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Da Boats Caravela aos créditos a Berardo. As explicações dos ex-presidentes

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Santos Ferreira, responsável da CGD nos anos em que foram concedidos os créditos mais problemáticos, disse que com ele o banco teve lucros fabulosos.

Foi durante a administração de Carlos Santos Ferreira que a consultora EY identificou o maior número de financiamentos problemáticos na Caixa Geral de Depósitos. Mas o líder do banco público entre agosto de 2005 e janeiro de 2008 rejeita que se tenham dado créditos de favor e sem garantias.

“Não há créditos de favor. Isso é uma ilegalidade”, assegurou esta terça-feira aos deputados, na II comissão de inquérito à gestão da CGD. Santos Ferreira admitiu que houve créditos concedidos que “tiveram maus resultados”. Mas ressalvou que “seria quase impossível que assim não fosse por causa da crise”.

Santos Ferreira, que saiu da Caixa diretamente para a liderança do BCP, tentou justificar algumas das operações mais problemáticas que foram feitas. Contrapôs a ideia dos negócios ruinosos com o que diz terem sido “lucros fabulosos” durante os seus mandatos.

Carlos Santos Ferreira defendeu ainda os créditos que foram concedidos a Joe Berardo para a compra de ações do BCP sem respeitar as condições propostas pela direção geral de risco (DGR). O antigo responsável da Caixa garantiu que “boa parte das condições da DGR foram satisfeitas”. Isto apesar de, no caso da Metalgest, terem sido concedidos 50 milhões de euros para compra de ações do BCP com uma cobertura de apenas 100%, quando a direção de risco solicitava 120%.

“As condições da DGR não eram em bloco para pegar ou largar. Elencavam-se uma série de condições e algumas eram acomodadas e outras não”, disse Santos Ferreira. Negou que Joe Berardo tivesse um tratamento especial na CGD. Apesar de Santos Ferreira ter dito que houve garantias, segundo um relatório preliminar da EY, a CGD acumulava no final de 2015 prejuízos de mais de 150 milhões de euros nos financiamentos concedidos a Berardo para a compra de ações do BCP.

O “desígnio” BCP

Houve acionistas do BCP que pediram financiamento à CGD para comprar ações do banco e que depois apoiaram Carlos Santos Ferreira para a liderança do banco privado em 2008. “Tenho consciência da ideia do desígnio”, referiu o banqueiro. No entanto, Santos Ferreira argumentou que houve financiamentos de outros bancos para compra de ações do BCP: o próprio BCP, a CGD, o BES e a o Santander.

Santos Ferreira disse que a “teoria de haver financiamentos da CGD e depois alguns membros da administração da CGD terem ido para o BCP, a chamada teoria do assalto ao BCP é um frase fácil que tem como objetivo ocultar que se passou”. Considera mesmo que essa expressão “foi criada por quem perdeu, porque houve quem perdeu”. E recordou que ganhou a eleição com mais de 97% dos votos a Miguel Cadilhe.

Sócrates, Teixeira dos Santos e Artlant

Outras das operações mais ruinosas do banco público foi o financiamento da Artlant em Sines e o investimento na la Seda. Santos Ferreira defendeu que naquela fase o investimento fazia sentido e que o tema foi abordado com o então ministro das Finanças, Teixeira dos Santos. A ideia era trazer a fábrica de ácido tereftálico purificado (PTA) para Portugal.

Esse projeto viria a ser considerado como sendo de interesse nacional pelo governo Sócrates. No entanto, Santos Ferreira afirma que nunca discutiu esse tema nem outros assuntos relacionados com a Caixa com o então primeiro-ministro. O “meu único interlocutor era o ministro das Finanças e o Secretário de Estado do Tesouro e das Finanças”

Santos Ferreira disse que não era vista de casa de José Sócrates. “Hoje não temos relação mas na altura, na Caixa, teríamos uma relação normal entre dois membros do mesmo partido”, disse o antigo presidente da CGD.

A operação mais ruinosa

No entanto, a operação que terá provocado maiores perdas à CGD foi assinada no final de 1999. O negócio das obrigações Boat Caravela feito com o Credit Suisse resultaria em prejuízos de 340 milhões. António de Sousa, presidente da CGD entre 2000 e 2004 disse que houve membros da administração liderada por João Salgueiro, incluindo o próprio presidente, que “não entenderam bem o que estavam a assinar”.

Ouvido também esta terça-feira no Parlamento António de Sousa considerou que “a operação era toda ela arriscada e se não fosse assim como é que tinham pago tanto à CGD para ficar com aquele risco?”. O Credit Suisse pagou um juro generoso à cabeça, o que ajudou os resultados de 1999, mas rapidamente essa aplicação financeira complexa começou a dar prejuízos.

António de Sousa revelou ainda que quando a direção de gestão de risco foi criada na CGD gerou tensão no banco. “Havia pessoas que não estavam habituadas a isso”, disse. Um dos exemplos foi Tomás Correia, que chegou a fazer declarações de voto contra os novos procedimentos na polítca de concessão de crédito. O atual presidente da Mutualista Montepio foi administrador do banco público entre 1996 e 2002 e manifestou-se na altura contra a política de crédito da Caixa.

O antigo presidente da CGD revelou ainda que soube de uma carta de Almerindo Marques a alertar para riscos e problemas na concessão de crédito por Vítor Constâncio, numa reunião. O antigo governador do Banco de Portugal tinha dito na comissão que não fazia ideia dessa carta, enviada em 2002, devido a “tanto papel” que recebeu. O PSD quer que Constâncio seja novamente ouvido para esclarecer essa contradição.

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