pagamentos eletrónicos

Easypay: “Bancos têm negócio transacional muito ameaçado”

Sebastião Lancastre, CEO e fundador da Easypay
Sebastião Lancastre, CEO e fundador da Easypay

Empresa de Sebastião Lancastre vai lançar meio de pagamento que vai permitir fazer transferências para qualquer parte do mundo e de forma instantânea

“O negócio dos bancos está ameaçado”. Quem o diz é o CEO e fundador da empresa de meios de pagamento eletrónico Easypay. Em entrevista ao Dinheiro Vivo, Sebastião Lancastre considera que os bancos têm o negócio das transações muito ameaçado, porque demoraram a reagir à revolução tecnológica, e defende que devem voltar à origem, ou seja ficar com a concessão de crédito.

Sebastião Lancastre defende ainda que, tal como aconteceu em Inglaterra, a Unicre e a SIBS deveriam deixar de ter a banca como acionista e serem geridas de forma independente.

Em 2018, entra em vigor uma diretiva europeia que vai obrigar os bancos a executarem transferências instantâneas num prazo máximo de 10 segundos. Em Portugal, a medida deverá arrancar em novembro de 2017, mas a Easypay quer antecipar-se e vai lançar um meio de pagamento que vai permitir fazer transferências para qualquer parte do mundo e de forma instantânea. O novo produto deverá estar pronto a tempo do Web Summit.

Como tem sido a evolução da empresa?

A Easypay surgiu para resolver três problemas do mercado: ajudar a implementar meios de pagamentos eletrónicos nas PME; o facto de os preços estarem ajustados às grandes empresas e não às PME e a vertente comportamental. A Easypay iniciou atividade em 2007, antecipando-se à primeira diretiva sobre os meios de pagamentos eletrónicos, temos crescido em dois dígitos e muito acima de 50%. A crise passou-nos, felizmente, um bocadinho ao lado.

E como tem sido 2016?

Estamos a crescer mais que o ano passado, em cinco meses já crescemos 46% face ao período homólogo. Temos zero de dívida, queremos utilizar o dinheiro que nos sobra para investir mas estamos preparados para qualquer crise. Em termos de operações, no ano passado até maio processámos 168 mil transações e este ano 270 mil. Os nossos clientes são todas as empresas que precisam de pagamentos eletrónicos, como a EMEL, a Nestlé, a Renova, ou ginásios como o Fitness Hut e o Holmes Place, ou Organizações Não Governamentais como a Unicef. São 4600 clientes, o que são números muito interessantes e que tornam a Easypay muito apetitosa.

Em que sentido?

Com alguma frequência recebo contactos a perguntar: Não queres vender isto?

Por parte de quem?

Quem anda mais distraído são os bancos. Andam verdadeiramente distraídos.

Mas já recebeu propostas?

Diretamente não. Mas outras empresas, ou concorrentes meus ou empresas internacionais que querem entrar em Portugal.

Em termos práticos, o que faz a Easypay?

Somos um banco, verdadeiramente. Temos instrumentos de pagamento. Não temos cartões porque não queremos, é uma decisão estratégica. Somos uma instituição de pagamento que tem, exatamente, as mesmas obrigações e capacidades de um banco. Somos regulados pelo Banco de Portugal, temos de cumprir os mesmos critérios de lavagem de dinheiro, de compliance, de combate ao terrorismo, etc. Não podemos conceder crédito e, por isso, somos uma empresa mais segura para ter o dinheiro, porque não há risco. Fazemos a ponte entre as empresas e os clientes, fornecendo instrumentos de pagamento.

São uma espécie de PayPal?

Somos mais do que uma PayPal. Fazemos o negócio com os comerciantes mas os consumidores também podem abrir uma conta e utilizá-la para pagamentos. A grande diferença que trazemos para o mercado é cumprir os dois mandamentos do sucesso que são: dizer que sim aos clientes e sermos os mais rápidos. É a única maneira de se vencer e uma mudança muito grande de cultura.

