“Angola não é tábua de salvação para os aflitos em Portugal”

Mira Amaral
Mira Amaral

O presidente do Banco BIC Portugal, Luís Mira Amaral, falou ao Dinheiro Vivo sobre as oportunidades de investimento em Angola e Moçambique, o crescimento do BIC em Portugal e se Portugal vai ou não necessitar de um programa cautelar, entre outros temas.

Ainda há oportunidades de investimento em Angola? Em Angola ainda está muita coisa por fazer. O Governo está muito interessado no sector agrícola, pecuário e agro-industrial. A autosuficiencia alimentar é uma matéria altamente prioritária.

E na indústria? Angola tem um ambicioso programa de construção de habitações. Todo o setor de metalomecânica e industrias metálicas e ligados à construção, como cerâmicas, pavimentos, revestimentos têm grande potencial. O turismo é também outro setor que terá crescimento, a partir do momento em que o problema dos vistos se simplifique e a saúde pública melhore em Angola.

Por vezes fala-se de Angola como um El Dourado. Concorda com essa designação? É uma designação profundamente errada. Angola não é uma tábua de salvação para os que estão aflitos em Portugal. Angola tem uma boa oportunidade de crescimento para as empresas portuguesas que têm boas estruturas e solidez. Lembro-me de uma expressão do Dr. Jorge Coelho que dizia “Se vocês estão cá e é para ir morrer em Angola mais vale morrer em Portugal porque os caixões lá até são mais caros”. Angola é um pivô essencial para a nossa diversificação de mercados não comunitários. Daí a ser um El Dourado vai uma grande diferença.

Há mais setores de interesse? A saúde e a educação. O circuito de distribuição, quer alimentar, quer de produtos farmacêuticos também tem boas perspetivas. Outro caso, dos serviços de auditoria e consultoria de gestão nas tecnologias de informação e integração de sistemas.

E em Portugal, há oportunidades de investimento para os angolanos? Os angolanos gostam de comprar casas em Portugal. Primeiro gostam de ter cá uma casa para férias ou para os filhos estarem a estudar. Segundo, se o setor imobiliário estiver a preços mais baixos é uma boa oportunidade de investimento. Tudo o que desce e bate no fundo também sobe.

As privatizações, como a dos CTT, podem ser uma oportunidade? Nos CTT não vi ainda nenhum interesse angolano. No fundo não há uma empresa homóloga angolana tão desenvolvida nesta área da logística ligeira.

E no que é que ainda há para privatizar? A Caixa, mas que não está para privatizar. Estão os seguros mas Angola não tem o setor desenvolvido.

O BIC falou da possibilidade de comprar uma pequena seguradora. Já estudaram algum ativo? O BIC Angola está a fazer uma seguradora. O BIC português já tem uma corretora que é a BIC Seguros. Admito uma pequena seguradora possa acontecer. Se houver uma oportunidade obviamente estaremos interessados mas não está nada decidido neste momento.

Concorda com a criação do banco de fomento? Eu tenho umas dúvidas e perplexidades. Acho que há aqui um raciocínio que eu normalmente critico nos socialistas: quando à um problema cria-se uma instituição pública. Há um problema de financiamento nas empresas que têm dificuldades mas também não é com crédito bancário que se vai lá mas sim com sistema de capitalização. Porque é que não se aproveita a Caixa Geral de Depósitos para fazer isso? Se o banco de fomento fizer crédito a médio e a longo prazo às empresas admito que o investimento na ordem dos 5 a 10 anos, a banca comercial esteja menos vocacionada para isso. No curto prazo nós já fazemos.

Pode-se voltar a questionar a privatização da Caixa? Ora bem. Não quero discutir isso hoje mas acho que é uma pergunta pertinente. Isto não é para introduzir um fator de discordância com o governo é para fazer um elogio aos quadros técnicos da Caixa, que conheci, que muito apreciei pela sua qualidade quando tive o azar por lá passar na altura.

