A Casa dos Espíritos (parte I)

José Maria Espírito Santo, o fundador, e os três filhos: Manuel, José e Ricardo
José Maria Espírito Santo, o fundador, e os três filhos: Manuel, José e Ricardo

Estava um calor infernal naquele mês de Agosto de 1975, quando o marquês de Deleitosa mandou abrir os portões da sua finca em Puebla de Montalbán. Iria abrigar os amigos que durante a Guerra Civil de Espanha tinham acolhido a sua família, em Santa Marta, sobre o mar de Cascais. A história repetia-se, quarenta anos depois.

Chegaram primeiro as mulheres e as crianças. Dias mais tarde, a salto, alguns homens da família Espírito Santo Silva, com dois ou três colaboradores mais próximos.

Para trás ficavam, quatro meses na prisão e a história de duas gerações dedicadas à construção do maior banco privado português. Num sopro, o processo Revolucionário em Curso tomara o Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa (BESCL), a Tranquilidade e os passaportes dos seus maiores accionistas. As contas tinham sido congeladas e uma imprevidência estranha deixara-os com pouco dinheiro fora do País.

A única dinastia financeira de Portugal chegara ao fim. Aproximava-se a hora de cada um seguir o seu caminho. Tal como nos romances de Thomas Mann, a decadência dos bisnetos fecharia o ciclo de uma família que tivera projecção económica, social e cultural nas três primeiras gerações.

Para os Espírito Santo, os calores daquele Verão de 75 passam-se entre as sombras dos pomares de Deleitosa, os mergulhos no Tejo e a sensação única de estarem juntos e a salvo. Dão-se conta de que só se têm uns aos outros e mais uma colecção de amigos influentes no estrangeiro. O próprio marquês dirige, nessa altura, o Banco Exterior de Espanha. É sogro da duquesa de Badajoz, irmã do rei. E não faltam telegramas de apoio dos Rockfeller, de Giscard d’Estaing, de D. Juan Carlos, do conde de Paris, Richard Nixon e Bernardo de Holanda.

“Tínhamos uma coisa muito importante: um nome capaz de abrir portas no estrangeiro” explica José Manuel Espírito Santo. Mesmo sem o banco, mantinham-se no inner circle mundial. Numa tarde, à volta da mesa, decidem continuar juntos. Como se de uma jura se tratasse. E reerguer o grupo que o avô José Maria E.S., levantara do nada nos últimos anos de Oitocentos.

Dava origem a uma família invulgar. Os Espírito Santo atravessam a crise da monarquia, o caos republicano, o marasmo salazarista e o saque da revolução com a fleuma de quem tem um caminho só seu. Imperturbável, até nas rupturas que a vida impõe a qualquer clã. Têm morrido cedo, os seus chefes. Mas redescobrem-se entre si. Como se tivessem combinado continuar a saga do homem que um dia nasceu incógnito, no 72 da Travessa dos Fiéis de Deus, em Lisboa.

O primeiro milhão

Foi em 1850, “aos vinte dias do mês de Maio de mil oitocentos e cincoenta Baptizei – José – que nasceu a treze do corrente ano, filho de Pays incógnitos, apresentado nesta Igreja pela parteira Hipólita Joanna”, dita o padre Joaquim, coadjutor na igreja da Encarnação.

José tomará o nome de Maria, Mãe de Deus, sua madrinha de baptismo; do Espírito Santo, quando se crisma; e Silva, talvez como seu pai. Carlos Damas, do arquivo histórico do BESCL, segue a pista do conde de Rendufe, intendente-geral da Polícia. Atribui-lhe a paternidade da criança nascida nos Fiéis de Deus. Tem até um retrato do fidalgo pendurado numa das salas da Rua do Comércio. O conde era padrinho de Maria Angelina, que criou o rapaz, a quem nunca fez passar as privações comuns a estas crianças na Lisboa dickensiana do século XIX. “Mas factos só com provas”, adiantou o arquivista.

A verdade é que, aos 19 anos, quando José Maria casa pela primeira vez, já é dado como cambista estabelecido no 91 da Calçada do Combro. Um sucesso precoce que sugere apoio familiar.

Começa por distribuir cautelas da lotaria espanhola. Aproveita a enchente de carlistas, que, na década de 70, procura abrigo em Lisboa. São anos difíceis para José Maria E.S. O negócio envolve riscos que as crises financeiras de 1875-76 vêm aprofundar. À febre bancária, seguem-se insolvências das casas de crédito.

