Joana Petiz

Jornalista e diretora do Dinheiro Vivo

Joana Petiz

À beira do precipício, o passo em frente

A teimosia de António Costa em, após seis anos a liderar governos minoritários, recusar ver e considerar todo o espetro político pode sair-nos cara a todos. Se no momento pós-troika a viragem à esquerda pode ter-lhe sido fundamental para capturar o poder e devolver à sociedade o que esta reclamava, seria de esperar que a capacidade de entregar mais e mais, orçamento após orçamento se fosse esboroando. E naturalmente, entre conquistas de BE e PCP e até alguns rebuçados atirados ao PAN, a margem financeira para responder às sucessivas exigências da extrema-esquerda foi-se - como se vê neste "Orçamento bom para Portugal e bom para os portugueses, que na verdade pouco ou nada entrega"; como se vê no anúncio conjunto feito na quinta-feira pelas ministras da Presidência do Conselho de Ministros, do Trabalho, da Saúde e da Cultura. Por um lado, proclamam-se medidas para mudar o contexto laboral cuja negociação caberia à Concertação Social, esvaziando esse fórum fundamental em nome da capacidade governativa - sem resultados - e impondo o que não agrada nem a sindicatos nem a patrões. Por outro apresentam-se medidas gerais para captar médicos para o SNS que numa leitura não especialmente atenta se revelam vazias e ineficazes - a exclusividade paga-se, é simples. E 17 euros por hora contra os 70 conseguidos por quem faz o trabalho por encomenda especial não são atrativo nenhum. Mas acenar com o vil capital não é mel que atraia a extrema-esquerda.