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Investimento: África terá de ser mais do que Angola e Moçambique 

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Quando um empresário português começa a estudar o mercado africano para fazer investimentos, os primeiros dois destinos em que pensa são, inevitavelmente, Angola e Moçambique. Porque existe uma relação histórica e porque a língua é a mesma.

Mas África é um continente composto por 54 países, alguns dos quais estão a atravessar momentos de fortes alterações políticas, económicas e sociais e, por isso mesmo, estão mais abertos e a precisar de muito investimento estrangeiro, como é o caso da África do Sul ou do Congo.

Alguns deles gozam ainda da vantagem de fazer parte da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC na sigla em inglês), uma organização criada em 1992 que tem como objetivo potenciar as relações comerciais e sociais entre os 16 países que dela fazem parte e, em simultâneo, ganhar corpo para atrair investimento exterior.

Ora, nesses 16 países incluem-se Angola e Moçambique, a África do Sul e o Congo e ainda outros como a Nigéria, o Botswana ou a Zâmbia. Mas, mesmo assim, os dois destinos preferidos dos empresários portugueses permanecem os mesmos aos longo dos anos. “Temos vindo a perder muitas oportunidades”, disse Paulo Oliveira, administrador delegado do grupo Salvador Caetano para a África Oriental, no Fórum Portugal-SADC que decorreu nesta quinta-feira na Nova School of Business and Economics em Carcavelos.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) compilados pela Câmara de Comércio e Indústria Luso-Sul-Africana (CCILSA), Portugal exportou para os países da SADC um total de 1,9 mil milhões de euros, dos quais apenas 222 milhões de euros foram para fora de Angola e Moçambique. E se olharmos para algumas das empresas portuguesas presentes em África, é aí que têm os seus maiores negócios. É o caso da LBC, uma consultora de gestão e de formação a empresários. “Já fizemos mais de 400 projetos na SADC, mas 110 são em Angola e Moçambique. Na África do Sul foram apenas 14 e temos também alguns na Namíbia”, comentou no mesmo Fórum, Carlos Oliveira, sócio-gerente desta empresa. Ou do grupo Nabeiro, dono da Delta Cafés, que vendeu mais de 15 milhões de cápsulas de café em Angola e pretendem começar a vender cápsulas da marca africana Ginga ainda neste ano.

Contudo, não é por falta de vontade que não se fazem mais investimentos nos outros 14 países da SADC. Até porque há inúmeras oportunidades a surgir: Na África do Sul, “há hoje uma classe média sofisticada”, frisou, Nonhle Ndala, responsável do NN Group. E haverá em breve concursos para renováveis e para a exploração mineira, adiantou Yunus Hoosen, diretor-geral adjunto interino da Invest SA. O Congo juntamente com Angola são terceiroº e quarto países com mais terras aráveis, 35 milhões de hectares, notou o secretário de Estado da Economia de Angola, Sérgio dos Santos, que encerrou o Fórum Portugal-SADC. E na Nigéria existe “uma grande indústria cinematográfica” que pouca gente conhece, disse António Nunes, CEO da Angola Cables.

“São países com cerca de 800 milhões de habitantes, com um grande dinamismo empresarial e crescimento económico e Portugal é um parceiro ideal e pode ser uma plataforma para os investidores africanos acederem à Europa”, disse, ao Dinheiro Vivo, o ministro da Economia de Portugal, Pedro Siza Vieira.

Mas todos os intervenientes deste evento organizado pela CCILSA e pela Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Angola (CCIP) concordam que não se fazem mais investimentos porque ainda há muitos entraves. Por exemplo, “a SADC são muitos mercados e alguns deles são micromercados e faltam infraestruturas. É mais fácil exportar para a China do que para a Zâmbia”, referiu o CEO do Nuvi Group, Carlos Santos. Além disso, “o custo do dinheiro é muito caro e há falta de informação”, exemplificou Carlos Beato, gerente regional do grupo Nabeiro. Há também “poucas parcerias locais”, notou Carlos Oliveira, “um problema de conexão entre países”, disse o partner da PWC, Jaime Esteves, e ainda há risco cambial e falta de segurança no investimento, lembrou Paulo Oliveira.

Contudo, há melhorias e incentivos em curso. Angola vai aderir à zona de comércio livre da SADC e reduzir as taxas de juro neste ano, frisou Sérgio dos Santos, e “hoje já se consegue aprovar um investimento em menos de um mês quando antes demorava um ano”, notou o presidente da CCIP, João Traça. E “Portugal pretende que o tema da presidência europeia seja o futuro das relações entre a UE e África”, concluiu Pedro Siza Vieira

Sérgio dos Santos “Angola vai acabar com taxas na SADC”

O secretário de Estado da Economia de Angola, Sérgio dos Santos, encerrou o Fórum Portugal-SADC, mas não se limitou a destacar as oportunidades e alterações no país, como é o caso dos apoios ao financiamento, a descida das taxas de juro ou a simplificação das transferências de dinheiro. Sérgio dos Santos destacou algumas das oportunidades que podem ser trabalhadas em conjunto. “Os governos estão atentos a uma maior integração”, garantiu. “Vamos integrar a zona de livre comércio da SADC e acabar com as taxas aduaneiras” entre esses países, disse. Outra oportunidade que destacou foi a existência de 35 milhões de hectares de solos aráveis para produção de alimentos para exportação. E outra ainda pode ser a exploração da costa africana para exportação de frutos do mar para a Ásia, um dos maiores consumidores.

Tim Vieira “Portugal atrai porque é como entrada na Europa”

Tim Vieira ficou conhecido em Portugal pela participação no Lago dos Tubarões, da SIC, mas antes já era considerado um empresário de sucesso na África do Sul, onde nasceu, e em Angola. Neste ano assumiu a presidência da CCILSA que, com a CCIP, organiza o Fórum Portugal-SADC, onde a África do Sul se destacou como novo destino de investimento para os portugueses e como potencial investidor em Portugal. Lá, as oportunidades na agricultura, educação, tecnologia e turismo são inevitáveis e Tim Vieira acredita que os empresários portugueses podem ir mais longe. “As áreas onde somos competitivos são também uma oportunidade”, disse ao Dinheiro Vivo. E por cá, “o país atrai a África do Sul porque é visto como entrada na Europa. É uma win-win situation e isso é que é bom nos negócios”.

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