Numa das suas cartas, José Maria escreve: “Trabalho até às duas da noite e sendo 5 ou 6 da manhã, volto ao trabalho das facturas, pois o dia não me chega, às vezes para fazer compras e vendas e cobrar outras vendas já feitas a prazo, de bilhetes e prémios.”

Os registos do jovem cambista denunciam um controlo apertado nas contas e a caligrafia irregular de quem pouco estudou. Doseia risco com minúcia. “Mais vale perder pouco e cedo do que muito e tarde”, escreve em Março de 1878, descontente com o negócio dos cupões espanhóis. Dedica-se à compra e venda de títulos nacionais e estrangeiros. Aproveita uma breve alta da economia. Mas abusa da atenção. Assina jornais estrangeiros para estar mais informado do que a concorrência. E nunca deixa de ir à Bolsa de Lisboa, todas as tardes, para acompanhar a evolução das cotações.

Reinveste sempre. Como se soubesse cedo onde vai chegar. Compra lotes no Passeio Público, que – sabe – será arrasado para a abertura da grande Avenida da Liberdade. E descobre Campo de Ourique, antes da hora. Arrenda ali a exploração de uma pedreira e passa a vender lotes construídos. Em dez anos faz o seu primeiro milhão.

Regressa à banca. Por várias vezes, José Maria E.S. desfaz as sociedades bancárias. Sabe que o seu único capital de risco é a confiança dos depositantes. “My word is my bond.” E não tolera as dívidas dos sócios. Obriga-os ao acertar as contas mas, curiosamente, volta a tomá-los como parceiros.

Na decada de 1890, o Ultimatum inglês, as conspirações republicanas e a falência de Baring Brothers – banqueiros do Governo – desencadeiam uma crise financeira que leva Portugal a abandonar o regime do padrão-ouro.

José Maria obriga-se a uma pausa bancária (1889-97). O seu património soma já 500 contos de reis. Uma fortuna. O cambista passa a comprar prédios por toda a cidade. Prefere a Lapa, Arroios, Santa Engrácia, Santa Isabel e o Chiado. E não dispensa um conjunto no Paço do Lumiar.

É nesse altura que casa, pela segunda vez, com Rita Ribeiro. Uma mulher “muito mais nova e muito bonita”, que lhe dá quatro filhos: Maria, José, Ricardo e Manuel.

Estamos no início do século XX. José Maria tem pouco mais de 50 anos, mas sente-se doente. Passa temporadas cada vez maiores em Interlaken, nos Alpes suíços, de onde escreve a sua mulher insistindo na disciplina de estudo dos três rapazes. Sobretudo nas línguas. Manda o mais velho para a Merchiston Castle School, em Edimburgo. Quer dar-lhe uma formação capaz de o preparar para o governo dos negócios.

Imparável, ainda aposta em África (1906). Tem açúcar em Moçambique e algodão em Angola. Investimentos seguros, mesmo nos anos que anunciam a desordem republicana. José Maria E.S. nunca se envolve no carrossel político que, há 20 anos, preenche a agenda do País. Não tem qualquer contacto com a oligarquia política e económica do seu tempo. É um homem que vive apenas para a construção de um império que quer deixar aos filhos. Morre em 1915.

Só o seu testamento denuncia uma timidíssima preferência política. Da metade disponível da herança, distribui 30 contos por asilos e albergues de infância desvalida. Neles se destaca a sociedade de beneficência do muito republicano José Estevão.

Um escândalo em Lisboa

Com os mesmos 19 anos com que seu pai começara a trabalhar, José E.S. assume a liderança dos negócios da família. Acompanhara as lides financeiras nos últimos dois anos e tem uma estratégia. Traz de Inglaterra a ideia de lançar uma rede nacional de balcões, como nunca se vira em Portugal. Uma teia parecida com a do Midland Bank, que captasse os abastados depósitos da província. Muito em breve, os velhos sócios de seu pai vão virar-se contra o rapaz.

As convulsões políticas e cambiais na Primeira República sugerem aos mais conservadores menos experiências. De 1914 a 1920, o custo de vida subira 14 vezes. Em 1918, Sidónio Pais é assassinado e um ano depois surgem movimentos restauraccionistas no Norte. A violência, o terrorismo e os golpes de Estado multiplicam-se, criando um clima de nervosismo nos capitais.

