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easyJet: “Ajudas de Estado devem ser abertas a todas sem distorcer concorrência”

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Director da easyJet diz que há companhias aéreas a receber ajudas quando os problemas são anteriores à pandemia. A TAP e a Alitalia são dois casos.

A easyJet está em Portugal há mais de duas décadas e é a segunda maior companhia no País, empregando cerca de 350 pessoas. A dar os primeiros passos na retoma da operação depois da interrupção provocada pela pandemia, o diretor da companhia para Portugal, José Lopes, vê com preocupação a possibilidade de Portugal não ser incluído nos países com corredor aéreo para o Reino Unido.

Qual o impacto financeiro da pandemia para a easyJet em Portugal?
Não entramos em detalhes sobre os resultados financeiros de cada um dos países. No entanto, estamos a falar, sem dúvida, da maior crise da história da aviação. Apresentámos os resultados do nosso primeiro semestre que ainda não esboçam o total impacto da crise mas já dão uma primeira mostra. No nosso caso, o primeiro semestre acabou em março. Ainda só tem o começo da pandemia porque foi quando a crise começou. Vínhamos de um inverno que estava a correr extremamente bem e em março foi precisamente quando começámos a ser impactados com a pandemia de covid-19. Em março cancelamos cerca de 18 mil voos e no final de março tomámos a decisão difícil de parar completamente a nossa operação. Em abril deixamos de operar quase 50 mil voos. Vai ter impacto no segundo semestre das nossas contas. Vai ser, sem dúvida, um ano muito difícil para todas as companhias de aviação sem exceção e com um impacto global total que ainda é difícil de avaliar porque não sabemos como é que vamos estar daqui a dois ou três meses. Estamos agora, neste segundo semestre, que é o do verão, totalmente atípico, e a seguir vem uma fase que na aviação é por norma uma altura deficitária. Daí a necessidade de, neste momento, tomarmos medidas difíceis de controlo de custos, redução de frota.

E lay-off?
No caso de Portugal, temos 99% dos nossos funcionários em lay-off desde abril. Iremos ter uma grande percentagem a regressar em julho.

Devido aos voos que decidiram reabrir?
Depois de 11 longas semanas parados, retomamos com uma operação que ainda é simbólica. Antes da pandemia tínhamos mais de 350 aeronaves a voar em toda a rede. Neste mês de junho, seis. No que diz respeito a Portugal, estamos a operar uma rota em Lisboa, uma no Porto e uma em Faro. Em julho, esperamos já dar um primeiro passo para tentar aproveitar algo do verão. Iremos retomar aqui em Portugal de norte a sul 80% dos nossos destinos, com uma capacidade mais reduzida. Apesar de estarmos a lançar 80% das rotas que anteriormente operávamos, iremos operar menos frequências. As frequências com que iremos arrancar no início do mês corresponderiam a cerca de um terço da nossa capacidade normal num julho não afetado por esta nova realidade. Tudo isto obriga a que exista uma grande preocupação com os custos, daí termos tomado esta decisão de reduzir o tamanho da frota e esperamos em 2021 estar com cerca de 300 aeronaves. Ou seja, vamos estar num tamanho similar ao que estávamos em maio de 2018.

Para Portugal, que efeito terá?
Neste momento, estamos a avaliar com muita cautela toda a operação da easyJet e de todas as bases. O impacto desta redistribuição de menos aviões por toda a Europa terá muito que ver com a rentabilidade de linha de voo que podemos pôr a operar, com a evolução da procura e com as restrições que existam nos diversos mercados. É um trabalho detalhado que está a ser feito neste momento. Ainda não temos resultados. Para já, o nosso enfoque é nesta primeira quinzena de julho retomar um terço da nossa operação portuguesa, explicar a todos os nossos clientes que o nosso paradigma sobre a segurança continua a ser o maior pilar da easyJet; mostrar que neste momento temos implementado na aviação todas as medidas de segurança para que seja seguro voar, com a obrigatoriedade da utilização de máscaras a bordo, com a existência de gel a bordo, mantendo o distanciamento social nos aeroportos e nos processos de embarque e desembarque, não existindo qualquer tipo de serviço a bordo por forma a minimizar o contacto entre tripulantes e passageiros. A nossa expectativa no que diz respeito a Portugal é passarmos das 80% das rotas operadas em julho para mais de 90% em agosto. Mas vai tudo depender muito da evolução não só da resposta à procura mas também da evolução das restrições.

