Futuro da Banca

Christine Lagarde: 25% do sistema bancário não é viável

Deutsche Bank não é o único banco que "precisa de fazer uma introspeção e perceber como quer ser no futuro", alerta diretora-geral do FMI

Mesmo que tudo comece a correr bem já hoje, 25% do setor bancário global vai descobrir em breve que não é “próspero”, que é como quem diz viável. A conclusão é de Christine Lagarde, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional, que traçou um cenário negro – ou cinzento escuro – sobre a situação do sistema financeiro global, em entrevista à “Bloomberg”.

“As conclusões do Relatório de Estabilidade Financeira Global apontam para que mesmo que a situação melhore e mesmo que os decisores tomem melhores decisões e passem à ação, haverá ainda cerca de 25% do sistema bancário que não vai ser próspero”, explicou Lagarde, na entrevista cedida quarta-feira. “Isto exige que todos os CEO reexaminem o trabalho que têm pela frente.”

Na entrevista de dez minutos à agência noticiosa, muito centrada na situação do Deutsche Bank (DB), Lagarde recordou que o banco alemão foi considerado pelo FMI como o maior risco para a estabilidade mundial, lembrando de seguida que tal significa que o DB “está fortemente correlacionado com várias outras instituições financeiras sistémicas por todo o mundo”. Mas foi além do caso alemão.

O Deutsche Bank “terá, como muitos outros bancos, que reanalisar o seu modelo de negócio – o que já está a fazer tendo avançado para a venda de ativos -, e pensar na sua rentabilidade a longo-prazo dado o atual enquadramento de baixas taxas de juro, devendo decidir que tamanho quer ter e como vai reforçar o seu balanço”, recomendou, mas não apenas para o banco alemão. “Não é o único banco que o tem de fazer, há muitos bancos que precisam de fazer uma introspeção e perceber como é que querem ser.”

Ler mais: Lagarde defende que Deutsche Bank deve chegar a acordo

Continuando na análise alargada ao sistema bancário, Lagarde apontou que a digitalização dos serviços financeiros poderá ser um dos caminhos a seguir pelas instituições para reduzir custos e enfrentar o atual enquadramento, puxando do recente anúncio de reestruturação do holandês ING como exemplo. “Se virmos o que o ING anunciou, é o que vai acontecer a muitos bancos”, vaticinou. O banco vai apostar no digital e cortar sete mil postos de trabalho nos próximos anos.

“Não há apoios orçamentais para ajudar banca”

Questionada sobre a situação da banca europeia, nomeadamente em relação ao fardo do crédito malparado nos balanços das instituições, Lagarde criticou os avanços limitados da União Bancária e a inexistência de qualquer apoio governamental ao setor bancário.

“Temos defendido uma verdadeira União Bancária na União Europeia e ela existe até um certo grau mas ainda não está concluída”, referiu a diretora-geral do FMI, passando de seguida para os governos: “Não há ajudas orçamentais previstas para apoiar a banca no significativo esforço que têm pela frente para reformar e ajustar a sua dimensão.”

A definição de mecanismos comuns de apoio à capitalização que os bancos europeus ainda vão precisar no futuro – em especial se vierem a extrair dos balanços estes ativos não produtivos – seria assim um primeiro passo para reforçar a confiança do sistema financeiro no Velho Continente, apontou Lagarde. Como segundo passo advogou uma maior transparência das autoridades perante o estado dos bancos.

“O segundo passo é chamar as coisas pelos seus nomes, mesmo que não seja bem-vindo. Se há muitos ativos não produtivos no balanço de um banco, temos que o apontar, tanto em privado como em público, mesmo que falemos apenas em termos consolidados, sem singularizar ninguém”, recomendou.

A diretora-geral do FMI abordou ainda as restantes ramificações do setor financeiro, lembrando que também as seguradoras e os fundos de pensões estão a ser muito afetados pelo longo período de taxas de juro próximas do zero. “A solvência de muitas seguradoras e fundos também fica ameaçada por esta duração longa e crónica das baixas taxas”, advertiu.

“Exige reexaminar as práticas dessas áreas, dos seguros e dos fundos de pensões. Particularmente no caso dos seguros de vida, já que há países onde um certo de nível de retorno é obrigatório e definido por Lei”, explicou, dando como exemplo o caso do Japão, que define por via legal estes retornos. “Há trabalho a fazer nestas duas áreas.”

A finalizar, Lagarde apontou aquela que tem sido a recomendação do FMI para lidar com toda a incerteza e a falta de crescimento económico um pouco por todo o globo. “É preciso que se avance de forma decidida em três pilares, e ao mesmo tempo: políticas monetárias, orçamentais e reformas estruturais.”

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