Por outro lado, os verdes anos de José E.S. oferecem aos seus sócios uma oportunidade única para tomarem o controlo da casa bancária. O projeto de construção da importante filial do Porto dará pretexto para um ultimato ao herdeiro. As múltiplas condições eram “indiscutíveis” para os sócios. Como indiscutíveis foram para José Espírito Santo. Sem resposta, a questão morreria num acordo, três meses depois, que dava a posse integral da casa à família. A 9 de abril de 1920, lançava-se finalmente o Banco Espírito Santo, SARL. José E.S. chama então uma nova equipa de colaboradores. São técnicos, advogados e comerciantes – pessoas que estabelecem pontes com outros negócios. Quer a ligação do capital financeiro ao capital comercial e industrial. Na mesma linha, fortalece as companhias africanas.

Também na casa dos Espíritos havia novidades. Depois dos estudos em Edimburgo, Ricardo casara, em 1918, com Mary Cohen, uma bonita judia de 16 anos, filha de um conhecido financeiro de Gibraltar. José E.S. pelo seu lado, apaixonara-se pela irmã, Vera Cohen, também ela de uma beleza que fica na história. Mas Maria – a irmã mais velha dos dois irmãos – “não aprova o namoro”, que repete as famílias. Programa um casamento mais pensado: Maria José Borges Coutinho seria a mulher ideal para José E.S.

A ideia dos amores contrariados resulta provisoriamente. José E.S. e Vera Cohen passam anos separados. Ele casa e tem três filhos. Ela também casa, mas não chega a ser mãe. Um dia, em 1932, recebe um recado. José E.S iria raptá-la nessa noite. Vera Cohen “vai dormir a casa de umas tias de onde partem juntos, de comboio, para Paris”, conta Maria João Bustorff, [no ano 2000] presidente da Fundação Ricardo Espírito Santo.

O escândalo ecoa na pequeníssima Lisboa dos anos 30. À excepção do duque de Palmela, “todas as portas se fecham ao novo casal”. E a presidência do banco passa, de imediato, para Ricardo E.S., a quem José E.S. vende todas as acções da instituição de crédito. Salva-se, assim, a jóia do grupo.

José e Vera E.S. instalam-se em Paris num apartamento Belle Epóque, em Passy. Priva com os duques de Windsor e estabelece contactos internacionais úteis ao grupo em Lisboa. Interessa-se por outras áreas financeiras. “A indústria dos seguros apaixonava-me pela sua complexidade e diversidade.” Desde sempre. Tornara-se accionista da Tranquilidade Portuense, logo em 1918, e vai convencer os irmãos a incluírem a empresa no grupo Espírito Santo.

Regressa a Portugal em 1937, onde passa a viver os melhores seis meses de cada ano, no Estoril. O seu irmão Ricardo devolve-lhe as acções ao preço de custo. “Coisa que os irmãos Sousa, do Fonsecas, nunca conseguiram entender”, comenta Ricardo Salgado, actual presidente do grupo.

Até ao fim dos seus dias, José E.S. será consultado sobre as grandes questões do grupo como presidente do Conselho Geral do BESCL. É considerado o melhor técnico financeiro de sempre da família. Domina a estratégia sem desconhecer a oportunidade: “É a eminência parda do banco, quem realmente manda nas questões fundamentais”, explica Ferreira Neto, [no ano 2000] presidente do BIC.

Exigente, quase duro, José E.S não dá largas à bonomia tão repetida nos seus irmãos Ricardo e Manuel. Assim parece. Mas quando morre, em 1968, entrega o terço disponível do fartíssimo testamento a todos os empregados do banco e da Tranquilidade. Privilegia, sobretudo, os que o serviram nos anos mais difíceis da Grande Guerra e da década de 20.

Íntimo de Salazar

Mais afortunado seria Ricardo E.S., de 1932 a 1955. Colhe os dividendos que a II Guerra Mundial traz a Portugal e à Suíça e vive os melhores anos do regime num excelente trato com Salazar.

Seguindo os conselhos do irmão mais velho, será o inventor da banca de retalho em Portugal, antes de Cupertino de Miranda. Logo em 1937, compra o Banco Comercial de Lisboa. “A fusão foi deitar uma parede abaixo e descobrir que havia um degrau de diferença entre os pisos”, lembra um funcionário. Mas não só. O Comercial dava aos Espíritos um corpo financeiro apto para fazer músculo com os benefícios da guerra. As importantes transacções internacionais, sobretudo de volfrâmio, passam pelo BESCL e dão-lhes uma base para crescer.

