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CGD. Capital e reestruturação são os maiores desafios da nova gestão

Fotografia: Rui Coutinho
Fotografia: Rui Coutinho

Depois da injeção de capital, nova equipa de gestão liderada por António Domingues tem de reduzir custos e vender ativos para voltar aos lucros

A nova equipa de gestão da Caixa Geral de Depósitos, que será liderada por António Domingues, vai assumir o banco público com vários desafios em cima da mesa. O principal está na ordem do dia e na agenda política: a capitalização da CGD, que pode chegar aos 4000 milhões de euros.

Bruxelas já tem o plano desenhado pelo executivo e há urgência do lado português numa decisão. O ministro das Finanças, Mário Centeno, afirmou que o processo ainda está em fase de negociação mas que a recapitalização do banco público tem de passar por três fases: nomeação do conselho de administração, alteração das condições de governação e um novo plano de ação.

Ou seja, o executivo terá de implementar um plano de reestruturação da CGD que prove que o Estado está a investir como investiria um acionista privado, condição essencial para a injeção de capital não ser considerada ajuda de Estado.

António Domingues

António Domingues, futuro líder da CGD

A reestruturação da CGD terá de passar não só por uma redução da carteira de ativos que não geram rentabilidade mas também pela redução de custos e adequação da estrutura de recursos humanos numa altura em que o modelo de negócio da banca tem de se transformar para se adaptar ao digital.

Margrethe Vestager, a comissária europeia, já deu sinais de que se esse plano for apresentado a capitalização será aprovada. “Se o Estado investir como um privado faria, bem isso é excelente para nós e, claro, não é ajuda de Estado”, afirmou à TSF. Mas a implementação de um plano de reestruturação, num banco com a dimensão da CGD, não é simples.

“O primeiro desafio da nova equipa de gestão da CGD é garantir a solidez económico-financeira e clarificar qual o papel do banco no futuro, seja em termos de serviços a prestar, influência na economia e participação na estabilização do sistema financeiro”, diz Filipe Garcia, analista da IMF. Henrique Dias, da XTB, refere que um grande objetivo é a “expansão do crédito”.

Albino Oliveira, da Patris, concorda que o principal desafio é a “melhoria da rentabilidade”. “Numa fase inicial é preciso repor os níveis de capital.” Será depois necessária a “implementação de um programa de reestruturação, com o objetivo de adequar a base de custos ao atual enquadramento que deverá manter-se difícil para o sector”.

Para Filipe Garcia, esta adequação da base de custos passa por uma redução da estrutura. “Provavelmente o banco tem ativo e funcionários em excesso.”

O ministro das Finanças também está a negociar com Bruxelas se a despesa com a capitalização poderá ir à dívida pública em vez de agravar o défice deste ano ou se pode ser dividida em duas partes (défice e dívida), como noticiou o Dinheiro Vivo. Mário Centeno garantiu que ainda não há decisão, mas o objetivo é que a capitalização não tenha impacto no défice.

Urgência de capital
O banco público precisa, até ao final do ano, de mais de 600 milhões de euros para elevar em 1% o rácio core tier one e cumprir as exigências do Banco de Portugal, que entram em vigor já em janeiro. E há urgência na aprovação do plano de recapitalização porque António Domingues terá imposto como condição uma capitalização de 4000 milhões de euros para assumir funções no banco, embora o valor não tenha sido confirmado oficialmente. António Domingues será acompanhado por seis administradores executivos e 12 não executivos, incluindo Leonor Beleza e Rui Vilar, num total de 19 administradores.

Ou seja, só depois de ultrapassado – ou garantida a aprovação – o desafio da recapitalização é que a nova equipa de gestão tomará posse para endereçar os desafios operacionais. Por isso mesmo, o tema tem sido alvo de grande atenção política.

Os contactos a favor da capitalização da Caixa Geral de Depósitos têm-se multiplicado: o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, terá abordado o tema quando se reuniu com a chanceler alemã Angela Merkel, no final de maio. E o primeiro-ministro já disse várias vezes que a Caixa não pode ser prejudicada por ter um acionista estatal.

A CGD ainda tem por devolver 900 milhões de euros de capital contingente (CoCos) até junho de 2017. Albino Oliveira refere que esse valor pode justificar a capitalização de 4000 milhões de euros.

Também do ponto de vista operacional todos os caminhos vão dar à capitalização. A CGD terá de passar dos prejuízos de 74 milhões de euros que registou no final do primeiro trimestre a lucros, numa altura em que tem de cumprir as exigências de capital e conseguir alguma folga para concluir o registo das imparidades em projetos imobiliários ou com a desvalorização de imóveis que recebeu por incumprimento de contratos de crédito, que totalizam 1,2 mil milhões de euros.

O banco vai continuar a vender ativos, mas não deverá alienar as participações internacionais, que no primeiro trimestre contribuiu para mais de 22% do total dos depósitos e mais de 21% do total de crédito a clientes. “A área internacional” também merecerá atenção, acredita Albino Oliveira”, “com destaque para Espanha, após ter sido implementado um plano de reestruturação”.

A nova gestão do banco terá de procurar inverter a queda no produto bancário (no primeiro trimestre caiu mais de 39%). Os depósitos a clientes subiram 5,6% no trimestre mas registou-se uma redução nos créditos a clientes, que caíram 2,5%, ainda assim abaixo da queda nos bancos concorrentes. Pela positiva destaca-se a subida do crédito à habitação, que mais do que duplicou, ajudando a melhorar a rentabilidade do banco estatal.

A CGD sofre ainda com a pressão na margem financeira devido às baixas taxas de juro, com uma forte pressão concorrencial e regulamentar sobre a cobrança das comissões e ainda a volatilidade dos mercados financeiros internacionais, o que tem levado os investidores a refugiarem–se em ativos de baixo risco, numa altura em que, lembra Albino Oliveira, os custos representaram 68,2% do produto bancário em 2015.

Na lógica da redução de custos, a CGD continua a implementar, como previsto, o plano Horizonte. Lançado em 2015 e com conclusão prevista no final deste ano, o plano de reformas antecipadas lançado pelo banco público teve mais de mil candidaturas logo na sua fase inicial. Só este ano, até ao final de abril, já saíram 103 funcionários. E a Caixa encerrou 34 balcões.

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