Investimento

Chinesa Level Constellation desiste dos imóveis do Novo Banco

Presidente Executivo do Grupo Level Constellation Foto: António Pedro Santos / Global Imagens
Presidente Executivo do Grupo Level Constellation Foto: António Pedro Santos / Global Imagens

A demora na obtenção de vistos gold levou os chineses a recuar. O grupo ainda enfrenta suspeitas de fuga ao fisco

A chinesa Level Constellation era até há dois meses uma das principais interessadas na compra de parte da carteira de imóveis do Novo Banco, avaliada em 2,8 mil milhões de euros.

O grupo, criado em Xangai em 2014 por seis investidores com o objetivo de comprar imóveis em Portugal, esbarrou na burocracia. “Olhámos para a carteira do Novo Banco durante os últimos dois anos. É uma pena, mas desistimos. Muitos dos nossos acionistas ainda não conseguiram obter o visto gold e não querem investir 100 milhões de euros num país onde não podem entrar.

Em 2014 o processo era muito rápido. Um dos nossos clientes até já desistiu do negócio por estar à espera de visto há mais de um ano. Não é razoável”, declarou ao Dinheiro Vivo Yingjie Wen, presidente executivo do grupo, de visita a Portugal, ele próprio à espera da renovação da autorização de residência no país, que obteve há dois anos graças a um investimento que já totaliza mais de 20 milhões.

Lisboa, 05/08/2016 - Entrevista ao presidente Executivo do Grupo Level Constellation, Yong Wen. ( António Pedro Santos / Global Imagens )

Fotografia: António Pedro Santos / Global Imagens

“Fomos apanhados de surpresa. Ficámos chocados, descobrimos pelas notícias que éramos suspeitos”, refere o empresário.

Caso não consiga obtê-la no próximo mês, os investimentos da Level Constellation em Portugal podem estar comprometidos. Um deles, no valor de 15 milhões de euros, já ficou pelo caminho. O grupo tinha praticamente finalizada a compra do edifício da Estamo, no centro de Lisboa.

O negócio foi cancelado devido a suspeitas de que a empresa estaria a usar os investimentos em Portugal em esquemas de lavagem de dinheiro e branqueamento de capitais. Em maio deste ano, o Banco de Portugal emitiu uma nota a todos os bancos que operam em Portugal, requerendo que qualquer movimentação financeira da Level Constellation no país deveria ser comunicada às autoridades.

“Fomos apanhados de surpresa. Ficámos chocados, descobrimos pelas notícias que éramos suspeitos”, refere o empresário.

O caso remonta a 2014, quando a Level Constellation se mostrou interessada em adquirir uma filial imobiliária em Portugal, com o objetivo de garantir isenção de IMI nos edifícios que planeava recuperar. Com a ajuda de uma firma de advogados portuguesa, o grupo chinês acabou por comprar a sociedade Biombos Coloridos, com sede em Castelo Branco.

As autoridades assumiram que tínhamos ligações com os anteriores donos. E nós pensámos que estávamos a comprar uma empresa limpa”

Segundo o empresário, os anteriores proprietários da Biombos Coloridos, e não a própria empresa, estariam a ser investigados por evasão fiscal, num processo que, por estar em segredo de justiça, não foi detetado. “As autoridades assumiram que tínhamos ligações com os anteriores donos. E nós pensámos que estávamos a comprar uma empresa limpa. Estamos a fazer tudo o que podemos para ajudar a resolver a situação, já fornecemos vários documentos e queremos falar com as autoridades o mais depressa possível porque não temos nada a esconder. Tivemos azar”. O grupo chinês entregou o caso à PLMJ.

Apesar dos contratempos, a Level Constellation prepara-se para inaugurar o empreendimento Park Avenue, no centro de Lisboa, já no final de agosto. Dos 27 apartamentos que fazem parte do complexo, 20 já estão vendidos, a maior parte a estrangeiros. 60% dos compradores são provenientes de França, Itália, Azerbaijão, Estónia, Emirados Árabes Unidos e Líbano. Os portugueses representam 15% dos compradores, tal como os chineses. Os restantes 10% são brasileiros.

No empreendimento Ouro Grand, na Rua do Ouro, em Lisboa, restam 25 apartamentos por vender, que custam entre 240 mil e 750 mil euros. “Vamos continuar focados na reabilitação de edifícios na baixa lisboeta.”

Temos interesse em investir em startups tecnológicas, não só em Lisboa mas também no Porto. Estamos a estudar o mercado”

No entanto, a aposta do grupo chinês em Portugal não se esgota no imobiliário. A Level Constellation vai estar na Web Summit, que decorre em Lisboa em novembro, como caça-talentos. “Temos interesse em investir em startups tecnológicas, não só em Lisboa mas também no Porto. Estamos a estudar o mercado”, revela Yingjie Wen.

Quanto a investimentos futuros, o empresário chinês é cauteloso e não adianta valores. O aumento dos preços no setor imobiliário, a instabilidade do sistema financeiro português e os problemas com a justiça obrigaram o grupo a rever o plano de negócios de curto e médio prazo. “Primeiro temos de recuperar a nossa reputação e limpar o nosso nome em Portugal”, sublinha.

Yingjie Wen garante, no entanto, que a aposta em Portugal é para manter a longo prazo, até porque é aqui que o empresário chinês pretende passar a reforma.

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