A falta de um corredor do Reino Unido para Portugal pode ser um desses problemas?
O Reino Unido é a origem número um de turismo para Portugal. Portanto é de grande importância a possibilidade de existir um corredor entre o Reino Unido e Portugal. A existência de uma quarentena no Reino Unido – e que está em vigor – afeta a procura e é um limitador para a procura e para a conectividade. É importante que os corredores aéreos que vão ser anunciados brevemente incluam Portugal.

Pode haver uma redução do número de trabalhadores que a easyJet tem em Portugal até ao fim do ano?
Neste momento, temos cerca de 350 empregados em Portugal, com contratos portugueses. A easyJet orgulha-se de cumprir à risca toda a legislação laboral nacional. Não temos trabalho precário.

Não têm contratos a prazo?
Não temos contratos a prazo e portanto somos uma empresa cumpridora com todos os nossos funcionários, pagamos impostos no País e contribuímos para o desenvolvimento da economia. Infelizmente, neste período que vai agora cumprir de três meses temos 99% dos nossos funcionários em lay-off, o que representa um grande esforço por parte de todos eles. Entendemos que a decisão do governo de estender o lay-off simplificado a julho é uma boa ajuda para as empresas especialmente as do turismo, porque esta retoma, ao contrário de outras crises, não vai ser possível ser feita de imediato. Para Portugal o que posso dizer é que esperamos que mais de metade dos nossos empregados possam retornar ao trabalho em julho. No que diz respeito a despedimentos, publicamente anunciamos que arrancámos com um processo de despedimento coletivo global, que afetará cerca de 30% da nossa força laboral global, ou seja, cerca de 4500 pessoas num universo de cerca de 15 mil pessoas por toda a Europa em oito jurisdições. Este processo já começou. Está mais avançado no Reino Unido e irá, nos próximos meses, ser analisado em detalhe nas outras sete jurisdições europeias e da qual faz parte Portugal.

Não pode descartar que venha a haver despedimentos na easyJet em Portugal?
É algo que ainda terá de ser analisado e que iremos, assim que tivermos mais detalhes, discutir primeiro com as nossas pessoas. Agora, é uma decisão que não é cega. Quando estamos a falar dos 30% de corte não é um corte cego. É um corte racional em que terá que se olhar muito atentamente para a realidade não só de cada país mas para a realidade de cada base em que operamos. Em Portugal, operamos uma base em Lisboa e outra no Porto. E dentro dessas bases, iremos ao detalhe de olharmos para cada linha de voo, ou seja, rotas que cada avião faz porque numa ótica de rentabilidade teremos de proteger as que são melhores e deixar cair as que apresentam resultados menos eficientes. É um trabalho minucioso e daí não podermos entrar para já no detalhe para Portugal.

Qual é o principal desafio para a companhia em Portugal?
Temos alguns. Um deles, é manter um custo operacional baixo e uma operação o mais simplificada possível. Esta pandemia trouxe custos adicionais nomeadamente os que são necessários para termos máscaras a bordo, limpezas extra. Numa altura em que existe pouca procura e que se espera uma quebra nas tarifas médias globais, é necessário um grande esforço para manter os custos controlados e a operação o mais simplificada possível. Era muito importante que a nível de todas as autoridades de saúde europeias, os vários requisitos que vão sendo implementados sejam uniformes.
É importante olharmos para as restrições. Se as restrições à conectividade voltarem a aumentar será um problema para Portugal ou para qualquer outro mercado. Isto é algo que iremos também continuar a olhar; daí a nossa preocupação no que diz respeito ao mercado do Reino Unido e à quarentena.

Onde há muitos portugueses a viver.
Sem dúvida. A quarentena é um entrave a essa conectividade. Por um lado, ao mercado étnico, que emocional e que tem essa ligação ao País. Por outro, ao mercado turístico puro e duro. Se de repente tivermos um bloqueio à conectividade com o Reino Unido, iremos ter regiões como o Algarve, Funchal, mesmo Lisboa e Porto, com um impacto brutal no turismo, que depois se vai reflectir na existência de rotas. Outra preocupação que, neste momento existe, por toda a Europa, e Portugal não é exceção, é o risco de tomada de medidas que distorcem o mercado.

