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Banca portuguesa entre a que mais se desfez de ativos tóxicos na Europa

Faria de Oliveira, presidente da APB.
Faria de Oliveira, presidente da APB.

Estudo da Universidade do Minho mostra que crédito malparado tem um efeito negativo no crescimento da economia, podendo retirar até 0,1% do PIB per capita.

Os bancos portugueses foram os quartos na União Europeia que mais crédito malparado conseguiram limpar dos seus balanços em 2018. No ano passado a banca nacional desfez-se de perto de oito mil milhões de euros de créditos em incumprimento.

De acordo com a designação do Banco de Portugal, um empréstimo bancário é classificado como de malparado ou “crédito não produtivo” (non performing loan – NPL, na sigla inglesa) quando passaram mais de 90 dias sem que o devedor tenha pagado as prestações acordadas ou os juros. Os créditos não produtivos são também chamados “dívida de cobrança duvidosa”. E Portugal chegou a ter, durante o período da crise financeira, rácios de crédito malparado significativos.

Mas nos últimos anos, a banca nacional conseguiu ir limpando os balanços destes ativos tóxicos e no ano passado foi mesmo o quarto país europeu a conseguir desfazer-se do montante mais elevado, a seguir à Itália, Espanha e Irlanda. De acordo com um estudo da Associação para os Mercados Financeiros da Europa (AFME), os bancos portugueses livraram-se de 7,8 mil milhões de euros de crédito malparado ao longo do ano passado, ou seja, quase um terço do total de NPL em carteira que ascendiam a 25,8 mil milhões de euros. O relatório intitulado Indicadores KPI da União dos Mercados de Capitais vai apenas na segunda edição anual.

De resto, Portugal aparece no top 10 dos países europeus que melhor conseguiram desfazer-se de ativos problemáticos através do mercado, aparecendo ao lado de países como Irlanda, Itália, Chipre e Espanha.

Os bancos italianos foram o que mais limpeza fizeram aos balanços, tendo vendido 97 mil milhões de euros de malparado. A Espanha surge em segundo lugar na lista, com 42 mil milhões e o pódio é encerrado pela Irlanda, que se desfez de 14 mil milhões de ativos tóxicos.

A AFME sublinha que “as vendas da carteira têm aumentado constantemente na UE desde 2016, com uma taxa média de crescimento anual de 73% durante 2016-2018”, sendo que atualmente em toda a União Europeia, os NPL vendidos atingiram um valor de 182 mil milhões de euros.

Metade em três anos

De acordo com os dados divulgados pela Associação Portuguesa de Bancos, a banca portuguesa conseguiu em cerca de três anos e meio reduzir para metade os créditos problemáticos ou tóxicos que pesavam no balanço.

Entre 2016 e o primeiro semestre deste ano, os bancos encolheram os NPL em mais de 50%, de 46,6 mil milhões para 23,4 mil milhões de euros. Não é detalhado qual o método para limpar estes créditos de cobrança duvidosa.

Também em termos de rácio, ou seja, o peso destes créditos no total concedido a famílias e empresas, também houve uma descida significativa, passando de 17,2% para 8,3%.

Um travão à economia

A existência de um elevado volume de crédito malparado é vista pelos bancos centrais como um fardo pesado para a economia, no sentido em que é um ativo “morto” que não pode servir para suportar outros empréstimos de maior qualidade. O Banco Central Europeu lembra que “se os bancos tiverem demasiados créditos não produtivos, não poderão disponibilizar tanto crédito como seria desejável, o que torna os mecanismos de influência das taxas no setor privado menos eficazes.”

E os efeitos negativos foram também mostrados num estudo da Universidade do Minho para a Associação Missão Crescimento apresentado ontem no congresso da Confederação Empresarial de Portugal (CIP).

“O sistema financeiro desempenha um papel essencial na alocação dos recursos. Uma elevada percentagem de crédito malparado representa uma ineficiência dos bancos no processo de alocação de crédito”, lembram os autores do estudo “O crescimento da Economia Portuguesa”.

“Os resultados confirmam o efeito negativo da ineficiência do sistema financeiro, em particular do setor bancário, no crescimento económico. Este efeito negativo faz-se sentir quer ao nível dos custos operacionais dos bancos, um indicador da ineficiência dos bancos em termos operacionais, quer ao nível do crédito malparado.” Os cálculos mostram que NPL muito elevados podem retirar 0,1% do PIB per capita.

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