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DBRS corta outlook da dívida da CGD e do BCP para “negativo”

Paulo Macedo, presidente da CGD, e Miguel Maya, presidente do BCP.
(Orlando Almeida / Global Imagens)
Paulo Macedo, presidente da CGD, e Miguel Maya, presidente do BCP. (Orlando Almeida / Global Imagens)

Os dois bancos ficam mais perto de um corte na nota da qualidade do crédito. A acontecer, terá efeitos negativos no negócio financeiro e no país.

Dois dos maiores bancos portugueses, CGD e BCP, sofreram esta quinta-feira, de uma assentada, uma redução da perspetiva (outlook) sobre a qualidade das suas dívidas (rating) por parte da agência DBRS. A “tendência” era estável e agora passou a negativa. É um aviso importante: os dois bancos juntos valem mais de metade do mercado bancário português: a quota da CGD ronda os 40%, a do BCP cerca de 18%.

A pressão que a crise resultante da pandemia da covid-19 está a causar nas contas e que, eventualmente, vai corroer os resultados e a qualidade dos ativos de ambos os bancos, é o principal motivo para esta ação, que aparece como um aviso para o que aí vem.

Os ratings de longo prazo (que aferem as capacidade dos dois bancos em pagar o que devem no longo prazo) continuam num patamar BBB, mas assim ficam mais perto de um corte efetivo na nota da qualidade do crédito, o que, a acontecer, pode ter efeitos negativos no negócio das duas instituições de crédito.

Atualmente, de acordo com a métrica da DBRS, o BCP está numa posição bastante precária. O seu rating é BBB (baixo), o que significa que há uma probabilidade mais elevada, caso as coisas não melhorem, de a notar deslizar para a classe BB, nível em que a dívida do banco já é considerada um ativo “especulativo” ou “lixo”.

A CGD está mais afastada desse limite. A nota da dívida do banco estatal é BBB (alto), estando portanto dois níveis acima do “lixo”, como se diz na gíria dos mercados.

O caso da CGD

Relativamente à Caixa, a DBRS diz que esta descida do outlook para negativo “reflete a nossa visão de que a disrupção económica e de mercado alargada e crescente resultante da pandemia do coronavírus vai pressionar os lucros e o balanço do banco”.

“A deterioração do ambiente operacional em Portugal provavelmente afetará as receitas, a qualidade dos ativos e o custo do risco”. Além disso, “o ambiente atual também somará novos desafios e maior risco de execução sobre plano estratégico do banco”.

A confirmação dos ratings reflete a posição de mercado líder do Banco em Portugal, a sólida posição de financiamento e capital, bem como o progresso alcançado na redução de empréstimos vencidos e outros ativos herdados.

“Dada esta tendência negativa, uma subida na classificação [rating] é improvável neste momento”, resume a DBRS.

O caso do BCP

Como referido, o caso do BCP é mais complicado aos olhos deste avaliador.

O corte da perspetiva do rating para negativa reflete a opinião da DBRS de que a crise pandémica também “vai pressionar os lucros e o balanço” do BCP, afetando negativamente as receitas, a qualidade dos ativos e o nível de risco.

Tendo em conta que a nota da dívida está apenas a um degrau do lixo, a DBRS suaviza a análise, dizendo que “confirma” a nota BBB (ainda em baixa) porque “temos em conta sua posição estável no mercado, o perfil de financiamento sólido e almofadas de capital moderadas, bem como a melhoria dos indicadores de qualidade dos ativos”.

Mas, dito isto, para a DBRS “é improvável que haja uma subida nos ratings” devido a esta “mudança na tendência para negativa”.

Em todo o caso, “a tendência pode voltar a estável se o banco demonstrar um impacto limitado na qualidade dos ativos e nos lucros no ambiente atual, mantendo, ao mesmo tempo, almofadas de capital sólidas”

Mas a DBRS avisa que pode acontecer um corte para BB se o banco não conseguir inverter impactos nefastos da crise nos lucros, nas reservas de capital, etc.

Um primeiro trimestre agreste

Recorde-se que este primeiro trimestre já foi bastante agreste para a evolução dos resultados de ambos os bancos, ainda que tenham mantido lucros.

A Caixa Geral de Depósitos (CGD) registou um lucro líquido de 86 milhões de euros no primeiro trimestre de 2020, uma quebra de 31% face ao resultado de igual período do ano passado, penalizado pela crise provocada pela epidemia de coronavírus, segundo disse a própria instituição.

O Millennium BCP teve um lucro líquido de 35,3 milhões de euros no primeiro trimestre deste ano, um colapso de 77% face ao resultado obtido no período homólogo de 2019, também devido ao impacto da crise na sequência da epidemia do coronavírus.

(atualizado 19h15)

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