Pode concretizar?
Estamos a começar a ver a implementação por esta Europa fora de medidas de ajuda de Estado, que irão de forma claríssima distorcer o mercado. A easyJet não é contra as ajudas de Estado como princípio. Não tivemos uma ajuda de Estado. Contraímos um empréstimo em condições comerciais normais, que está a ser pago com juros. O que defendemos é que as ajudas de Estado devem ser abertas a todas as companhias aéreas sem distorcer a concorrência. Não devem existir às custas quer dos passageiros, quer dos contribuintes. Nós easyJet somos uma das companhias europeias financeiramente mais fortes. Temos uma dívida baixa, temos rating de investimento e, antes da crise, estávamos – devido a boa gestão – à frente de uma série de concorrentes a nível competitivo devido ao bom trabalho de gestão. Estamos agora em perigo de perder essa liderança, vantagem competitiva, porque concorrentes, comparativamente connosco ineficientes, estão agora a receber ajudas de Estado que não são apropriadas.

Algum em específico?
Não iremos mencionar nomes mas creio que não podemos querer dizer que é necessário proteger infraestruturas, que é necessário que o País esteja conectado com o mundo e continuar a atirar milhares de milhões de euros para algumas das mais ineficientes, das piores, companhias aéreas da Europa. Pedimos à UE que olhe com muita atenção para todos estes casos. E que não permita que a concorrência seja distorcida. O meu papel é, não só defender a easyJet, mas também o esforço de todos os nossos funcionários.

Como é que vê a situação da TAP e das ajudas que vão ser atribuídas?
Na easyJet orgulhamo-nos de servir Portugal de norte a sul – Porto, Lisboa e Faro – de forma equitativa. Destas 51 rotas que iremos retomar, iremos retomar cerca de 13 a 15 em Lisboa, Porto e Faro, de forma igual.

É um reparo a uma companhia aérea que não fez o plano de retoma dessa forma?
Não necessariamente. Estou a alertar para o bom trabalho que temos vindo a fazer e que às vezes não é reconhecido. É um trabalho que é feito há mais de duas décadas em meia a promover Portugal. O que que é crítico é haver condições de acesso iguais para todos, sem distorção do mercado, para que, aqueles que fazem o seu trabalho bem, possam continuar a fazê-lo, sem que se tente criar de forma artificial formas para resolver problemas que não têm a ver com a pandemia. Existem algumas companhias aéreas que estão a receber ajudas de Estado que estão relacionadas com a pandemia. E há companhias que estão a receber ajudas de Estado que não estão relacionadas com a pandemia porque já estavam em dificuldades financeiras antes da pandemia.

A TAP, por exemplo?
A TAP é uma delas. A TAP, tal como, a Alitalia

A Alitalia é uma situação ainda mais dramática.
Começou antes. Mas o processo de reestruturação é exatamente o mesmo. O processo que foi agora aceite pela UE para a TAP é igual ao processo que a Alitalia começou há algum tempo. São dois exemplos, de duas companhias, que já estavam em dificuldades financeiras e que não podemos agora permitir que as ajudas de Estado sejam implementadas – se não forem devidamente acompanhadas pela UE – e que venham distorcer o mercado e pôr em risco o bom trabalho de outras empresas que ao longo dos anos fizeram as coisas bem e que trabalharam por forma a ter a tal vantagem que agora se arriscam de forma artificial a perder.

A easyJet considera que em Portugal deveriam existir medidas específicas para o setor da aviação? Quais?
Sem dúvida. As medidas de apoio à indústria devem ser transversais, transparentes e disponíveis para todos os que operam no País. E são precisamente esse tipo de medidas que devem ser tomadas em vez de atirar dinheiro para cima de projetos que não funcionam. Aquilo que deve ser feito é de forma transversal é permitir que os custos operacionais, especialmente nesta altura em que existem uma procura reduzida, tendencialmente excesso de capacidade no mercado, possam ser menores. O que temos vindo a solicitar é que, por exemplo, no que diz respeito ao controlo de tráfego aéreo, é que as taxas de controlo de tráfego aéreo sejam eliminadas pelo menos até ao final de 2020. No que diz respeito à cobrança da taxa de segurança – taxa cobrada para suportar o trabalho feito pelos corpos policiais nos aeroportos – poderia também, neste período de tempo, deixar de ser cobrado por forma a ajudar a indústria a respirar porque a indústria depois dá de volta ao País de outras formas.

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