E os bancos estão preparados?

É o maior choque que os bancos estão a viver hoje. Os bancos, provavelmente, têm o negócio transacional muito ameaçado porque atualmente quase tudo é instantâneo menos as transferências. Porque é que temos de estar à espera? Onde é que o dinheiro gravita? Não há razão nenhuma, tecnicamente, para o dinheiro andar aí a gravitar. É isso que a diretiva europeia, que entra em vigor em 2018, vem resolver. A perspetiva para Portugal é que entre em vigor em novembro de 2017. Mas não estamos sozinhos nisto e os nossos congéneres ingleses estão com uma dinâmica brutal.

Em que sentido?

Em três: este ano vão emitir 10 licenças bancárias, nós emitimos uma nos últimos dez anos; vão antecipar a entrada da diretiva, será no primeiro ou segundo trimestre de 2017; e obrigaram os bancos a vender a equivalente à SIBS. A ideia do governo é modernizar, dinamizar, incentivar e empurrar os bancos a libertarem-se das transferências atrasadas.

E porque é que cá também não se antecipa a diretiva?

Tem de perguntar ao Banco de Portugal, mas a minha opinião é a de que não estamos com essa dinâmica, falta-nos muita coisa e Portugal foi, durante muitos anos, o país líder dos pagamentos eletrónicos. Mas, nos últimos dez anos, foi um maramos inacreditável.

Essa tem sido a evolução do sector de pagamentos eletrónicos em Portugal?

Nos últimos dez anos não aconteceu nada. Aconteceu o MBWay, mas tirando isso não aconteceu nada.

Esse maramos deveu-se a quê? E vai continuar?

Com todo o respeito, mas a SIBS teve há muitos anos uma direção visionária. As empresas são as pessoas. Agora vai ser muito difícil acompanhar porque o problema é que as barreiras foram caindo. Eu tenho muita dificuldade em resistir a convites que tenho do governo inglês para mover-me para Londres onde me oferecem durante 20 anos um IRC de 10%. É muito difícil resistir. Em termos de taxas de IRC, a Inglaterra convida-nos, a Holanda convida-nos e a Irlanda convida-nos. Estão atentos.

Estando cá sedeado não pode trabalhar em Inglaterra?

Posso, claro. Tenho licença para trabalhar nos 27 países mas há grande diferença quando chegamos ao final do ano com o dinheiro que conseguimos libertar para os acionistas. Não estou só preocupado com a taxa de IRC, mas com a minha capacidade para investir mais. Existe uma dinâmica em Inglaterra que não tem comparação.

Então o futuro não se augura promissor?

Tenho esperança que o governo português vá recebendo umas mensagens e faça aquilo que o governo inglês fez com as Unicre e as SIBS britânicas.

Acabar com elas?

Não, tirá-las dos bancos e pôr outras pessoas na administração. Elas não precisam de pertencer aos bancos e é mesmo importante que tenham uma dinâmica diferente. Os bancos, ao serem acionistas, de alguma maneira influenciam o rumo da empresa. Os bancos deviam deixar de ser os acionistas, e a empresa passar a ser gerida independentemente dos bancos e a fornecer serviços. Iria chamar a competição que é a melhor coisa que temos, e não a concentração.

E o que é preciso fazer para acabar com o marasmo?

É preciso criar ambiente, e o ambiente só se cria quando vem de cima. É preciso sermos muitos a acontecerem e muitos a querermos fazer isto. Olhando para a nova diretiva europeia, Portugal poderia tentar fazer uma coisa interessante porque temos a melhor infraestrutura da Europa. Fazer isto é muito fácil.

O que diz a nova diretiva europeia?

Vem dizer que os bancos centrais e as instituições de pagamento têm de passar a permitir executar transferências instantâneas, que são a execução da operação e a transferência dos fundos que têm de ocorrer num prazo máximo de 10 segundos, e com custos de cêntimos. Além disso, qualquer comerciante pode ter acesso à conta à ordem do cliente, com a permissão deste, sem passar pela SIBS ou pelos bancos.