Relativamente à compra do BPN, os assuntos com o Estado estão todos resolvidos ou o BIC ainda tem algo a receber? Não lhe vou revelar número. Se quiser pergunte à Ministra das Finanças ou ao Secretário de Estado do Tesouro e das Finanças. Não estamos livres, nem nós nem o Governo, de aparecer um ex-trabalhador do BPN de pôr um processo em tribunal contra o BPN. E quando há um processo desses, segundo o contrato que fizemos, se for por um facto anterior ao da privatização e se esse trabalhador ou cliente ganhar em tribunal nós adiantamos o dinheiro e depois vamos ser ressarcidos no âmbito do acordo. Por isso digo que o caso pode nunca estar fechado.

Alguma vez se vai saber o real custo do BPN? Vai porque isto vai ter um prazo de validade. Os custo já lá estavam todos aparecem é agora. Mesmo que o BIC não tivesse comprado o BPN nós todos teríamos de pagar estes custos do passado. Quando oiço o ex-ministro das finanças, Teixeira dos Santos dizer que o preço é barato eu pergunto ele esteve lá três anos e meio com essa criança nos braços porque é que não arranjou um comprador que pagasse mais. Acertar o totobola à segunda-feira é fácil. O BIC correu riscos ao tomar conta do BPN que ninguém quis. Boas dores de cabeça tenho tido eu aqui.

Acha que alguma vez se vão recuperar essas perdas?
Tem de perguntar à Parvalorem, que ficou muito crédito malparado. Acho que uma parte das perdas irão conseguir recuperar através da venda de ativos que lá têm. No entanto, gostava de salientar que nenhum acionista responsável ia tomar contar conta de um banco tão problemático como o BPN assumindo responsabilidades sobre o passado. Isto é de elementar bom senso.

Como comenta o facto do banco BIG tem interposto uma ação em tribunal por alegadas semelhanças do logo do BIC? Só posso comentar isso por inveja do BIG. O nosso logo não foi inventado cá, foi em Angola. Na altura já havia o banco BIG e não se queixou. Andámos de 2008 a 2011 sem o BIG reclamar. Quando compramos o BPN é que se começa a incomodar.

Acha que foi pela dimensão? Só pode ser por inveja porque ficamos maiores. Aliás eu nem me lembrava que existia o Banco BIG, é tão pequenino. Mas quando nós eramos pequenos, e eles um pouco maior, não se preocuparam. Quando nos tornarmos um grande banco é que reagem. Aliás vamos responder a isso facilmente de mostrar tecnicamente que não têm razão. Se queriam ser grandes como nós deviam ter ido à privatização do BPN.

Sentiu, na nível empresarial, algum impacto da polémica diplomática entre Portugal e Angola? Se não lesse os jornais nem sabia que se tinha passado. Continuamos com negócios entre Portugal e Angola. Felizmente, do ponto de vista empresarial, isto não foi afetado.

Como correram os primeiros nove meses do ano? Conseguimos atingir o break even. Em termos acumulados, em Outubro, já não estamos com prejuízos e vamos chegar ao fim do ano com resultados ligeiramente positivos. Isto é uma boa notícia até para os contribuintes portugueses porque significa que estamos a caminho de rentabilizar o banco. No contrato de aquisição com o Governo previa que se ao fim de cinco anos tivermos um resultado bastante positivo, ainda há uma correção do preço.

Sempre vão comprar balcões de outros bancos? É uma hipótese. Neste momento não temos aproveitado balcões de outros bancos mas temos aproveitado colaboradores libertados por outros bancos, por exemplo o Barclays. Fechou balcões e tem gente qualificada e temos aproveitado. Em todo o caso de forma limitada e mitigada porque desde que tenhamos colabores qualificados damos-lhe sempre preferência. Mas não rejeito que um banco que feche um balcão e se esse balcão estiver em boas condições que a gente vá tomar conta.

