entrevista

Ann Cairns: “É possível usar os dados das pessoas para fazer o bem”

Foto: Money Conf/ Web Summit
Foto: Money Conf/ Web Summit

Ann Cairns é uma das mulheres mais poderosas do mundo da alta finança. Na Web Summit falou em exclusivo ao Dinheiro Vivo

É uma das mulheres mais poderosas do mundo da alta finança. Como presidente de mercados internacionais da Mastercard, Ann Cairns é responsável por mais de 60% das receitas da gigante mundial dos cartões de crédito. Na Web Summit falou em exclusivo ao Dinheiro Vivo.

Veio à Web Summit falar de inclusão financeira. Quais são os objetivos da Mastercard nesta matéria?
É um tema da maior importância. Há quase dois mil milhões de pessoas no mundo que não usam serviços financeiros básicos. Estamos a trabalhar com governos de todo o mundo, ONG e operadoras de comunicações para tentar criar ecossistemas inclusivos em diferentes países. Temos o compromisso de levar estes serviços a 500 milhões de pessoas até 2020.

O que explica essa exclusão?
O problema não é só dos mercados emergentes. Na Europa há mais de 130 milhões de pessoas excluídas. 87% vivem no país onde nasceram, não são emigrantes. Um terço tem entre 18 e 34 anos. Pode ser uma escolha em alguns casos, mas sabemos que muitas pessoas não se sentem seguras. É aí que reside a nossa responsabilidade. Não vejo nenhuma razão para que não seja possível incluir toda a gente.

O acesso aos dados, e a forma como as empresas os usam, explicam esses receios?
Sim, é um tema sensível e é por isso que nós investimos em big data há muito tempo. É fundamental para nós que as pessoas se sintam seguras com a nossa tecnologia. E acredito que é possível usar os dados para fazer o bem pelas pessoas. Os dados são anónimos mas dão-nos uma ideia de como os consumidores se comportam. Usamos os nossos dados para ajudar alguns governos, dizendo como os consumidores estão a gastar o seu dinheiro, e isso dá-lhes uma ideia de como a economia está a evoluir. Também usamos dados para proteger os clientes de transações fraudulentas, através de inteligência artificial.

Nós não sabemos nomes, números de telefone ou moradas, mas sabemos que aquele número de 16 dígitos que está num cartão de crédito foi usado para comprar um bilhete de avião.

Construímos várias camadas de segurança nos nossos sistemas para ajudar a prevenir o cibercrime. Facilitamos, por exemplo, a autenticação das pessoas nos sistemas através da biometria. Já é possível fazer pagamentos através de uma selfie, piscando os olhos para o telefone.

Têm parcerias com fintechs?
Sim, achamos muito importante que as fintechs tenham uma relação saudável com a finança tradicional. Seja uma grande fintech, como a Apple ou a Google, ou uma pequena startup. É bom para elas e bom para nós, porque não temos capacidade para desenvolver tudo. A inteligência artificial é um bom exemplo disso.

Comprámos uma empresa chamada Applied Predictive Technologies, que usa algoritmos e inteligência artificial que ajudam os bancos a decidir quais as melhores zonas para abrir balcões usando dados estatísticos.

E uma das últimas empresas que comprámos foi a Brighterion, que nos está a ajudar com a questão da segurança, nomeadamente a perceber se as transações são fraudulentas.

Essa filosofia de “relação saudável” aplica-se também às moedas digitais?
Sabemos que as criptomoedas podem vir a ganhar importância, mas o mais interessante de moedas como as bitcoins é a tecnologia que está por trás, o blockchain. É nisso que estamos interessados e estamos já a usá-la para criar ferramentas de pagamentos.

Não vemos esta tecnologia como uma ameaça, ainda estamos a tentar perceber como funciona. Quanto às bitcoins, hoje são mais uma matéria-prima do que uma moeda propriamente dita.

Como é que toda essa tecnologia vai mudar a nossa vida? O emprego, por exemplo.
Somos criaturas do mundo físico. Eu adoro fazer compras e não vou comprar tudo online. O retalho vai continuar a existir. O que vai acontecer é a experiência Uber, pegamos no que queremos e vamos embora. No nosso investors day tínhamos um espelho com o qual era possível fazer isto.

As pessoas entravam no provador e o computador conseguia redimensionar o tamanho da roupa, fazer combinações e tratar do chekout e do pagamento. É ótimo para quem, como eu, odeia filas. A tecnologia vai substituir empregos, sim, mas vai criar outros, mais criativos, como assistentes de compras por exemplo.

Quando é que o dinheiro físico vai acabar?

O dinheiro é “peganhento”, cola-se às pessoas. É uma forma de pagamento anónima e é por isso que as pessoas o utilizam. Ainda existem muitos lugares do mundo que não estão ligados ao sistema financeiro e isso é uma questão que vai levar muito tempo a resolver. E a verdade é que as pessoas querem ter uma escolha, pagar em notas e moedas é uma escolha. Acho que vai demorar mesmo muito tempo até que o dinheiro desapareça definitivamente.

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