Futuro da Banca

Deutsche Bank. “O capital não tem cor e não tem nacionalidade”

Bernardo Meyrelles, Deutsche Bank
Bernardo Meyrelles, Deutsche Bank

O presidente do banco frisa que é preciso capitalizar o sector e que, pela dimensão do mercado, o interesse natural é de "espanhóis e ex-colónias".

Bernardo Meyrelles de Souto, presidente do Deutsche Bank para Portugal, defendeu hoje que é preciso atrair capital para Portugal, frisando que “o capital não tem cor e não tem nacionalidade”.

“Tudo o que seja capital bom e honesto é capital. Tudo o que sejam os grandes bancos e empresas o capital não tem uma jurisdição, o capital está diversificado noutras geografias”, afirmou aos jornalistas, à margem do almoço-debate do International Club of Portugal, onde foi orador.

Na sua intervenção o responsável defendeu que os bancos em Portugal enfrentam vários desafios, sobretudo o da capitalização, já que o mercado português não tem dimensão para ser atrativo e captar investimento e capital. “Isso limita muito os interessados. Quem pode ter interesse são os espanhóis e a ex-colónias”, afirmou.

“Os bancos não têm capital, o Estado não tem capital e as empresas não têm capital e é preciso pôr capital na economia”, avisou, defendendo que “enquanto o sistema financeiro estiver a definhar não é possível promover o crescimento económico”.

Sobre a necessidade de um banco mau, defendeu, questionado pelos jornalistas que, antes de mais, é necessário facilitar as falências de empresas e saídas de agentes da economia, permitindo limpar o balanço dos bancos.

“Antes de um banco mau há que trabalhar o aspeto da saída. Há que agilizar o aspeto da saída dos agentes que não sejam produtivos. Não pode acontecer um banco que tem um crédito malparado para resolver com uma empresa esteja dois ou três anos a resolver esse problema”. Ou seja, é preciso alterar o código de falências e de reestruturação, explicou. “Criaram-se os PER mas ainda assim é tudo muito lento”, criticou. “Estamos muito focados com a entrada no mercado mas também nos devemos preocupar com a saída. Quando for fácil a um agente entrar e sair do mercado os problemas da economia tendem-se a resolver”.

“Provavelmente os próprios bancos conseguirão, assim, resolver o seu problema sem necessitar de um banco mau”, defendeu.

Na sua intervenção, o presidente do Deutsche Bank referiu que os bancos têm de se adaptar em termos de dimensão e de geografias onde estão e também focar-se no que diz respeito aos serviços e clientes, uma vez que as exigências regulatórias e as necessidades de capital cada vez maiores já não permitem estar em todas as atividades ao mesmo tempo.

Questionado pelos jornalistas sobre a dimensão do setor bancário nacional, Bernardo Meyrelles de Souto defendeu que “Os bancos portugueses não estão na primeira linha dos bancos em termos de dimensão e não podem ter essa ambição porque não têm capital para isso. Podem é ser muito bons players de segunda linha, com uma posição relevante em Portugal e outra posição relevante numa ou outra geografia. E depois escolherem em que segmento querem operar.”

Deutsche Bank afasta Novo Banco e avalia contribuição extraordinária sobre banca

Neste sentido, o processo de venda do Novo Banco pode ajudar a este fortalecimento dos bancos portugueses. “O que resultar do sistema financeiro depois da resolução do Novo Banco vai resultar numa maior integração e o cenário será diferente do que está neste momento”.

O gestor afastou o interesse do Deutsche Bank no processo de compra do Novo Banco, lembrando que foi advisor da resolução e que, por isso mesmo, está impedido de participar.

Sobre as exigências regulatórias do Banco de Portugal afirmou que o supervisor está a cumprir as regras europeias mas considerou que “é pena que isto não se tenha feito antes, na altura em que os bancos estavam mais confortáveis. Têm de o fazer agora, numa altura em que os bancos estão mais debilitados e é precisamente esse esforço nesta altura que tem vindo a criar dificuldades adicionais. Tem de ser feito mas poderia ser mais gradual e a múltiplas velocidades tendo em conta que a realidade e situação dos bancos não é toda a mesma.”

O Deutsche Bank vai este ano ser incluído na contribuição sobre o setor bancário mas o presidente do banco avisou que “este é um aspeto que ainda estamos a avaliar porque contribuímos para o sistema alemão e uma instituição não pode estar a contribuir para dois sistemas. São regras europeias. E obviamente que estando a descontar para um não vamos descontar para dois. É um assunto que vamos ter de resolver nas maiores instâncias.”

Já sobre o ‘brexit’ e o impacto que uma saída do Reino Unido da União Europeia pode ter nos bancos nacionais Meyrelles de Souto admitiu que “se houver uma saída os efeitos vão ser muitos, e particularmente no sistema financeiro, com impacto na instabilidade política e na volatilidade dos mercados”.

“E mesmo que a opção seja por ficar vão ser precisas grandes mudanças na Europa. A Europa tem de saber fazer a leitura dos resultados”, concluiu.

 

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