altura há já vários bancos interessados no capital que, por enquanto, ainda está nas mãos de Isabel dos Santos. Nos últimos dias foram três as instituições com as quais foram promovidas reuniões nesse sentido, sendo uma dela espanhola e outra chinesa.

No mercado, o cenário mais consensual recai sobre o Abanca. Este, a entrar, poderia querer impor a sua marca fazendo desaparecer o EuroBic, hipótese com a qual os acionistas não só não estão ainda preocupados como não estudaram.

Uma coisa é certa, os acionistas garantem que “não venderão a preço de saldo. O banco tem 550 milhões de euros de fundos próprios, neste ano vai ter muito bons resultados”, diz uma das partes.

Mais, o CEO “Teixeira dos Santos tem a confiança dos acionistas, a equipa de gestão é boa, temos um bom banco e a casa arrumada”, afiança a mesma fonte.

Vários banqueiros têm comentado que a política do BCE tem incentivado à concentração, dando preferência a que ganhem ainda maior protagonismo os bancos alemães, espanhóis e franceses. Mas quanto ao EuroBic, terão de ser os acionistas a decidir o que é melhor para a instituição.

Segunda-feira é dia de conselho de administração e aí novas linhas mestras serão decididas quanto ao futuro.

Ilustração. Vítor Higgs/Animação: Nuno Santos

Saída de Portugal
A saída de Isabel dos Santos do capital do banco que a empresária angolana fundou com parceiros em 2008 é uma das consequências do caso Luanda Leaks, divulgado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação. O caso resultou da análise de mais de 700 mil documentos que alegadamente demonstram que Isabel dos Santos desviou fundos de Angola. Ainda antes, no último dia de 2019, a empresária, considerada a mulher mais rica de África, já tinha sido alvo de um arresto de bens e contas bancárias por parte das autoridades judiciais angolanas, tal como o seu marido, Sindika Dokolo.

Já nesta semana, Isabel dos Santos foi constituída arguida em Angola, acusada de má gestão e desvio de fundos da petrolífera angolana Sonangol – que presidiu entre junho de 2016 e novembro de 2017. São ainda arguidos os seus gestores mais próximos: Sarju Raikundalia, ex-administrador financeiro da Sonangol e ex-sócio da PwC; Mário Leite da Silva, gestor de empresas de Isabel dos Santos e presidente demissionário do conselho de administração do Banco Fomento de Angola; Paula Oliveira, amiga de Isabel dos Santos e administradora da NOS; e Nuno Ribeiro da Cunha, gestor de private banking do EuroBic. Este último, que era o gestor de conta de Isabel dos Santos, foi encontrado sem vida, na passada quarta-feira à noite, na garagem da sua residência, no Restelo, em Lisboa, por aparente suicídio.

Teixeira dos Santos validado
A pressão sobre Isabel dos Santos e os seus negócios em Portugal atingiu um pico na última semana, não só por ação dos supervisores financeiros mas também pela vinda a Lisboa do procurador-geral da República de Angola. Hélder Pitta Grós reuniu-se com a homóloga portuguesa, Lucília Gago. Em simultâneo, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários anunciou que iniciou um conjunto de “ações de supervisão” junto da NOS e da Galp Energia e de auditores de empresas ligadas a Isabel dos Santos. Da NOS saiu o anúncio de que Jorge Brito Pereira, Mário Leite da Silva e Paula Oliveira renunciaram aos respetivos cargos na administração da empresa. Nenhum outro português será arguido neste processo, garantiu o PGR angolano.

No EuroBic, onde Isabel dos Santos já não está a exercer os seus direitos de voto, Fernando Teixeira dos Santos parece estar seguro, para já, na presidência. O antigo ministro das Finanças de Sócrates cumpre um mandato que terminava em 2019. O CM noticiou que o agora presidente executivo do banco estaria de saída, por indicação do Banco de Portugal, mas o supervisor negou estar a reavaliar a sua idoneidade ou de qualquer outro membro dos órgãos sociais do EuroBic. Caberá agora aos acionistas do banco decidir quem vai liderar o banco no novo mandato, na era pós-escândalo Luanda Leaks.

Compras: Governo de portas abertas a Isabel dos Santos
A filha do ex-presidente da Angola, José Eduardo dos Santos, nunca teve obstáculos, incluindo dos sucessivos governos, para fazer aquisições em Portugal. Pelo contrário.

Por exemplo, foi graças à Caixa Geral de Depósitos (CGD) que, em 2012, Isabel dos Santos passou a deter 28,8% da Zon Multimédia, atual NOS. A CGD vendeu, na altura, a sua posição de 10,7% a uma sociedade da empresária angolana. Também terá sido com um empréstimo de 125 milhões de euros da CGD que Isabel dos Santos comprou ações da ZON em 2009, sendo certo que parte dos títulos eram da própria CGD.

Já em 2016, o primeiro-ministro António Costa ajudou à entrada de Isabel dos Santos no BCP.

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