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Bancos fazem vendas recorde de crédito malparado

Novo Banco

Vendas de carteiras de crédito problemático podem chegar aos sete mil milhões este ano, o dobro de 2017.

A ordem é para cortar no crédito malparado. E a banca portuguesa quer aproveitar o momento positivo da economia e do mercado imobiliário para encontrar compradores que aceitem o risco de ficar com empréstimos problemáticos. Nos últimos meses têm-se intensificado este tipo de operações que passaram a ser um dos principais focos na estratégia dos bancos nacionais para reduzir o malparado.

Num relatório sobre o mercado de vendas de crédito não produtivo (NPL na sigla em inglês), a Deloitte observava que a atividade em Portugal começou a acelerar no segundo semestre de 2017. No total do ano passado, a consultora sinalizou operações de 3,6 mil milhões de euros no país. Mas este ano, o valor poderá duplicar.

Joaquim Paulo, partner da Deloitte, revela ao DN/Dinheiro Vivo que “a nossa estimativa aponta para que em Portugal no ano de 2018 tenham sido transacionados ou colocados em mercado carteiras de ativos de cerca de 7 mil milhões de euros de ativos o que representa um crescimento muito significativo face aos anos anteriores”.

O responsável da consultora nota que se “assiste a uma evolução no mercado para a venda de portfólios de maior dimensão e envolvendo ativos mais complexos”. A maior parte dos bancos portugueses tem recorrido a esta estratégia e estão a lançar operações mais significativas. O Novo Banco, por exemplo, começou a preparar recentemente o “projeto Nata”, que consiste na venda de uma carteira de malparado de 1,75 mil milhões de euros. A concretizar-se será a maior operação de sempre em Portugal, segundo a publicação especializada Debtwire.

A Caixa Geral de Depósitos e o BCP são outras entidades ativas neste tipo de solução. E também o Santander Totta, que absorveu o Popular em Portugal, e o Bankinter, que comprou as operações de retalho do Barclays, seguiram essa estratégia para assegurarem balanços mais limpos após aquelas integrações.

Economia e boom imobiliário ajudam

Apesar de mesmo nos anos de crise os bancos terem vendido carteiras de malparado, este ano essa tarefa fica mais facilitada. A recuperação da economia e também do mercado imobiliário ajuda.” A evolução recente da solvabilidade dos principais bancos portugueses, a melhoria da atividade económica e a recuperação do mercado imobiliário têm criado um contexto propício para a redução de ativos não produtivos”, observa o Banco de Portugal num relatório de junho. Condições que têm animado o mercado de vendas.

Joaquim Paulo explica que “a melhoria do ambiente económico e o crescimento do mercado imobiliário e do turismo, que estão correlacionados, originou o aumento da liquidez e do preço dos ativos em geral”. Observa que “assiste-se a uma conjuntura favorável, de liquidez e preço, para a colocação de ativos no mercado, o que é uma oportunidade que os bancos estão a aproveitar para ‘limpar’ as suas carteiras”.

As carteiras de ativos problemáticos tendem a ser compradas por empresas internacionais especializadas na recuperação de créditos, por fundos de capital privado (private equity) ou veículos de investimento especulativo como hedge funds.

Estas entidades exigem elevados descontos aos bancos para comprar essas carteiras, já que querem rentabilidades geralmente acima de dois dígitos. E isso tem impacto negativo no capital dos bancos. Mas com o reforço de capitais dos últimos anos no setor, Joaquim Paulo defende que os bancos têm agora “uma maior capacidade e flexibilidade para absorver eventuais gaps de valor que possam resultar das transações”.

Regulação aperta e força vendas

Se do lado da conjuntura económica o timing para vender malparado é boa, do lado dos reguladores também existe pressão para baixar o peso dos créditos não produtivos. “As alienações têm sido também motivadas pelas exigências regulatórias da Comissão Europeia e do BCE”, explica o HSBC numa nota de análise.

Os especialistas do banco britânico observam que “a Comissão, por exemplo, avisou os bancos de que podem vir a enfrentar requisitos de capital mais elevados se continuarem a deter malparado”. Alemanha e França querem que a recomendação que seja seguida pelos bancos europeus, ainda sem data de implementação, seja a de que o rácio de malparado não ultrapasse os 5%.

Trata-se de um foco de pressão para os sistemas bancários em que o malparado é mais pesado, como é o caso de Portugal. Apesar de o crédito não produtivo ter caído quase 16 mil milhões de euros desde o pico de junho de 2016 até março deste ano, data dos dados mais recentes do Banco de Portugal, o setor nacional continua a ter um dos rácios mais altos da zona euro. Quase 13% do total de crédito era problemático no final de março, mais do dobro da recomendação de 5%.

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