Inês Teotónio Pereira

Jurista

Inês Teotónio Pereira

Pt tou aki

Uma pessoa quer que eles se mexam. Quer que eles se mexam e que se sentem diretos nos sofás. Já agora, que não estejam sempre a olhar para os telemóveis. Os telemóveis - alguém devia escrever um livro sobre a era dos telemóveis à qual chamam erradamente era da globalização. Adiante. E essa pessoa, que são todos os pais do mundo, também quer que eles conversem, quer que dialoguem, que façam perguntas. No fundo quer que construam frases com sujeito, verbo, complemento direto e já agora indireto. Só que eles não conseguem. Hoje, os nossos filhos verbalizam o menos possível: eles nem sequer tocam à campainha da casa dos amigos não vá alguém atender - enviam mensagem por Instagram para lhes abrirem a porta: "pt tou aki". O outro responde com uma série de palavrões em abreviatura e a porta abre-se. Sei disto porque já vi e porque não respeito a privacidade dos meus filhos quando eles deixam as contas abertas no meu telemóvel. São uma delícia aqueles diálogos que não recomendo a pais sensíveis.

Inês Teotónio Pereira

O meu desejo é que o PS perca

Para mim o ano começa em Setembro, quem manda no meu início de ano é a Direção-Geral de Educação. Sempre foi assim e é uma mania de infância incorrigível. Começam as aulas, acaba o ano. É o fim assim como o fim-de-semana - começam as aulas, acaba o fim-de-semana. O meu ano passado foi em Julho, despedi-me dele andavam vocês numa roda viva entre o Algarve e Lisboa, de praia em praia e em visitas à terra de Norte a Sul do nosso Portugal. Agosto não é de ano nenhum, no meu calendário de 11 meses. É um mês híbrido, da classe dos unicórnios, que não é carne nem peixe. É o meu mês zero. E logo a seguir vem Setembro, o vosso Janeiro. Não faço nenhuma festa de 31 de Agosto para 1 de Setembro porque não sou maluquinha - ninguém comemora o final das férias e o início das aulas ainda por cima sozinha.

Inês Teotónio Pereira

Viver sem as pessoas

Lembro-me de achar que era uma fantasia, histerismo até, e dois meses depois estávamos fechados em casa. Hoje, temos todos imensas histórias incríveis para contar. Lembro-me de o meu filho mais velho informar que ia para um lar de idosos em Foz Côa, com uma missão recém-criada chamada Convidas: era preciso substituir os funcionários que estavam infetados e os velhinhos estavam isolados, a precisar de quem cuidasse deles. Foi como se estivesse a enviar um filho para a guerra. Passou lá os seus anos, a fazer de cuidador e mandava-nos fotografia vestido como um astronauta. Depois disso ainda fez mais duas missões, cresceu, divertiu-se, fez obra. Veio melhor e bem. E a fumar.

Inês Teotónio Pereira

O problema do não

Miguel Esteves Cardoso é que tinha razão, todas as crónicas deviam ser sobre o problema: é tudo sobre um problema qualquer. O nosso problema de pais são os filhos, está claro, e o grande problema dos filhos é o não. Dizer-lhes que não é todo o retrato de uma geração de pais e nada tem que ver com os coitados dos filhos. E são várias as razões que se prendem com esta incapacidade de dizermos que não. A primeira e a mais estúpida de todas é não conseguirmos ver os filhos sofrer, não estamos habituados a fazer isso aos animais quanto mais aos filhos. Negar-lhes um desejo é provocar-lhes sofrimento e isso dói-nos. Tira-nos a paz. Já nos chega o dia-a-dia, as guerras no mundo, a pandemia e as incertezas das globalização para nos tirarem a paz, por isso, ao menino dizemos que sim.

Inês Teotónio Pereira

Mimo do bom 

O que eu gostava mesmo era de ouvir a minha mãe ao telefone com a minha avó a relatar em pormenor as andanças da minha gripe. A falar de mim: "Ela hoje já se sente melhorzinha, com a tosse mais solta", contava tudo ao pormenor. "Já comeu melhor e vamos lá ver como passa a noite". Eu enroscava-me nos cobertores conforme aquela conversa me aquecia a alma. No meio daquela família barulhenta e de tanto que havia para a fazer, era a maleita ligeirinha que me fazia faltar às aulas que a preocupava. Por mim, ficaria de gripe, a ser o tema das conversas da minha mãe para o resto da vida.

Inês Teotónio Pereira

Das minorias, para as minorias e pelas minorias

É assim que funciona a democracia, é desta forma que são forjadas as novas ideologias e, como sempre, estas aventuras políticas têm a educação como recreio e as escolas como parques de diversões. A recente história da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, que a tornou conhecida pelas piores razões, é a prova do quão infelizes são as minorias que mandam na maioria dos alunos portugueses, assim como são infelizes as minorias que contestam a existência da disciplina.