Joana Petiz

Jornalista e diretora do Dinheiro Vivo

Joana Petiz

O país visto da bolha e decidido na bolha

Queremos incentivar o uso de transportes públicos, mas somos incapazes de pôr autarquias vizinhas a conversar pela integração e complementaridade de condições que permitam evitar, por exemplo, os mais de 300 mil carros que diariamente entram em Lisboa. Apregoamos a eletrificação da economia, mas criamos leis que castigam quem opta por veículos híbridos, empurrando-os para os que se movem a combustíveis fósseis. Queremos cortar o custo destes, mas mantemos impostos brutais no seu preço - como queremos que os patrões subam salários, mas penalizamos o valor que chega aos trabalhadores com uma carga fiscal brutal. Queremos incentivar a iniciativa privada, mas temos cada vez mais pessoas a engordar a máquina pública. Queremos captar indústria e investimento para o país, mas mudamos constantemente as regras a meio do jogo, complicamos licenciamentos e revoltamo-nos contra os impactos dessa mesma indústria. Queremos baterias, queremos produzir e exportar com mais-valia para o resto da Europa, mas minas e fábricas de lítio aqui, nem pensar. Queremos energias renováveis, mas sem estragar a paisagem, sem barragens, sem painéis solares que aquecem o ambiente e sem aerogeradores que estraçalham passarinhos. Queremos atrair talento qualificado para o interior, mas não asseguramos que essas regiões sequer tenham serviços básicos de saúde, educação e infraestruturas digitais.

Joana Petiz

Não foi manif, foi futebol!

Dois meses depois, anunciou o governo, com pompa e circunstância, uma descoberta de leão: afinal, o evento político com que a Juve Leo justificou a instalação de um ecrã gigante à porta do estádio José de Alvalade, onde o jogo que fez do Sporting campeão foi transmitido, não foi nada disso. Palavra de ministro da Administração Interna, que tinha até na mão o relatório oficial que comprovava as conclusões: a festa foi "abusiva", não houve "cooperação" com a polícia e o palco montado no estádio foi "abuso do direito à manifestação". Vejam lá que parece que tudo aquilo foi montado para os adeptos conseguirem ver o jogo e celebrar a vitória... não há direito!