Buraco no BES Angola afeta mais um Espírito Santo

Ricardo Abecassis fez parte do Conselho de Administração do BESA até final de 2012
Ricardo Abecassis fez parte do Conselho de Administração do BESA até final de 2012

A guerra no Grupo Espírito Santo (GES) deu esta sexta-feira mais um passo ao serem conhecidas com detalhe as operações do BES Angola (BESA) que podem conduzir ao reconhecimento de uma perda equivalente a 80% do crédito concedido por aquele banco, isto é, 5,7 mil milhões de dólares, apesar de o Estado angolano ter entretanto emitido uma garantia de cinco mil milhões de dólares que permitirá, se executada, tapar grande parte do buraco financeiro.

Não são conhecidos os termos desta garantia assinada pelo Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, mas sabe-se que tem um prazo de 18 meses (renovável) e que se for executada a consequência deverá ser a nacionalização do BESA pelo Estado de Angola e a diluição das participações dos restantes acionistas – BES (55,7%) Portmill (24%, general Kopelipa), Grupo Geni (18,99%, general Leopoldino do Nascimento) e Álvaro Sobrinho, ex-CEO do BESA, que ainda controla 1,3% do banco.

Ou seja, se nos próximos meses o crédito em risco não for recuperado – parte dele foi concedido sem quaisquer garantias – e se os atuais acionistas não taparem as perdas com uma injeção de capital que hoje parece de todo improvável, o BES (acionista minoritário da Controlinveste) pode deixar de contar com um braço financeiro em Angola ou pelo menos pode deixar de o controlar como até aqui.

Segundo o Expresso, parte substancial dos empréstimos feitos pelo BESA durante os dez anos de gestão de Álvaro Sobrinho, dono em Portugal do semanário Sol, caracterizaram-se por violar todas as regras de prudência bancária. Crédito concedido de forma discricionária e sem garantias, beneficiários de empréstimos desconhecidos, dossiês de crédito inexistentes, levantamentos em notas no valor de centenas de milhões e, finalmente, a cereja em cima do bolo: a aprovação de empréstimos pelo punho do CEO do banco, Álvaro Sobrinho, sem a intervenção de mais ninguém, a empresas ligadas a ele próprio.

Além de atingir em cheio Álvaro Sobrinho, embora as consequências sejam ainda vagas já que não houve até agora nenhuma acusação de fraude ou gestão danosa, apenas a constatação do buraco gigantesco e da violação das mais básicas regras bancárias (não havia sequer um conselho de crédito formal no BESA), a verdade é que a notícia de ontem acaba por ferir mais um nome da família Espírito Santo – Ricardo Abecassis, CEO do BESI no Brasil.

A notícia de que Ricardo Abecassis fez parte, até final de 2012, do Conselho de Administração do BESA, que deixou passar em claro problemas tão graves no banco com consequências financeiras e de reputação enormes, pode ser suficiente para também o afastar da guerra pela sucessão de Salgado – embora a gestão do banco angolano não tenha passado pelas mãos de Ricardo Abecassis. Isto é, com Salgado fora da corrida para suceder a ele próprio – a questão é saber se sai durante o verão ou se fica até ao fim do mandato, em 2015 -, com Ricardo Abecassis tocado agora pelo escândalo no BESA e com dois possíveis sucessores constituídos arguidos (Ricciardi e Pires, apesar de ambos poderem ser ilibados), a lista de alternativas óbvias para a liderança do banco vai-se apertando cada vez mais.

Bernardo Espírito Santo, administrador do BES, é um dos nomes que se mantêm sobre a mesa, até porque faz parte da nova geração. Dos vários nomes postos a circular, sobra ainda o de Joaquim Goes, também ele administrador do BES, mas que levanta, segundo fonte próxima do processo, “muitas dúvidas” a uma parte da família Espírito Santo. “Ele seria uma espécie de “solução Paulo Teixeira Pinto”… não acabou bem, pois não?”

Além destas interrogações, há ainda a esclarecer o papel do Banco de Portugal, que terá de “não rejeitar o nome” proposto pelos acionistas do banco mas que não tem mandato para impor quem será o próximo CEO do BES, embora tenha ficado claro que prefere alguém não ligado à família. Segundo fonte do Conselho Superior do GES, não há, por isso, “qualquer decisão tomada sobre ninguém. Não foi rejeitado ou aprovado qualquer nome”.

A guerra mantém-se totalmente aberta, tendo feito uma outra vítima potencial: a KPMG, que auditou as contas do BESA ao longos destes anos, terá de esclarecer o seu papel no descalabro do banco.

* Esta peça foi corrigida às 20.50, porque continha uma incorreção factual sobre Bernardo Espírito Santo

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