Comissão de Inquérito Banif

Banif. Popular, o banco conservador que pouco tem para acrescentar à CPI

A venda em contexto de resolução, obrigando a decisões rápidas de um momento para o outro, pode ter esfriado o interesse do Popular no Banif

Carlos Manuel Álvares, presidente do conselho de administração do Banco Popular, não teve qualquer intervenção nos passos dados e na proposta feita pelo seu banco no “dossiê” Banif. E detalhou isso mesmo aos deputados da comissão de inquérito à resolução e entrega dos ativos do banco madeirense, explicando que todos os processos de aquisição do grupo espanhol são tratados por um departamento específico em Madrid, “independentemente das geografias das possíveis aquisições”, salientou.

Os deputados da CPI manifestaram de imediato alguma desilusão com esta “revelação” de Carlos Álvares, já que não tendo estado ligado ao processo do lado do banco Popular então a audição perdeu quase a razão de ser. Tanto que o Partido Socialista e o Bloco de Esquerda abdicaram de fazer quaisquer questões depois das respostas ao PCP e ao PSD terem evidenciado precisamente a inocuidade da audição.

O enquadramento da chamada do Popular, contudo, deixava antever que a audição poderia trazer algum sumo. O Banco Popular e o Santander Totta foram os dois bancos que se mantiveram mais tempo no processo de venda voluntária do Banif, com o primeiro a abdicar da corrida quando esta passou a ser executada em contexto de resolução.

Aquando da audição na CPI Banif do secretário de Estado das Finanças e do Tesouro, Ricardo Mourinho Félix, o governante manifestou estranheza com este “desaparecimento” súbito do Popular, que, segundo apontou, era um dos maiores interessados no banco madeirense. “Foi estranho porque o Popular foi quem mostrou mais interesse em comprar o Banif. A inflexão é difícil de entender”, apontou aos deputados.

Mourinho Félix apontou à CPI que na altura recebeu um telefonema do seu gabinete “a dizer que o Banco de Espanha estava a levantar problemas aos bancos espanhóis para fazerem propostas” pelo banco madeirense. O Banif acabou por ser entregue ao Santander Totta.

“Conservadorismo pode ser a resposta”

Mas se o enquadramento da chamada do Popular à CPI prometia uma “montanha” mas o enquadramento governativo do grupo bancário espanhol fez com que da audição apenas saísse um pequeno “rato”.

“Quando surgem oportunidades [de aquisições], o grupo socorre-se de um departamento, chamado de desarollo corporativo, cuja equipa, em Madrid, é responsável por conduzir as operações de fusões e aquisições”, explicou Carlos Álvares. “Eu sabia que a operação decorria, mas não participei nela”, acrescentou.

E se ainda não fosse claro o suficiente, o CEO do Popular Portugal explicou ainda melhor: “Não participei em quaisquer reuniões, tenho dificuldade em falar deste processo. De qualquer maneira estou disponível para responder… mas com algumas dificuldades para abordar este dossiê em concreto.”

Como forma de contornar parcialmente este desconhecimento, os deputados que chegaram a colocar perguntas ao presidente do Popular Portugal pediram que pelo menos apresentasse a sua opinião ou visão de todo o caso. E aqui chegou pelo menos a resposta a Mourinho Félix, ainda que assente apenas na “opinião pessoal” de Carlos Álvares.

“O Popular é muito conservador. Quando se envolve em aquisições, faz sempre questão de aplicar um due dilligence muito apertado”, disse o responsável. Quanto à saída de cena à última hora, quando o Banif passou a estar em contexto de resolução, Álvares admitiu que “o conservadorismo” do banco “possa ter levado a não apresentar proposta”. Mas, realçou, “esta é a minha opinião face ao que conheço da casa onde trabalho”.

E detalhou:

“Não sei porque não aconteceu. Pelo que conheço da casa, é muito conservadora. Parece-me que há alteração grande com a mudança da venda voluntária para a resolução com venda de ativos, que implicaria uma tomada de decisões rápidas, com um perímetro talvez distinto. Falo do que conheço da minha casa, admito que não se sentissem como um peixe dentro de água numa operação nesse cariz, mas é uma opinião pessoal.”

Uma outra questão que pode justificar o desconhecimento em maior detalhe dos passos e dos contactos que terão sido mantidos entre o Popular e as autoridades portuguesas será a morte de Rui Semedo em meados de 2015, com Carlos Manuel Álvares a assumir então a liderança do Popular Portugal em julho de 2015. Nessa altura, “e em conversa com o CEO do banco em Espanha, manifestei o apoio do nosso acionista à operação em Portugal e que não descuraríamos uma operação que fosse interessante”.

Popular serviu de correio

Na sequência das questões que foram sendo apresentadas pelos deputados, a maioria numa lógica de tentar perceber se o responsável poderia ter alguma informação minimamente relevante para a CPI, Álvares acabou por explicar que a única intervenção que teve em todo este processo ocorreu em meados de dezembro.

“No dia 15 ou 16 de dezembro, através de email, o meu CEO fez chegar um documento relacionado com a aquisição [do Banif]. E o que fiz foi um pouco de correio, no fundo: meter no envelope e fazer chegar a proposta às Finanças. Colocámos o documento num envelope que seguiu para as Finanças”, explicou. O responsável explicou ainda que na altura nem consultou o documento mas que agora, depois de ser chamado à CPI, acabou por ir relê-lo. “É um documento que não é uma proposta firme, inclui as condições em que o Popular estaria disponível para fazer a aquisição.”

Ainda no campo de perguntas soltas, Álvares foi ainda questionado sobre a sua opinião face às notícias veiculadas pela TVI sobre o fecho iminente da instituição, que provocou uma fuga de depósitos do Banif de mil milhões de euros que condenou definitivamente o banco à resolução, Carlos Manuel Álvares apontou apenas que considera “natural” que uma fuga de depósitos daquela dimensão, “na sua opinião”, acabe por arrefecer o interesse de eventuais concorrentes.

Fora estas questões, a resposta que os deputados mais ouviram do presidente do Popular Portugal foi: “Lamento mas não participei, desconheço.”

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