Banco de Portugal

Banca vale duas vezes mais que a economia e tem rendibilidade negativa

Banca portuguesa é menos lucrativa do que no passado, mas também está menos alavancada do que em 2015, menos dependente de crédito.

Os bancos sedeados no país têm vindo a emagrecer de forma acelerada nos últimos anos, mas o sector como um todo ainda vale duas vezes mais que a economia portuguesa, mostra o Banco de Portugal (BdP) no estudo “Sistema bancário português” relativo ao quarto trimestre.

Já a rendibilidade do sector, que foi cronicamente negativa entre 2011 e 2014, e depois até recuperou para níveis positivos em 2015, voltou a entrar no vermelho no final do ano passado por causa das “imparidades para crédito”. O BdP diz que é normal, trata-se de fatores pontuais, “não recorrentes”, que explicam o sucedido.

Segundo a nova publicação do Banco central governado por Carlos Costa, os ativos totais da banca sedeada no país estavam avaliados em 386 mil milhões de euros no final do quarto trimestre do ano passado, perdendo assim 5% do seu valor face ao final de 2015.

No começo do programa de ajustamento, em 2011, a banca nacional dizia estar avaliada em 510 mil milhões de euros, o triplo do valor da economia doméstica. Nesta avaliação entram o valor dos empréstimos concedidos a empresas, famílias e outros bancos, títulos de dívida e participações financeiras.

Depois, veio o pior. Dois bancos faliram com estrondo: um dos maiores, o BES, em 2014. E um banco de média dimensão, o Banif, no final de 2015.

Entre 2011 e agora, o valor nominal do sector bancário afundou uns expressivos 24%.

O BdP mostra que o sistema bancário está mais estável, pois tem vindo a reforçar almofadas de segurança contra as imparidades, em cumprimento com as exigências obrigatórias das novas regras europeias (do BCE). Em contrapartida, esse reforço contra imparidades e o reconhecimento de créditos malparados e outros, tem pesado negativamente no lucro, nas margens de negócio.

A banca portuguesa é, por isso, menos rendível do que no passado, mas também está menos alavancada do que em 2015 e do que no terceiro trimestre. “O rácio de alavancagem situou-se em 6,7% no quarto trimestre de 2016, tendo contraído 0,5 p.p. face ao trimestre anterior.”

Segundo o Banco de Portugal, “o ativo total do sistema bancário reduziu-se 2,1% no quarto trimestre de 2016”. “Esta evolução decorreu, essencialmente, de uma redução dos empréstimos a instituições de crédito e, em menor grau, dos empréstimos a clientes e da exposição a títulos de dívida. Face ao final de 2015, o ativo total decresceu 5,3%.”

“Ainda que sem impacto nos totais do ativo e do passivo, a estrutura do balanço do sistema bancário foi afetada pela reclassificação de alguns ativos/passivos para a rubrica de outros ativos/passivos, no âmbito do processo de venda parcial da participação do BPI na operação angolana”.

Menos malparado e incumprimento

“O rácio de crédito em risco situou-se em 11,8% no quarto trimestre de 2016, reduzindo-se 0,8 p.p. [pontos percentuais] face ao trimestre anterior”, alívio que é explicado pela “diminuição do crédito em risco superior à diminuição do crédito total”.

“Esta evolução do rácio de crédito em risco foi transversal” aos segmentos de habitação, consumo e empresarial. “O rácio de empréstimos non-performing [um conceito mais abrangente de malparado] situou-se em 17,2%, tendo apresentado uma redução de 0,4 p.p. face ao trimestre anterior. Esta diminuição reflete evoluções positivas em todos os segmentos”, diz o BdP.

Claro que os bancos foram e estão a ser obrigados a provisionar fundos para eventuais crises futuras, almofadas que minimizem os impactos de episódios de “stress”, que façam com que essas crises futuras sejam menos destruidoras do que esta última que começou em 2007 com o subprime.

Por exemplo, o banco central nota que “o rácio de cobertura de empréstimos non-performing registou um aumento face ao trimestre anterior situando-se em 45,0%. Numa comparação com o final do ano anterior este rácio aumentou cerca de 4 p.p.”.

Rendibilidade negativa outra vez

Da mesma forma, “a rendibilidade dos capitais próprios e do ativo foi negativa em 2016, tendo diminuído face ao ano anterior” e “no quarto trimestre de 2016 verificou-se um reforço significativo das imparidades para crédito, o que determinou que a rendibilidade, positiva até ao final do terceiro trimestre, atingisse valores negativos no conjunto do ano”.

“A diminuição da rendibilidade face a 2015 foi determinada por uma queda expressiva dos resultados com operações financeiras, de natureza não recorrente, e, sobretudo, pelo aumento das imparidades”, reforça o BdP.

A rendibilidade dos capitais próprios (ROE) afundou de 2,1% em 2015 para -8% em 2016. A rendibilidade do ativo deslizou de 0,2% em 2015 para -0,6% no ano passado, indica o mesmo estudo.

Menos dependente do BCE, mas rácio principal piorou

O Banco de Portugal diz que “no quarto trimestre de 2016, o recurso ao financiamento de bancos centrais voltou a diminuir, passando a representar 6,4% do total do ativo do sistema bancário, o que representa o valor mais baixo desde o início do Programa de Assistência Económica e Financeira (o máximo foi registado em junho de 2012: 64,1 mil milhões de euros, 12,6% do total do ativo)”.

No entanto, o Banco de Portugal nota que o rácio dos fundos próprios de base, que o BCE obriga a manter elevado (sempre acima de 4,5%), está a diminuir.

“O rácio Common Equity Tier 1 (CET 1) e o rácio de solvabilidade total diminuíram cerca de 1 p.p. face ao terceiro trimestre de 2016 devido à redução do capital, o que é explicado, uma vez mais, pelos resultados negativos do exercício”, “num cenário de redução do ativo”.

Contudo, contrapõe o BdP, “já no decurso do corrente ano ocorreram operações de reforço dos fundos próprios em algumas instituições”.

(em atualização)

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Visita de Angela Merkel à Bosch, em Braga. A chanceler alemã foi
acompanhada pelo primeiro-ministro, António Costa.
Fotografia: Artur Machado/ Global Imagens

O país aguenta uma nova crise? Agências de rating divididas

Lisboa, 19/7/2019 - Eduardo Marques, Presidente da AEPSA- Associação das Empresas Portuguesas para o Sector do Ambiente-  uma associação empresarial, criada em 1994, que representa e defende os interesses coletivos das empresas privadas com intervenção no setor do ambiente,
(Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

Eduardo Marques. “Há um grande espaço para aumentar as tarifas da água”

Fotografia: Gleb Garanich/ Reuters.

Greve: Ryanair diz que não houve cancelamento de voos esta manhã

Outros conteúdos GMG
Banca vale duas vezes mais que a economia e tem rendibilidade negativa