Que novidades tivemos, nos últimos anos, nos pagamentos eletrónicos em Portugal?

A única coisa que aconteceu nos últimos anos foi o MB Way, que também vamos disponibilizar como meio de pagamento.

E que outros instrumentos de pagamentos disponibiliza?

As referências multibanco, os cartões de crédito, os débitos diretos, as transferências bancárias, o boleto bancário do Brasil, e agora o MB Way, que é claramente um instrumento de pagamento para os jovens e que deverá ter muito sucesso.

Vão lançar novos produtos em breve?

Estamos a desenvolver um produto em cima de blockchain, ou seja é a tecnologia que está por detrás das Bitcoins. As moedas criptográficas precisam de ser construídas todos os dias e que me garantem fazer transações em qualquer parte do mundo e de forma instantânea. A diretiva é só para a Europa mas e se eu quiser transferir para o Brasil, para o Japão ou para a Austrália? Ou uso a Bitcoin ou uma moeda criptográfica. Estamos a desenvolver um novo produto, baseado nesta tecnologia, para permitir fazer transferências para qualquer parte do mundo, de forma instantânea, com segurança e com custos na casa dos cêntimos. É um produto para este ano e que gostaríamos de ter pronto a tempo do Web Summit, em novembro. Vai permitir depositar o dinheiro e fazer o que quiser. Neste novo produto, a previsão de investimento são de 6 milhões de euros.

E mais parcerias?

Fazemos muitas parcerias com empresas de tecnologia, que desenvolvem por exemplo software de faturação, software de ginásios, de restauração, etc. As parcerias são determinantes para o aceleramento do negócio e temos já um bom conjunto de parceiros.

A banca está preparada para as novas tecnologias? Como vê a banca atualmente e, sobretudo, o seu futuro?

O negócio dos bancos está ameaçado. Os bancos estão conscientes de que a revolução vem aí mas também estão conscientes de que não têm tempo para se prepararem. Estão verdadeiramente conscientes disso. As empresas de pagamento são muito mais ágeis e reagem muito mais depressa do que os bancos. A ameaça que os bancos têm hoje em dia verdadeiramente é não conseguirem reagir, não há tempo de reação. Se eles perderem o negócio transacional, os bancos ficam com os grandes empréstimos, com as grandes obras públicas, no fundo vão voltar à origem. O negócio transacional está ameaçado e não do crédito, que vai sempre existir. Acho que vão ficar mais na área do crédito e vão perder o transacional, e eles sabem disso. Mas é muito importante existir a banca, que ela esteja sólida e com bons rácios, e é determinante para o sucesso da economia.

Quais os objetivos para 2016?

A Easypay tem capacidade para crescer muito ainda, mas também sei que o facto de trabalharmos com dinheiro implica que todas as medidas que tomamos têm de ser ponderadas. Tenho 17 colaboradores e até ao final do ano vou chegar aos 24. A nível de internacionalização temos definidos os três primeiros países que vamos atacar em 2017 com o nosso produto que será lançado: Inglaterra, Alemanha e França, ou seja os maiores mercados. Para 2018 também já temos definido os países, mas vamos ver como correm as coisas. E também procuramos crescer em volume, a massa monetária que passou na Easypay em maio foram 7 milhões de euros, que foi muito mais de 40% face ao ano passado.

E antevê concorrência, certo?

Claro, e é sempre bom ter concorrência. Não tenho medo nenhum, mas em Portugal não há. Com todo o respeito, tenho poucos e são fracos. São quatro as instituições de pagamento: a PT Pay, euPago, Ifthenpay, Lusopay. A única empresa que tem uma visão da Europa e que agrega todos os meios de pagamento é a Easypay e é por isso que cresceu num instante.

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