Setor Financeiro

Espanha dá como perdidos 60,6 mil milhões de ajudas aos bancos

Fotografia: Kai Pfaffenbach/Reuters
Fotografia: Kai Pfaffenbach/Reuters

Espanha dá como perdida uma grande parte do dinheiro usado nos bancos. Em Portugal, o cenário é mais otimista. BPN e CGD serão os grandes sorvedouros.

Pode parecer exagerado, mas é verdade. Segundo o Banco de Espanha, as ajudas à banca nacional entre 2008 e 2015 totalizaram 77 mil milhões de euros e 80% deste valor parece ser irrecuperável. São 60,6 mil milhões que se esvaíram em poucos anos, o equivalente a cerca de 34% do PIB português de 2015.



Natureza dos gastos

Portugal gastou 15,3 mil milhões na recapitalização da banca entre 2008 e 2015, segundo dados da Comissão Europeia citados pelo Banco de Espanha (ver gráfico interativo acima apresentado). Foi o equivalente a 8,5% do PIB de 2015. No entanto, aquele valor diz só respeito a injeções diretas com vista a recapitalizar as instituições. Se forem tidas em conta outras medidas, Portugal gastou naquele período uns adicionais 23,5 mil milhões de euros em medidas que foram desde a criação de veículos de produtos tóxicos (as sociedades herdeiras do BPN, como a Parups ou Parparticipadas são bons exemplos) até à prestação de garantias. O impacto líquido dos apoios estatais à banca podem ser vistos no gráfico abaixo apresentado, que tem como fonte o Eurostat.



Quem gastou mais?

Bankia fecha balcões em Portugal

Bankia, um dos bancos espanhóis ajudados

Espanha gastou bem mais do que Portugal nas recapitalizações em termos absolutos – 61,9 mil milhões de euros -, mas menos em termos relativos (5,8% do PIB). Os países que mais usaram as ajudas ao capital do setor financeiro entre 2008 e 2015 foram a Grécia, Irlanda e Chipre (entre 20 e 25 % do PIB), Portugal e Eslovénia (cerca de 9 %), seguidos de Espanha, Bélgica, Luxemburgo (entre 5 e 6 %) e da Dinamarca, Reino Unido, Áustria e Holanda (entre 3 e 4 %). Os países que menos usaram este expediente foram a Alemanha (2,1 %), França (1,1%) e Itália (0,7 %). Estas estatísticas dizem respeito a valores brutos e não incorporam os reembolsos do capital injetado pelo Estado com ou sem financiamento da troika.

No caso de Espanha, só se recuperaram cerca de 16,3 mil milhões de euros dos 77 mil milhões gastos, isto é, só foi possível obter de volta um em cada cinco euros. Dos 60,6 mil milhões de euros que se perderam, cerca de 39,5 mil milhões foram a cargo do contribuinte.

Do BPN à CGD

Fachada da Sede do BPN - Banco Português de Negócios. Fotografia: Global Imagens

Fachada da Sede do BPN – Banco Português de Negócios. Fotografia: Global Imagens

No caso de Portugal, os cálculos não estão feitos de uma forma agregada, à semelhança do fez agora do Banco de Espanha. A título de exemplo, no final de 2016, o saldo acumulado das receitas e despesas orçamentais decorrentes da nacionalização e reprivatização do BPN e da constituição e funcionamento das respetivas sociedades-veículo Parvalorem, Parups e Parparticipadas ascendia a -3,66 mil milhões de euros. Este valor resulta do saldo negativo acumulado dos anos anteriores: 735,8 milhões de euros em 2011, 966,4 milhões em 2012, 468 milhões em 2013, 476,6 milhões em 2014 e 593,9 milhões em 2015 e 420 milhões no ano passado. No entanto, a conta não parou e poderá chegar facilmente a 5,4 mil milhões.

Esquecendo o caso BPN e o processo de recapitalização da CGD que ainda está em curso (pode ser visto como investimento público num banco estatal), as famosas obrigações de capital contingente [conhecidas como ‘Cocos’, que não são mais do que obrigações convertíveis, em casos limite, em ações] subscritas pelo Estado para capitalizar o setor bancário renderam só em juros 1280 milhões de euros aos cofres públicos entre 2012 e 2016. Sinal de que os bancos (os privados) conseguiram devolver grande parte do empréstimo e, nalguns casos, o reembolso já foi 100% concretizado.

No total, foram quatro os bancos que recorreram a CoCos: o BCP pediu 3000 milhões, o BPI 1500 milhões, CGD recorreu a 900 milhões e, por fim, o Banif pediu 400 milhões. Tudo somado, os contribuintes subscreveram 5800 milhões de euros nestas obrigações. Deste total, apenas os 900 milhões entregues à CGD não vieram do cheque de 12 mil milhões posto de lado para o setor financeiro no empréstimo de 78 mil milhões da troika. Contudo, do cheque posto de lado para a banca, apenas metade foi utilizado nos apoios ao bancos.

Entre 2008 e 2012, foram feitos quatro aumentos de capital no banco público, que somaram 2700 milhões. Em 2012, o Estado emprestou mais 900 milhões, através precisamente das CoCos, dos quais o Estado nunca mais viu a cor, sendo integrados num esforço de recapitalização que poderá chegar aos 4,9 mil milhões de euros.

 

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