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Acionistas minoritários já não aguentam BCP em mãos portuguesas

O CEO do Millennium BCP, Nuno Amado (REUTERS/Rafael Marchante)
O CEO do Millennium BCP, Nuno Amado (REUTERS/Rafael Marchante)

“Somos maioritariamente portugueses”, dizia o BCP, quando se debatia estrangeirização da banca. Mas os vários aumentos de capital acabaram com isso

Era um ponto de honra do Millennium bcp. Não que fizesse alguma diferença nas decisões de gestão, mas sempre permitia que a instituição se apresentasse como uma espécie de aldeia gaulesa: no meio de tanto banco a cair em mãos estrangeiras, o BCP ainda podia recusar ser metido no mesmo saco que os restantes, apontando ser “detido maioritariamente por acionistas portugueses”. Esta era uma alegação meramente teórica – sendo todos minoritários, não tinham voz nas decisões do banco -, mas era o suficiente para o BCP apresentar-se como diferente dos demais. Agora, não o pode fazer.

A estocada final a esta maioria portuguesa no BCP foi dada em fevereiro, aquando do mais recente de vários pedidos de capital apresentado pelo banco de Nuno Amado. O impacto desta operação na estrutura acionista do banco só agora foi dado a conhecer na sua real dimensão: “No que respeita à distribuição geográfica [de acionistas], em 31 de dezembro de 2016 destaca-se o peso dos acionistas em Portugal, que representava 53,2% do número total de acionistas. Contudo, após a concretização da operação de aumento de capital, o peso relativo dos acionistas em Portugal diminuiu para 37,3%”, detalha o relatório e contas de 2016, agora publicado.

Esta inversão histórica na estrutura acionista do BCP começou a antecipar-se assim que os chineses da Fosun tiveram direito a um aumento de capital reservado, em meados do ano passado, numa operação que obrigou a um esmagamento do peso de todos os acionistas, para acomodar este novo investidor.

Distribuição atualizada do capital do BCP. Fonte: R&C do banco

Distribuição atualizada do capital do BCP. Fonte: R&C do bancp

Depois, em fevereiro deste ano, o BCP precisou de voltar a pedir mais capital aos investidores, e os portugueses foram então quase dizimados. Este aumento de capital foi de uma dimensão nunca antes vista no caso do Millennium bcp e, fruto da falta de retorno do muito dinheiro entretanto investido no banco, alguns decidiram não acompanhar mais este pedido, outros acompanharam mas de forma limitada – o total de acionistas do banco passou de 184,6 mil para 181,7 mil entre 31 de dezembro de 2016 e o aumento de capital concluído em fevereiro de 2017.

Este aumento de capital de fevereiro serviu para pedir o equivalente então a 133% do valor que o banco tinha em bolsa, impondo por isso uma escolha dolorosa para os pequenos investidores que há anos se encontravam no banco – a maioria deles também clientes: ou voltavam a meter dinheiro no BCP, ou viam as participações diluídas em 93,75%, já que o aumento de capital passou pela emissão de mais 14 mil milhões de ações.

Em termos comparativos, note-se que é preciso somar os sete pedidos de capital com que este banco avançou entre 2008 e 2015 para se atingir uma diluição semelhante – até fevereiro, o aumento de capital que mais tinha diluído as posições acionistas tinha sido um realizado em 2014, quando o BCP precisou de ir buscar mais 2,24 mil milhões de euros – impondo uma diluição de 64%. E mesmo olhando para outros bancos, o cenário mantém-se: Os 93,75% de diluição não encontram paralelo nos pedidos de capital da banca desde 2007, considerando BCP, BPI e até o entretanto desaparecido BES.

Na prática? Nada muda

Contudo, e como os minoritários não têm voz na gestão, tanto no BCP como nos restantes grupos cotados, nada puderam fazer para contrariar a sucessão de pedidos de mais capital que, lentamente, foram reduzindo o peso dos seus investimentos e o seu potencial retorno – quanto menos ações, menos dividendo. Esta falta de voz dos minoritários é algo que é assumido pelo próprio banco.

Segundo explica o Millennium no prospeto relativo a este último aumento de capital, os “acionistas com participações qualificadas”, ou seja os donos de mais de 2% do capital, têm “interesses” que “podem divergir ou que podem atuar de forma contrária aos interesses dos demais acionistas titulares de posições relevantes ou outros”. São os grandes investidores, portanto, que têm “capacidade de influenciar os assuntos que requerem aprovação por uma maioria dos acionistas”, como a distribuição de dividendos, nomeação de gestores e emissão de ações, diz o BCP. E os interesses destes, muitas vezes, acabam por “diferir dos interesses dos demais acionistas titulares de posições relevantes”.

É precisamente por isso que, como referimos acima, a maioria portuguesa antes existente no BCP era teórica. Tanto que, mesmo com esta fatia a cair de 53,3% para 37,3%, nada de facto mudará na gestão do banco.

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