financiamento

Crédito chega às famílias mas nunca foi tão baixo para as empresas

Fotografia: Tiago Melo
Fotografia: Tiago Melo

Crédito às famílias recupera. Mas cai nas empresas. A CIP teme pelas exportações. A APB diz que as taxas de rejeição atingiram mínimos.

Crédito ao consumo a disparar. Empréstimos para comprar casa em alta. Só o financiamento às empresas está a cair. Depois dos anos de seca provocados pela crise, os bancos estão a abrir de novo a torneira do crédito… aos particulares; nas empresas, incluindo as exportadoras, os empréstimos batem mínimos.

No ano passado, o novo crédito às empresas caiu quase mil milhões de euros face a 2016, somando 28,8 mil milhões, segundo dados divulgados do Banco de Portugal. Uma queda de mais de 3%. É o valor mais baixo pelo menos desde 2003, data dos dados mais antigos revelados pelo supervisor.

Já para particulares, incluindo novo crédito ao consumo e à habitação, os bancos destinaram mais 2,9 mil milhões de euros do que em 2016, um aumento de 30%. Totalizou quase 12,5 mil milhões, o montante mais alto desde antes da chegada da troika. A proporção do novo crédito que está a ir para as famílias bateu recordes, representando mais de 30% do total.

António Saraiva, presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), diz ao Dinheiro Vivo que os números do crédito são “um sinal de que o sistema bancário, apesar de mais capitalizado e dispondo de mais liquidez, continua a não cumprir cabalmente a sua função de intermediação entre poupança e investimento, falhando na canalização de recursos financeiros para o setor produtivo”.

O patrão da CIP mostra particular preocupação com a evolução do crédito às exportadoras. “É uma situação que nos preocupa, tanto mais que, nos últimos meses, as empresas exportadoras passaram a registar taxas de variação negativas no stock de empréstimos.” Explica que “para investir, as empresas precisam de financiamento”. E que “se não investirem, não será possível manter o atual ritmo de crescimento das exportações, que continua a ser um dos principais motores da nossa recuperação económica”.

Do lado da Associação Portuguesa de Bancos (APB), os dados do crédito têm uma leitura diferente. “Embora o novo crédito concedido a empresas esteja a diminuir, verifica-se existir, em 2017, uma moderação expressiva da tendência decrescente registada nos anos de 2013 a 2016”, responde a entidade liderada por Faria de Oliveira ao Dinheiro Vivo.

A APB detalha que “as condições de oferta de crédito têm registado uma melhoria, tendo a taxa de juro média dos novos empréstimos a empresas atingido mesmo o nível mais baixo em dezembro de 2017, enquanto as taxas de rejeição de novos empréstimos a PME atingem, igualmente, mínimos”.

Uma questão de risco

As entidades financeiras garantem que têm crédito para dar. “Os bancos não só estão preparados para dar crédito às empresas como competem entre si para poder financiar empresas solventes, que passem no crivo de avaliação de risco, tal como é exigido no atual quadro regulatório”, diz a APB.

Mas António Saraiva defende que, entre os fatores que explicam a queda do crédito, está “também a manutenção das dificuldades no acesso ao financiamento bancário”.

“Estamos perante uma situação curiosa”, considera Filipe Garcia, economista da IMF. Em termos gerais, os bancos querem dar crédito a empresas que têm outras soluções de financiamento e as que precisam de empréstimos não são aceites pela banca devido ao seu risco. “Não há constrangimentos de oferta de crédito às empresas de menor risco, mas estas entidades não estão a procurar mais crédito em Portugal”, refere o economista. E explica que “simetricamente, no caso das empresas com mais risco, são os bancos que não estão muito disponíveis para emprestar”. Resultado: “Uma tendência para a redução do novo crédito contratado”, conclui.

Na resposta à crise económica e à escassez de financiamento durante os anos da troika, houve empresas a tentar adaptar-se. A estratégia foi desendividarem–se a reforçar o seu capital, o que lhes dá maior poderio financeiro e menos dependência da banca. “Empresas que apresentam melhores indicadores de produtividade, rendibilidade e autonomia financeira optam, por vezes, por soluções de autofinanciamento da sua atividade, para efeitos de aplicação de liquidez excedentária”, explica a APB.

António Saraiva reconhece que o esforço de autofinanciamento ajuda a explicar os dados do crédito. Mas argumenta que não contam a história toda. “As causas desta situação estão identificadas”, diz. “Do lado das empresas, estruturas financeiras ainda desequilibradas, com elevados níveis de endividamento e uma excessiva dependência de crédito de curto prazo. Do lado da banca, uma situação de fragilidade, que aumenta a aversão ao risco e leva a uma postura restritiva na concessão de crédito às empresas.”

Excesso no consumo?

O presidente da CIP critica a opção da banca em privilegiar o crédito ao consumo, em que o setor consegue rentabilidades mais elevadas. “Reflete uma visão limitada de curto prazo. Esta excessiva canalização de recursos para o crédito ao consumo é, certamente, negativa para a economia como um todo.”

A APB explica o crescimento do crédito ao consumo com o “contexto económico mais favorável” e realça que os valores concedidos estão “ainda longe daqueles que se registaram no passado”. O stock deste segmento de crédito foi dos poucos a crescer em 2017, o que indica que os bancos estão a dar mais empréstimos do que aqueles que estão a ser pagos.

Nas famílias a procura e a oferta por crédito aparentam estar mais alinhadas do que nas empresas. António Saraiva conclui que “o modelo tradicional de financiamento se encontra fortemente comprometido”. Parte da solução, defende, passa pelo desenvolvimento de fontes alternativas de financiamento.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
A presidente do Conselho de Administração da Autoridade da Concorrência (AdC), Margarida Matos Rosa. Fotografia:  TIAGO PETINGA/LUSA

Compra TVI. AdC ia chumbar operação que ia custar 100 milhões aos concorrentes

German Chancellor Angela Merkel and French President Emmanuel Macron attend a press conference after their meeting at the German government guesthouse Meseberg Palace in Meseberg, Germany, June 19, 2018. REUTERS/Hannibal Hanschke - RC1BEFE4FD20

Zona Euro com orçamento comum em 2021

Funcionários públicos e pensionistas descontam 3,5% para a ADSE

ADSE ganhou 4 mil novos beneficiários titulares

Outros conteúdos GMG
Crédito chega às famílias mas nunca foi tão baixo para as empresas