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“A venda do Novo Banco em 2015 teria rendido mais”

Fotografia: REUTERS/Rafael Marchante
Fotografia: REUTERS/Rafael Marchante

Nicolas Verón, do Bruegel, diz que é “triste” que ex-BES seja vendido por tão pouco, mas a venda pode marcar o fim da crise bancária portuguesa

A desistência do anterior governo em levar o primeiro processo de venda do Novo Banco até ao fim foi uma decisão que terá saído cara aos contribuintes, considera Nicolas Verón, investigador sénior do think tank Bruegel. “O governo português perdeu a oportunidade de vender o Novo Banco em 2015, e parece-me que na altura poderia ter alcançado um preço maior”, referiu ao Dinheiro Vivo, em conversa sobre o levantamento que fez sobre os acionistas dos bancos do euro.

O Novo Banco e a CGD são dois dos bancos presentes na longa lista de entidades financeiras em mãos públicas na zona euro de acordo com o levantamento de Verón, que concluiu que entre os 97 bancos de maior dimensão sediados na região, 41% são controlados por entidades públicas. Mas o ex-BES já poderia estar fora desta lista. E apesar de hoje poder sair em piores condições que em 2015, Nicolas Verón defende que a entrega do banco ao fundo Lone Star deve avançar, até porque será um importante marco.

“Assumindo que as questões legais com os detentores de obrigações são resolvidas de forma satisfatória, a venda do Novo Banco pode marcar simbolicamente o fim da crise bancária portuguesa que começou quase há uma década com o BPP e o BPN”. Em sentido inverso, um novo recuo “seria percebido negativamente por investidores e observadores”.

O economista Nicolas Verón, do think tank Bruegel

Nicolas Verón, do think tank Bruegel

Nas suas conclusões, Verón recomenda que a zona euro avance com mais privatizações na banca além das previstas, mas não a qualquer preço, nem a investidores que perpetuem a opacidade do setor. Questionado se estas ideias não aconselham um recuo na entrega do ex-BES ao Lone Star, o investigador recusa a ideia, defendendo que este desfecho até irá acelerar a recuperação do banco.

“Pode ser uma excelente forma de preparar o banco para nova dispersão em bolsa. Muitos fundos têm larga experiência na gestão bancária e estão preparados para tomar decisões difíceis, a nível estratégico e a reestruturar”, explica. “Certamente é triste que o preço seja tão baixo”, acrescenta. “Mas isso não implica que um preço mais alto fosse possível”, lembrando que hoje as condições do mercado não são adversas e que o processo até foi longo. “Na verdade, o governo português perdeu a oportunidade de vender o Novo Banco em 2015 e parece-me que poderia ter alcançado um preço maior.”

“CGD? Ingerências há em vários”

Uma das preocupações manifestadas por Verón depois de concluir pelo predomínio de controlo estatal na banca do euro foi a questão das ingerências políticas na banca algo que, afinal, não será exclusivo de Portugal ou da Caixa Geral de Depósitos. “Não sei o suficiente sobre Portugal e a CGD para uma resposta específica [ “A CGD é um caso específico de interferências políticas?”] mas respondo de forma geral: Encontrei interferências políticas em decisões de bancos em muitos países europeus, mas não todos, e acredito cada vez mais que tal tem muito a ver com governança e as estruturas acionistas.” Além dos bancos detidos pelos contribuintes, Verón destacou no seu estudo que também as instituições detidas por fundações são propensas a ingerências.

Já sobre a reestruturação da CGD, e o encerramento de agências em zonas menos povoadas, o autor considera que, atuando em concorrência, o banco deve “operar a partir de uma base viável em termos comerciais”, mas lembrou que há formas de um banco público ter fins sociais sem que tal implique auxílios estatais.

“Alguns estados criaram instituições financeiras para fins de política pública, como o KfW na Alemanha ou a Caisse des Dépôts em França”, refere. “Não concorrem e podem, por isso, concentrar-se em funções de interesse público.”

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