Óscar Afonso

Óscar Afonso

Flores do campo e rosas urbanas — o povo e a elite

No auge da época do estio, quem, por esta altura, percorre os campos transmontanos depara-se com um majestoso manto de flores do campo que cobre o chão "que já coberto foi de neve fria". Nas terras de cereal, nas beiras dos caminhos, na lacuna das rochas, as flores do campo são a cor e a vida contrastante com o verde e amarelo das paisagens transmontanas. Muitas nem nome têm, outras são até consideradas tóxicas. Mas, mesmo as mais odiadas pelos agricultores acabam por ser aproveitadas com diversos fins; algumas são apenas comida para os animais, tal como uma outra erva qualquer. Longe das pragas citadinas, as flores do campo erguem-se no esplendor da vida, livres, espontâneas, humildes na sua essência, num jardim inebriante, que se demarca da futilidade, inautenticidade e invencionice das rosas urbanas.

Óscar Afonso

Saúde no interior – o seguro de saúde municipal

Depois de, em 2015, a Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo, ter implementado o Seguro de Saúde Municipal, também a candidata à presidência da Câmara Municipal de Miranda do Douro, Dra. Helena Barril, anunciou a intenção de oferecer um seguro de saúde semelhante aos munícipes do concelho. Assegura que o objetivo é prevenir a doença, prolongar a vida e promover a existência saudável, porque o município deve ser um verdadeiro ente de fins gerais, com um papel e ação cada vez maiores na promoção do bem-estar e na satisfação das necessidades das suas populações.

Óscar Afonso

Vou falar-vos da minha Terra, Miranda

Vou falar-vos da Terra onde se localiza a mais oriental cidade lusa, onde primeiro nasce o sol em Portugal e onde ainda se mantém viva a "Lhéngua Mirandesa". Situada num planalto, forma uma escultura natural com as arribas do Douro internacional, criando um cenário que abrilhanta a vista e testemunha as minhas memórias sobre um tempo bem diferente do atual. Hoje, com muita tristeza, digo serem escassas as vezes que todo este cenário se cruza com presença humana.

Óscar Afonso

Ética e Política: a imperial necessidade de rotatividade nos cargos

Os escândalos sobre corrupção praticada pela Elite Política portuguesa têm sido frequentes, reinando, com muito raras exceções, a impunidade. A meu ver, o que impulsiona a disseminação da corrupção é a dissociação existente entre a Política e a Ética, sendo que crescentemente as questões Éticas têm vindo a ser relegadas para segundo plano, aparentemente para que seja possível controlar a sociedade pelo Poder. Para demasiados políticos, o Poder, para ser concretizado na sua plenitude, atingindo os fins (particulares) desejados, requer que a Ética seja marginalizada, o Direito desconsiderado e órgãos de informação controlados.

Óscar Afonso

Um PRR que esquece a economia e o interior

Entre 1986 e o final de 2020, Portugal terá recebido um valor acumulado de cerca de 140 mil milhões de euros, e a dívida pública atual já ascende a mais de 270 mil milhões de euros. No mesmo período a desigualdade social e territorial aumentou, e entre 2000 e 2020 a taxa de crescimento do PIB real foi de apenas 0,5%. Com esta taxa de crescimento, só ao fim de 139 anos o país dobra o PIB real atual. Ora, se a taxa fosse de 2% seriam necessários 35 anos, e se fosse de 4% seriam apenas precisos 17 anos. Apesar das dádivas da União Europeia (UE), há, pois, que continuamente recorrer ao endividamento para alimentar a máquina ineficiente do Estado.

Óscar Afonso

A venda das barragens não paga impostos?

É já sabido por todos que, no passado dia 17 de dezembro, numa transação económica complexa de "aparente" reestruturação empresarial, a EDP vendeu, a um consórcio liderado pela ENGIE, seis barragens com a autorização do Governo, através do Ministério do Ambiente e da Ação Climática (MAAC). Três dessas barragens, as mais produtivas, situam-se na empobrecida e desumanizada Terra de Miranda no Douro Internacional - Bemposta, Miranda e Picote. Só para ter uma ideia, durante o período de exploração das barragens, enquanto a EDP se engrandecia, extraindo mais de 5,5 mil milhões de euros, a Terra de Miranda viu diminuir a população local para menos de metade e a atividade produtiva ainda muito mais. Ao valor extraído, a EDP adicionou agora o encaixe financeiro de 2,2 mil milhões de Euros com o negócio da venda das barragens.

Óscar Afonso

Pobreza versus riqueza: o estranho caso da Terra de Miranda

Nesta crónica abordo como o governo pode, por um lado, patrocinar a incoesão territorial e, por outro, a incoesão social assistindo e promovendo a pobreza de muitos e a riqueza de poucos, tomando como referência a Terra de Miranda. Tendo em conta a riqueza das pessoas que aí vivem, os PIB per capita de Miranda e de Mogadouro permitem que os concelhos estejam apenas nas posições 182 e 225, respetivamente. No entanto, tendo em conta a riqueza efetivamente produzida; i.e., contando também a ação das barragens hidroelétricas, de Bemposta (concelho de Mogadouro), e Miranda e Picote (concelho de Miranda), exploradas pela EDP até ao passado dia 17, o PIB per capita de Miranda passa para 5.º e o de Mogadouro para 25.º. Estes valores asseguram-nos que a Terra de Miranda não é pobre, mas que está empobrecida, que a riqueza aí gerada não é transferida para a população local, é extraída para alguns e fora do seu território.