Endividamento

Banco de Portugal alerta para “armadilha” no crédito ao consumo

O governador do Banco de Portugal, Carlos Costa. ANDRÉ KOSTERS / LUSA
O governador do Banco de Portugal, Carlos Costa. ANDRÉ KOSTERS / LUSA

Instituição diz que não tem meios de agir no crédito associado às vendas, e pede uma reflexão pública sobre o endividamento.

Hoje uma máquina de lavar, amanhã uma televisão, depois as propinas e, eventualmente, as férias. Cada decisão de crédito, no consumo, está cada vez mais desligada da informação geral de esforço dos indivíduos e famílias, atirando os mais vulneráveis para o sobre-endividamento. O alerta foi hoje feito pelo Banco de Portugal, que diz ter poucos meios para apoiar os portugueses. Recomenda reflexão pública e defende mais educação financeira.

“Não conseguimos evitar que caiam na armadilha do endividamento determinados estratos da população e que essa armadilha do endividamento se tenha deslocado da concessão de crédito para o momento da venda. E o momento da venda com crédito associado através do cartão de crédito ou através de outros mecanismos é um motivo de grande preocupação”, defendeu esta quarta-feira Carlos Costa, governador do Banco de Portugal (BdP).

O alerta foi deixado no início da assembleia-geral anual do Conselho Nacional de Supervisores Financeiros (CNSF) com a Comissão de Acompanhamento do Plano Nacional de Formação Financeira, que reúne várias instituições do país na promoção da literacia sobre, entre outras coisas, produtos de crédito. O responsável do BdP considerou que o crescimento do crédito de consumo, a subir 2,5% em dezembro nos dados do banco central, “é uma matéria que deve suscitar reflexão das autoridades públicas”.

Também a vice-governadora do banco central, Elisa Ferreira, retomou a preocupação, admitindo limitações à atuação. “Aquilo que o Banco de Portugal pode fazer, e fez, são medidas macro. Isto é, determinações que tentam que um banco, quando está a negociar um crédito, não gere uma situação de sobre-endividamento dessa família. Mas, quando o agregado de crédito muda para um agregado de créditos segmentados individuais ligados ao consumo dificilmente se pode controlar isso”, disse.

No final de 2018, no mês de dezembro, os novos montantes de crédito ao consumo atingiam mais de 622 milhões de euros, num aumento de 2,5% frente ao mesmo mês do ano anterior. As maiores subidas, de 64,1% ocorriam no crédito pessoal para despesas com educação, saúde, compra de equipamentos e leasing, e energias renováveis.

Os avisos do BdP foram feitos na reunião que junta a rede de instituições ativas na educação financeira, onde se contam agentes que vão desde a DECO ao Instituto de Emprego e Formação Profissional, passando pela Ordem dos Psicólogos Portugueses ou pelo Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol. No encontro, foi salientada a necessidade de haver maior envolvimento de organizações não governamentais como forma de aumentar o número de destinatários das ações de literacia que os supervisores dizem não conseguir promover sozinhos. Os membros do CNSF – BdP, Comissão do Mercado de Valores Mobiliários e Associação de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões – defenderam como essencial o papel da educação na estabilidade do sistema financeiro.

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