As teses de Fernando Rosas e António Louçã atribuem uma tendência germanófila a Ricardo E.S., durante a II Guerra Mundial. Sabe-se que o banqueiro foi preso pela Resistência francesa, em Abril de 1945, e António Telo atribui essa prisão aos negócios do BESCL com a Alemanha. Mas, pelo seu lado, Carlos Damas, do arquivo histórico do BESCL, vai publicar em breve outra tese sobre a travessia do Banco nos anos da guerra [“O Banco Espírito Santo”, Vol. I, Lisboa BES, 2004]. E guarda cartas – que não mostra – de israelitas americanos agradecidos pelo apoio recebido na aflitiva escala de Lisboa.

Atribui-se ao sangue judeu das irmãs Cohen a ajuda que o banco terá dado aos judeus que por cá passavam, rumo às Américas. Mary convertera-se ao cristianismo para casar com Ricardo E.S. Mas, quando morreu, tinha escondido, do lado do coração, um alfinete com mais de vinte medalhas de santos onde se via o brilho de uma pequena estrela de David.

Os arquivos do BESCL, que poderiam ajudar a esclarecer a questão, foram sendo destruídos por sucessivas vagas de aproveitamento de espaço.

Certo é que o bom trato social de Ricardo e Manuel E.S. transformam o grupo num íman de interesses internacionais. Pelas casas dos três irmãos passam todas as cabeças coroadas europeias que tinham procurado refúgio em Portugal. A pedido de Salazar, Ricardo E.S. recebera também os duques de Windsor, durante o mês de Agosto de 1940. Hitler entra em Paris e Churchill ainda não destinara o governo das Bahamas ao antigo rei de Inglaterra.

Entre o Eixo e a Aliança inglesa, Salazar balance. Em Abril de 1944, o presidente do Conselho está submetido a uma enorme pressão. Há desassossego no ar, novos rumores de greves, escassez de pão e são encontradas bombas relógio nas linhas férreas que conduzem a Espanha.

Mas a maior pressão vem de fora. Churchill quer uma definição de Portugal e Berlim aguarda a resposta de Lisboa. É do banqueiro que Salazar obtém mais uma informação preciosa: o embaixador do III Reich “confessa a Ricardo Espírito Santo que será retirado de Lisboa se for imposto à Alemanha um embargo total”, como escreve Franco Nogueira.

Ricardo E.S. é íntimo de Salazar. Tanto quanto o presidente do Conselho tem intimidade com alguém. “Quem cooptava os amigos era Salazar”, precisa Augusto Athaíde. “Governava com a sua equipa ministerial mas contava com uma segunda estrutura que ouvia à hora do chá.”

Se os irmãos Sousa – do Fonsecas – eram mais chamados para dar crédito às obras do Regime, Ricardo E.S. é o banqueiro mais ouvido pelo presidente do Conselho. O que não deixa de ser estranho. O banqueiro representava tudo o que Salazar queria à distância. Era viajado, riquíssimo, boémio, esteta, independente e entrara directamente para o topo da sociedade lisboeta.

Em Ricardo E.S., por outro lado, também não se adivinha qualquer interesse em Salazar que escape à navegação económica e financeira dos Espíritos. “Portugal é a excepção. À sua maneira, cada um é profundamente nacionalista, amante de Portugal”, diz quem os conheceu.

Apego à estética

Desde os 16 anos que Ricardo E.S mostra interesse por tudo quanto é português. É gozado em casa, pelos irmãos, quando faz a sua primeira compra: um tapete de Arraiolos do século XVIII, “em péssimo estado”. Numa tasca de Torres Vedras ouve o barulho de uns talheres mais pesados na cozinha e quer saber do que se trata. A sua segunda compra é esse conjunto de prata do século XVIII, com estojo de tartaruga.

A jornalista francesa Christine Garnier escreve: “Acometido por uma espécie de febre, de frenesim, deitou-se a viajar pelo mundo em busca de quadros, móveis antigos, joias, pratas, porcelanas e bibelots raros […] Sempre que encontra no estrangeiro alguma coisa bela com a marca de Portugal, apressa-se a comprá-la para a trazer, com amor, de volta ao seu País.”

Conta-se até que, durante a guerra, Ricardo escapou de um atentado da Resistência francesa, descontente com tamanhas transacções. Terá sido salvo pelo dono de uma fundição de Oeiras, com melhores contactos na mesma Resistência.

Junta a maior colecção de peças portuguesas e francesas do País. Em 1947, compra o Palácio Azurara, às Portas do Sol, onde instala os objectos nacionais. Antes de morrer, em 1953, oferece o museu ao Estado, com uma escola de restauro. Escandaliza-se com o estado do património português e previne maiores estragos.

