Angola

Moody’s: Rating de Angola desce se reestruturação da dívida envolver privados

Luanda. Fotografia: D.R.
Luanda. Fotografia: D.R.

Angola anunciou no princípio de junho a adesão à Iniciativa de Suspensão do Serviço da Dívida (DSSI) do G20

O analista da agência de notação financeira Moody’s que segue a economia de Angola disse hoje à Lusa que se a reestruturação da dívida pública do país envolver os credores privados o ‘rating’ vai descer.

“Se Angola envolver os credores privados na reestruturação da dívida pública, haverá perdas e o ‘rating’ precisará de ir mais para baixo, essa é a consequência de reestruturar as dívidas dos credores comerciais”, alertou Aurelien Mali.

Em entrevista à Lusa a partir do Dubai, o analista francês que segue a economia angolana há anos explicou que “se a reestruturação da dívida for limitada aos parceiros bilaterais, não tem impacto no ‘rating’, mas não resolve o fardo da dívida, só dá alívio para encontrar outras soluções e uma estratégia para colocar a dívida numa trajetória mais sustentável”.

Angola anunciou no princípio de junho a adesão à Iniciativa de Suspensão do Serviço da Dívida (DSSI) do G20, o que, segundo o Banco Mundial, fornecerá um alívio de 2,6 mil milhões de dólares (2,3 mil milhões de euros) em pagamentos a credores oficiais bilaterais que deviam ser feitos este ano, mas que serão adiados, e anunciou, nessa altura, que pretende manter os pagamentos da dívida aos credores privados.

A Moody’s é a única das três agências de ‘rating’ que considera que a adesão à DSSI é motivo suficiente para colocar o ‘rating’ dos países que aderirem em revisão para descida, apesar de a generalidade dos países africanos que aderiu à iniciativa dizer explicitamente que não vai deixar de pagar aos credores privados.

“Na nossa opinião, a DSSI, com os termos com que foi avançada pelo G20, aumenta o risco de perdas para os credores privados, porque há uma tensão entre o documento, que pede a participação dos privados de uma maneira ainda não explicada, e os países soberanos, que dizem que não há riscos para os privados, e temos de resolver esta questão”, argumenta Aurelien Mali.

Na entrevista à Lusa, o analista francês lembrou que “a razão de ser de uma agência de ‘rating’ é o seu relacionamento com os investidores privados” e argumentou que “há quem diga que o dinheiro dos contribuintes não deve ser usado para pagar aos credores privados, e como não há uma resposta clara a esta tensão, precisamos de refletir a sua existência no nosso ‘rating’, e temos de sinalizar aos credores que há uma possibilidade de terem perdas ao abrigo desta iniciativa”.

A evolução da pandemia, continuou, pode ditar um aumento do apoio dos credores oficiais aos países mais vulneráveis no futuro, e nessa altura a questão que se vai colocar é se o dinheiro deve ser usado para pagar ao setor privado, continuou o analista, apontando que o ‘rating’ de Angola só não foi colocado em revisão negativa porque já está há mais de três meses, desde março, nessa situação.

“Vamos usar o período da revisão, que pode ser mais longo do que os três meses habituais, para responder a esta questão; sabemos que Angola disse que não quer estender o alívio da dívida aos credores privados, mas do ponto de vista dos credores oficiais isso não é assim tão claro”, afirmou o analista.

Angola, concluiu, “está numa encruzilhada”, já que no continente africano “foi o país que implementou mais reformas nos últimos dois anos, e precisa de se ajustar à nova realidade da sua economia e ao efeito da pandemia, porque está a ser atingida por uma das maiores crises nos países exportadores nos últimos aos, o que torna a implementação das reformas mais difícil”.

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