aumento de capital

BCP. Nunca um aumento de capital esmagou tanto os acionistas

Operação impõe diluição de 93,75%, o mesmo impacto da soma de todos os aumentos de capital do banco realizados entre 2008 e 2015

O novo aumento de capital que o BCP vai exigir aos seus acionistas equivale a 133% do valor atual do banco, apresentando, por isso, uma fatura dolorosa a todos os investidores que decidirem não injetar mais dinheiro na instituição, sobretudo aos pequenos acionistas, de mãos atadas em relação às decisões de gestão do banco.

A emissão de mais 14 mil milhões de ações do BCP, cujos primeiros passos serão dados já amanhã, impõe uma diluição de 93,75% ao acionista que não for atrás da operação, um impacto que não encontra qualquer paralelo nos aumentos de capital realizados por BPI, BCP ou mesmo o BES nos últimos dez anos.

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Além de não encontrar paralelo, a diluição prevista no atual aumento de capital supera também por larga margem o impacto mais diluitivo que estas operações tiveram desde 2007, “recorde” já antes nas mãos do mesmo BCP: em 2014, quando o banco pediu 2,24 mil milhões de euros aos acionistas através da emissão de 34 mil milhões de ações, o impacto diluitivo foi de “apenas” 64%. Agora, supera esta marca em quase 30 pontos.

Para se ter uma melhor ideia da dimensão do impacto previsto nesta operação do BCP, compare-se com o histórico recente do banco: desde abril de 2008 e junho de 2015, o BCP realizou sete aumentos de capital, passando de 3,6 mil milhões de ações para 59 mil milhões de ações. Caso um investidor do banco não tivesse acompanhado nenhuma destas sete operações, teria visto a sua participação reduzida em 94%; agora, basta não acompanhar este aumento de capital para ser diluído em idêntica dimensão.

A insatisfação dos investidores é uma das preocupações atuais do BCP, desde logo porque 6% dos seus clientes (cerca de 140 mil) são também acionistas

Além do BCP, só o Banco Espírito Santo (BES) apresenta no seu histórico uma operação de reforço de capital cujo impacto diluitivo atingiu os 64%, quando o banco de Ricardo Salgado, em abril de 2012, foi ao mercado pedir mil milhões de euros através da emissão de 2,5 mil milhões de ações. Já no caso do BPI, o aumento de capital com maior impacto dos últimos dez anos registou-se em agosto de 2012, quando o banco emitiu 400 milhões de ações para captar 200 milhões de euros, operação que impôs uma diluição no valor das ações de 29%.

O impacto da operação do BCP no valor das ações é uma das preocupações que os analistas ouvidos pelo Dinheiro Vivo. O problema é especialmente sentido pelos pequenos investidores que, dada a sequência de pedidos de ajuda aos acionistas, ou foram investindo fortemente no banco apenas para manter a sua participação original – que foi desvalorizando como nunca – ou viram as suas ações tornarem-se cada vez mais insignificantes em relação ao total de capital do grupo, tendo direito, logo, a uma fatia também cada vez mais insignificante em eventuais dividendos.

A insatisfação dos investidores é também, aliás, uma das preocupações atuais do BCP, desde logo porque 6% dos seus clientes (cerca de 140 mil) são também acionistas e porque o histórico recente do banco não ajuda. É o próprio BCP quem o assume, no prospeto de aumento de capital divulgado na semana passada: “Caso a cotação das ações ordinárias do banco continue a desvalorizar, tal poderá conduzir ao desagrado dos acionistas do banco, o que poderá conduzir a uma alargada insatisfação dos seus clientes, na medida em que estes sejam também acionistas do banco.”

Mas além da desvalorização do banco e da diluição até perto de zero do seu peso na estrutura acionista do banco liderado por Nuno Amado e na repartição dos dividendos, os pequenos investidores que têm acompanhado os aumentos de capital do banco enfrentam também o problema da sua irrelevância: mesmo investindo e acompanhando todos os pedidos do BCP, os pequenos investidores valem cada vez menos quando é preciso decidir, por exemplo, sobre novos aumentos de capital.

Os “acionistas com participações qualificadas”, ou seja mais de 2% do capital, “cujos interesses podem divergir ou que podem atuar de forma contrária aos interesses dos demais acionistas titulares de posições relevantes ou outros, têm capacidade de influenciar os assuntos que requerem aprovação por uma maioria dos acionistas do banco, incluindo a distribuição de dividendos, nomeação de administradores, emissão de ações”, admite o banco. Ou seja, só quem tem uma participação qualificada poderá “exercer uma influência significativa sobre o banco” e os interesses destes “poderão diferir dos interesses dos demais acionistas titulares de posições relevantes”.

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