Angola

Trafigura financia saída de general ‘Dino’ da corretora Puma Energy

D.R.
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‘Dino’ fez parte do chamado triunvirato que gravitava à volta da família de José Eduardo dos Santos.

A corretora de matérias-primas Trafigura financiou a compra das ações que o general ‘Dino’ detinha na Puma Energy, num acordo avaliado em 400 milhões de dólares, reduzindo a participação do general angolano para menos de 5%.

“A Puma Energy Holdings anuncia que concordou, sujeito à aprovação das autoridades reguladoras, com uma reestruturação da estrutura acionista com a Trafigura e a Cochan Holdings; o resultado será que a Cochan deixará de ser um acionista significativo, com a participação acionista da Cochan a ser reduzida [de 15%] para menos de 5%”, lê-se no comunicado divulgado esta segunda-feira pela distribuidora energética.

“A transação será implementada através de uma operação de recompra das ações da Trafigura, que se segue a uma compra equivalente pela Trafigura das ações da Puma detidas pela Cochan Holdings”, detida pelo general angolano, e financiada pela Trafigura através de um empréstimo com uma duração de sete anos, acrescenta-se no documento.

“A Puma Energy está a construir uma plataforma jovem para nos permitir aproveitar a dinâmica de oportunidades num cenário energético em rápida mudança nos mercados em que operamos”, comentou a presidente da Puma Energy, Emma FitzGerald, citada no comunicado.

“Com o apoio contínuo dos nossos acionistas, a empresa está confiante nas suas capacidades de desenvolver um negócio focado no consumidor e capaz de garantir um crescimento sustentado de lucros e fazer uma contribuição real para a transição energética nas comunidades que serve”, acrescenta-se no texto.

A Cochan Holdings é detida pelo angolano Leopoldino Fragoso do Nascimento, conhecido como ‘general Dino’, que foi um conselheiro próximo do antigo Presidente da República de Angola José Eduardo dos Santos, cuja família está sob investigação pelas autoridades angolanas.

De acordo com a agência de informação financeira Bloomberg, o acordo está avaliado em 400 milhões de dólares, cerca de 360 milhões de euros, e permite à Trafigura manter 49% das ações da Puma, que está a passar por uma reestruturação, vendendo ativos e cortando custos num contexto de resultados financeiros negativos.

Segundo a Bloomberg, “este complexo negócio vai também reduzir a ligação potencialmente embaraçosa ao general Dino, e melhorar o relacionamento com os bancos e possivelmente fazer voltar a empresa à bolsa”.

A Trafigura tem uma ligação antiga a Angola, onde chegou a ter quase o monopólio de importação de combustíveis no país através do Grupo DTS, em conjunto com a Cochan, do general ‘Dino’, e onde ganhou, em maio do ano passado, o concurso para fornecer gasóleo à Marinha.

Em novembro do ano passado, ficou conhecido também o envolvimento da Trafigura no escândalo brasileiro Lava-Jato, quando o Ministério Público brasileiro realizou buscas às empresas Vitol e Trafigura, na Suíça, procurando provas para as suspeitas de pagamentos a funcionários da Petrobras em troca da obtenção de contratos.

Poucos meses depois de chegar ao poder, o Presidente de Angola, João Lourenço, ordenou o lançamento de um concurso para a importação de combustível, já que Angola, apesar de ser o segundo maior produtor de petróleo da África subsaariana, tem uma capacidade de refinação muito limitada, obrigando à importação da quase totalidade do combustível que consome.

Assim, em janeiro de 2018, a Sonangol anunciou a abertura do concurso que, na prática, acabou com o monopólio da Trafigura, até então o maior vendedor de petróleo refinado a Angola e que controla 49% da Puma Energy, dona das bombas angolanas de combustíveis da marca Pumangol.

Segundo um relatório da Organização Não Governamental (ONG) suíça Public Eye, a Trafigura é uma ‘holding’ em que o petróleo representa 67% do lucro, em 2015, tendo ativos físicos de quase 40 mil milhões de dólares, “incluindo minas, navios, tanques de armazenagem, bombas de gasolina e oleodutos”.

O general Leopoldino Fragoso do Nascimento, conhecido como ‘Dino’, foi o antigo responsável pelas telecomunicações presidenciais entre 1995 e 2010, tendo sido também ministro de Estado e chefe da Casa de Segurança durante o reinado de José Eduardo dos Santos.

‘Dino’ fez parte do chamado triunvirato que gravitava à volta da família de José Eduardo dos Santos, juntamente com o general Hélder Vieira Dias Júnior (‘Kopelipa’) e o ex-vice-presidente de Angola Manuel Vicente.

Entre as principais participações empresariais conhecidas do general ‘Dino’ estão também o Banco Económico, que resultou da falência do Banco Espírito Santo Angola e o grupo de comunicação social luso-angolano Newshold, para além da participação de 15% na Puma Energy.

No final do ano passado, a Polícia Judiciária portuguesa terá intercetado uma transferência de 10 milhões de euros da conta de ‘Dino’ no Millenium BCP a caminho da Rússia, acreditando-se que o destinatário era Isabel dos Santos, o que o general desmente.

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