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Banqueiros recusam forçar concessão de crédito. “É voltar aos erros do passado”

O governador do Banco de Portugal (BdP), Carlos Costa. (Fotografia: Tiago Petinga/Lusa)
O governador do Banco de Portugal (BdP), Carlos Costa. (Fotografia: Tiago Petinga/Lusa)

"Não estamos aqui para financiar certo tipo de operações. A nossa função não é fazer qualquer operação, as operações têm que obedecer a princípios"

Das duas, uma: ou evitamos os erros de anos anteriores e encaramos de frente a questão de que não há assim tão boas empresas com tão bons projetos para financiar, ou então tira-se o garrote à concessão de crédito e voltamos ao passado.

Esta foi uma das ideias transmitidas pelos banqueiros que estão hoje presentes no Fórum Banca, depois de questionados sobre as queixas do tecido empresarial em relação à falta de acesso a crédito, numa altura em que o Banco Central Europeu já libertou todos os mecanismos para o aumento de liquidez na economia.

A resposta dos bancos é simples: “Vemos hoje os níveis elevados de crédito vencido, sinal de que o dinheiro foi colocado na mão daqueles que efetivamente não o utilizaram de forma correta e Portugal está cheio desses projetos. É isso que queremos outra vez?”, sintetizou Vieira Monteiro, CEO do Santander Totta. “Ou, pelo contrário, queremos financiar e ajudar a crescer a economia com boas empresas?”

A mesma ideia foi transmitida por Nuno Amado, presidente do Millennium bcp. As queixas do tecido empresarial, diz, “têm um enorme erro de apreciação”, apontando que os ‘spreads’ hoje cobrados pelos bancos em Portugal estão abaixo “do que devíamos cobrar tendo em conta o risco”. E desafiou: “Se há empresas que acham que não têm acesso a crédito em condições, então que venham ao BCP e nós analisaremos a situação.”

Para o presidente do BCP, uma das formas de perceber se o problema do financiamento são os travões impostos pela banca ou a falta de condições das próprias empresas passaria pelo IAPMEI. “Já sugeri ao IAPMEI que se criasse uma área onde centralizar todos os pedidos das empresas que acham que não estão a ser atendidas, e logo veríamos se é um problema de financiamento ou das próprias empresas. Era uma boa forma de ultrapassar esta falsa questão.”

“Tenho todo o interesse em que apareçam bons projetos, boas empresas a pedir dinheiro”, apontou por seu turno o líder do Santander Totta. “Quase todo o sistema tem excesso de liquidez e está a colocar o dinheiro no BCE, onde paga para isso”, explicou. Seria muito mais rentável ter esta liquidez dedicada a bons financiamentos. Mas estes são escassos e é preciso evitar os erros do passado.

“O dinheiro foi colocado na mão daqueles que efetivamente não o utilizaram como deve ser e Portugal está cheio desses projetos. É isso que queremos outra vez?”, rematou então. E acrescentou: “Não estamos aqui para financiar certo tipo de operações. A nossa função não é fazer toda e qualquer operação, todas as operações têm que obedecer a determinados princípios: quando fugirmos deles, perdemos a rentabilidade e surge o malparado.”

Já António Ramalho, presidente do Novo Banco, lembrou que esteve fora do setor bancário nos últimos anos, realçando porém o caminho feito nesse período pelas instituições: “Não se critique agora aquilo que foi o risco da banca em 2010, quando havia um rácio de créditos/depósitos de 168%.”

“Hoje vejo com muito gosto que este rácio chegou aos 100%, devíamos ter orgulho nisto. Claro que este processo teve um custo, o crédito em risco subiu de 5,3% para 12,7%, o da habitação de 4,3% para 6,1% e o das empresas de 10,5% para 21%.”

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