Na mesma linha, entende o génio de Amália Rodrigues e dá-lhe mundo. As suas casas são palco para gente do teatro, da música e da cultura. Num compromisso raro entre boémia e tradição, Mary Cohen dá abrigo a tamanha existência. Tem mundo. “Era considerada uma das mulheres mais cultas e elegantes de Lisboa. Pierre Balmain tinha o seu manequim em Paris. Na Primavera e no Outono mandava-lhe amostras e modelos com comentários e recomendações”, conta a neta, Maria João Bustorff.

O apego à estética e a proximidade com o presidente do Conselho levam Ricardo E.S. a atitudes inesperadas. Quando Salazar decide comprar uma residência oficial em S. Bento, em Abril de 1939, o banqueiro surge como mecenas do Estado. “Para guarnecer a parte oficial contribui Ricardo Espírito Santo, que, sem conhecimento de Salazar, fornece gratuitamente algumas peças de sua propriedade pessoal”, escreve Franco Nogueira.

Será pouco provável que o minucioso político não tenha conhecido a origem dos objectos de arte. A relação com o banqueiro era demasiado próxima, como se repara num “pormenor de interesse” que o biógrafo de Salazar escreve sobre Christine Garnier, a quem se atribui um romance com o presidente do Conselho. “Todas as despesas de C.G. – transportes, hotéis, viagens, presentes – eram integralmente pagas pelo bolso de Salazar. Geralmente eram liquidadas por Ricardo Espírito Santo, a quem Salazar reembolsava por cheques, cujos talões encontrei entre o seu espólio.” Na lista dos seis homens que Garnier “julga poderem informá-la sobre o Chefe do Governo”, estão, à cabeça Mário de Figueiredo, Manuel Cerejeira e Ricardo Espírito Santo.

O fim de um ciclo

São múltiplos os investimentos estratégicos que unem Salazar a Ricardo E.S. O presidente do Conselho conta com o banqueiro para preparar o financiamento da Ponte sobre o Tejo e para fundar a TAP e a Sacor. A última, com o romeno Sein e Queirós Pereira. “O Estado precisava que as empresas nacionais desenvolvessem a autonomia do País”, explica Carlos Damas, do Arquivo Histórico do BESCL. Também o Hotel Ritz foi uma encomenda feita por Salazar a Ricardo E.S. e Manuel Queirós Pereira. Fazia falta em Lisboa um hotel com categoria para receber as mais ilustres personalidades estrangeiras.

Mas nem sempre os dois homens se entenderam. Divergiram, pelo menos, em três grandes questões. No pós-guerra, o banqueiro insistiu na necessidade absoluta de Portugal aceitar o Plano Marshall; Espírito Santo sentiu os limites impostos pelo presidente do Conselho a investimentos no estrangeiro; e não reconheceu grandes vantagens oficiais no desenvolvimento económico das províncias ultramarinas. “Salazar era um grande financeiro mas à pequena escala”, define Ricardo Salgado.

Jaime Nogueira Pinto adianta: “Salazar aceitara, por necessidade de confiança e mobilização de capitais, a ascensão destes grupos económico-financeiros, embora os mantivesse nos limites da sua actividade específica, cortando-lhes o passo na intervenção política. Controlava-os como um árbitro, mantendo relações pessoais com alguns dos seus chefes, as quais eram sobretudo de ‘cortesia’, em que eram guardadas distâncias e intimidades.”

Nada que evitasse os Espírito Santo de atingir, na segunda geração, o olimpo económico-financeiro do seu país. Quando Ricado E.S. morre, o BESCL é o primeiro banco privado português. Destaca-se: tem o dobro dos depósitos em relação ao segundo. E não só.

A extensa necrologia do banqueiro das artes, publicada nos jornais de 3 de Fevereiro de 1955, é eloquente: além do BESCL, despedem-se de Ricardo do Espírito Santo e Silva a Sacor, a TAP, a Cidla, a sociedade agrícola de Cassequel, a sociedade de algodões de Moçambique e as oficinas gráficas, a que se poderiam juntar outras empresas como a Tranquilidade, a Previsão e também a Companhia Geral Resseguradora. Mas também o Sporting Club de Cascais, a Academia dos Amadores de Música e a Fundação que leva o seu nome. Durante o percurso fúnebre sobrava povo nas ruas que ligam a Basílica da Estrela ao Cemitério dos Prazeres.

Fechava-se o primeiro ciclo ascendente da família Espírito Santo Silva.

Leia a segunda parte de “A Casa dos Espíritos”, em dinheirovivo.pt na próxima sexta-feira, dia 30 de maio

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