Alberto Castro

Alberto Castro

Não vai ficar tudo bem!

Não tenho memória de um ano ser recebido com tanta expectativa quanto 2021. Como alguém dizia, a esperança é a virtude das horas cinzentas. As vacinas, começadas a aplicar mesmo no fim de 2020, alimentam-na. Daí até à ideia de que "vai ficar tudo bem" é um passo. Perigoso. Há sequelas físicas, mentais, sociais, económicas e políticas, já patentes ou latentes, que exigirão políticas e medidas específicas. Mas não só! O que significa "vai ficar tudo bem"? Regressar a janeiro de 2020? Então estava tudo bem? Para não falar de que o vírus já andava entre nós, já nos esquecemos das alterações climáticas, da desigualdade ou dos populismos extremistas?

Alberto Castro

Uma questão de bom senso

Quando se olha para o valor do salário mínimo que está em causa, não podemos deixar de ter vergonha por continuarmos a ter estas polémicas. É prova provada de que temos vindo a crescer pouco e, mesmo esse pouco, estará mal distribuído. Se tivéssemos feito o que era preciso, deveria ser a proposta da CGTP a ser o objeto da negociação. Assim, não passa de uma sugestão extravagante, que confunde desejos com realidade, reflexo de uma visão estatizante e protecionista que faz tábua rasa dos mecanismos básicos de uma economia privada e aberta.

Alberto Castro

PANdemia

Por iniciativa do PAN, apoiada pelo PS e BE, o orçamento limitou os incentivos aos carros híbridos e híbridos plug-in (HPI). Com base num estudo inglês, argumenta-se que o seu impacto no ambiente é uma fraude: a autonomia é limitada; as baterias tornam os carros mais pesados, exigindo motores mais potentes que poluem mais; por fim, os proprietários não recarregam as baterias dos HPI. Plausível. E, em Portugal, é essa a atitude? Não sabemos! A evidência que existe indica que a utilização diária habitual do automóvel (30 a 40km) fica dentro dos limites típicos da autonomia, mormente por coincidir com tráfego lento e pesado, menos consumidor da carga das baterias (e, ao invés, fator de poluição acrescida nos motores convencionais). Pouco importa: fixa-se em 50km o mínimo de autonomia elétrica como condição para os incentivos. Mas, se o pressuposto é que não se carrega a bateria, que razão têm os 50km?! Há quem diga que é por haver poucos com mais autonomia... Mas há mais: não tendo ideia como funcionam os híbridos puros, a condição proposta ou os exclui a todos ou não se aplica!

Alberto Castro

Leviatã

Como já aqui escrevi, tenho as maiores dúvidas que a resultante das negociações do PS com os seus habituais compagnons de route possa ser a base da política de desenvolvimento de que o país carece. A razão é simples: nessa visão, o Estado será o protagonista quase único. Faz parte do seu credo e essa fé viu-se reforçada com o inevitável papel que as políticas públicas têm de ter no combate às consequências da pandemia instalada. Para além do dichote primário, desinformado ou trumpiano, tanto faz, do género "então os liberais agora clamam pela intervenção do Estado?", releva, sobretudo, a vocação intrusiva, excludente e desmedida, seja em âmbito ou recursos, atribuída ao Estado. Regulação é um eufemismo para poder discricionário, sobretudo quando estão em causa grandes (mesmo que seja só à nossa escala) empresas. A desmesura do âmbito das funções ansiadas, dá razão à metáfora do Leviatã: monstruoso, único e universal. Como não podia deixar de ser, o monstro é insaciável, requerendo mais e mais recursos que apareceriam milagrosamente, seja pela expropriação fiscal, seja pelo funcionamento um modelo económico ficcionado, ao pior estilo neoclássico, em que o motor está do lado da procura e os efeitos são, por hipótese, sempre benéficos.