O Banco BIC Portugal tem sido mais virado para as empresas. Para o próximo ano querem apostar mais em particulares? Apenas uma correção…mais virado para empresas exportadoras. Nós estamos a fazer crédito à habitação mas não é o massificado do passado mas sim com spreads razoáveis, de clientes que nos façam crosseseling – seguros, cartões, terminais da rede, aplicações. Um cliente destes que compre uma panóplia de produtos nossos nós ficamos encantados de lhe fazer crédito à habitação.

Quais as áreas prevêm crescer mais? No factoring e leasing.

Qual o volume da carteira de depósitos? Quando nós compramos o BPN, a 1 de Abril de 2012, recebemos uma carteira de depósitos de 1,7 mil milhões de euros. Neste momento temos 3,5 mil milhões de euros. Praticamente duplicamos os depósitos em pouco mais de um ano.

E a carteira de crédito? A nível de crédito quando recebemos o BPN com uma carteira de crédito de 1,8 mil milhões de euros e neste momento teremos à volta de três mil milhões de euros. Com o crédito a crescer menos do que os depósitos isso levou-nos a uma situação excedentária de liquidez. Se estamos com dificuldade de acompanhar o crescimento do crédito às empresas é porque qualquer boa empresa que nós queiramos entrar já lá estão todos os bons bancos portugueses. Aquilo que eu julgava há dois anos que recebendo o BPN, bem capitalizado e os bancos tinham problemas de liquidez e eu entrava facilmente nas empresas não é assim. Evidente que se quiser entrar nessas empresas tenho de entrar com spreads e taxas de juro mais baixas que aquelas que eu pensava.

E isso condiciona a rentabilidade… Obviamente. Neste momento já não há um problema de liquidez mas ainda há um problema de taxas de juro, que ainda são elevadas em Portugal mesmo para as boas empresas portuguesas comparadas com as do centro da Europa. Isso resolve-se a partir do momento em que o prémio de risco da República baixe. Quando baixar o prémio de risco é uma boa notícia para o Governo que começa a emitir dívida a preços mais baixos e é uma boa notícia para as empresas que as taxas de juro podem baixar. As taxas já estão até a baixar para as empresas mas ainda temos aqui um problema de preço que é superior ao do centro da Europa. Isto mostra que a nossa União monetária foi fragmentada pelo risco soberano nos vários países, o que não é esse objetivo da União.

Qual a diferença entre Portugal e a Irlanda? Nós temos dois problemas: um de finanças públicas e um de crescimento económico. A Irlanda só tinha um problema de finanças públicas.

Portugal vai precisar de um programa cautelar? Acho que sim. Nós não somos a Irlanda mas também não somos a Grécia. A Irlanda diz que não precisa de um programa cautelar porque com a capacidade de crescimento económico tem a expectativa de gerar receitas fiscais para gerir a dívida pública. No fundo isto é uma coisa que este Governo no início parece que se esqueceu. É com crescimento económico que se sacam as receitas fiscais. Se o ambiente se mantiver e não tivermos nenhuma crise política eu acho que vamos ter condições para emitir dívida a cinco e a dez anos.

Em 2014? Sim, para nos qualificarmos para o programa de transações monetárias que permite que o BCE nos venha comprar dívida em mercado secundário e negociarmos a União Europeia uma linha de crédito cautelar.

Espera que essa linha seja utilizada? Dependerá das condições. Não podemos ir para os mercados sem nenhuma rede, que é a linha de crédito cautelar. Se os irlandeses tivessem renegociado já tínhamos o protótipo para o caso português. Acontece é que vamos ser pioneiros.

A linha cautelar não irá invalidar a nossa ida aos mercados?Podemos ir aos mercados mas temos de ter uma linha de apoio, uma muleta. Suponha que vamos aos mercados e, por qualquer uma tempestade as taxas de juro disparam, aí temos o BCE a poder comprar dívida e podemos acionar essa linha cautelar. Não estamos em condições de dispensar a muleta do programa cautelar. É uma questão de bom senso.

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