Coronavírus

Créditos. “Vai haver muito incumprimento e os bancos vão exercer garantias”

Luís Salvaterra, diretor-geral da Intrum Justitia.
(PAULO SPRANGER/Global Imagens)
Luís Salvaterra, diretor-geral da Intrum Justitia. (PAULO SPRANGER/Global Imagens)

Luís Salvaterra, diretor-geral da Intrum Portugal, alerta que as empresas que recorreram às linhas de financiamento vão entrar em incumprimento.

“Vamos ter tempos complicados.” É assim que Luís Salvaterra, diretor-geral da Intrum Portugal, vê o próximo ano em termos de perspetivas financeiras para as famílias, para as empresas portuguesas, mas também para o Estado.

Para o responsável da empresa de gestão de cobrança de créditos, muitas empresas que estão a ser financiadas pelas linhas com garantia estatal vão falhar com as suas responsabilidades e a fatura pode acabar a ser paga pelos contribuintes: “Vai haver muito incumprimento, os bancos vão seguramente ter de exercer as garantias que têm do Estado”, admite Salvaterra ao Dinheiro Vivo. “O nível de incumprimento vai ser grande. E quando são utilizadas as Sociedades de Garantia Mútua há sempre um grande incumprimento, porque o Estado garante e há alguma leveza das empresas para não pagar”, diz.

Também as moratórias, apesar de positivas no curto prazo, podem adiar a subida do incumprimento, tanto no setor empresarial como nas famílias. “Se calhar o tsunami vem depois. A medida é meritória no curto prazo, mas pode ser um bocadinho estar a adiar o problema”, disse Luís Salvaterra.

No caso da moratória legal para o crédito a empresas e crédito à habitação, o prazo de pagamento foi adiado de 30 de setembro para março de 2021. E as moratórias privadas do setor da banca e do crédito especializado deverão acompanhar o mesmo adiamento. “Os bancos também estão a aprovar a medida, porque é uma maneira de evitarem o default. Assim não vão aumentar os NPL (non-performing loans) – mas no futuro não se sabe”, frisou.

O responsável acrescenta que muitas famílias poderão aproveitar as moratórias e a folga no orçamento para gastarem mais, porque sabem que agora não terão de fazer face aos encargos com empréstimos e cartões de crédito. “As moratórias fazem sentido, mas podem tornar-se um problema”, avisa.
A Intrum espera um abrandamento do seu negócio e recuperação de dívidas no curto prazo devido às moratórias, mas prevê um aumento do incumprimento no próximo ano. “O que vai acontecer é que no próximo ano, se calhar, vamos receber mais. Há aqui um delay mas os NPL vão aumentar de certeza”, garantiu.

Novas medidas
Para o diretor-geral da Intrum Portugal, as medidas de apoio ao setor empresarial, no âmbito da crise atual, “são importantes, mas não em termos de futuro porque se uma não tiver capacidade para gerar negócio é mais endividamento que lhe vai cair em cima”.

“As medidas foram importantes em termos de tesouraria, mas não é isso que vai salvar a empresa. Se a empresa não tiver capacidade para gerar negócio e para se desenvolver, isto vai acarretar mais problemas porque o nível de endividamento também vai aumentar.” E frisa que as medidas têm sido positivas – desde o adiamento do pagamento de impostos a moratórias e linhas garantidas – mas terão de ser ponderadas novas soluções a pensar no médio prazo. E dá o exemplo do setor do turismo, um dos mais afetados pela crise. “Os grandes hotéis dificilmente vão estar com 100% de ocupação nos próximos anos. Vai ter de haver uma reinvenção do modelo de negócio.”

Defende por isso que novas medidas deviam surgir já a seguir ao verão, envolvendo, por exemplo, instrumentos de capital de risco. “O que me parece é que muitas empresas já não tinham sustentabilidade e isto agora é uma maneira de acelerar o seu declínio. A descapitalização das empresas em Portugal é algo crónico”, lamenta.

Para Luís Salvaterra, “as empresas têm de estar capitalizadas, têm de ter lucros, reinvestir esses lucros e apostar na exportação para terem viabilidade”.

Sobre a eventual entrada do Estado no capital de empresas, o responsável da Intrum Portugal considera que será mais uma realidade inevitável. “Poderá mesmo vir a acontecer. E quando o Estado entrar com capital deve participar ou em alternativa criar mecanismos que permitam o retorno desse capital”, defende, dando como exemplo o caso da TAP.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
coronavirus lay-off trabalho emprego desemprego

Empresas com quebras de 25% vão poder pedir apoio à retoma

Balcão da ADSE na Praça de Londres em Lisboa.

( Jorge Amaral/Global Imagens )

ADSE quer 56 milhões do Orçamento do Estado por gastos com isentos

Fotografia: Miguel Pereira / Global Imagens

Quase 42 mil empresas recorreram a apoios que substituíram lay-off simplificado

Créditos. “Vai haver muito incumprimento e os bancos vão exercer garantias”