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As 5 explicações de Fernando Ulrich para a crise da banca

Fernando Ulrich, presidente executivo do BPI. Fotografia: Jorge Amaral/Global Imagens
Fernando Ulrich, presidente executivo do BPI. Fotografia: Jorge Amaral/Global Imagens

Presente numa conferência no Largo do Rato, presidente do BPI aponta a socialistas que concentração bancária é movimento inevitável e imparável

Fernando Ulrich, presidente do BPI, identifica cinco razões estruturais para as dificuldades que todo o setor bancário da zona euro tem atravessado nos últimos anos, dificuldades essas que tem levado a banca a procurar uma cada vez maior concentração, reduzindo por essa via o total de entidades financeiras existentes. Mas a concentração na banca “é inexorável”, garantiu.

“A verdade é que a rentabilidade dos bancos comerciais baixou, e de forma significativa. Em primeiro lugar é importante referir que isto é um fenómeno europeu, não uma especificidade portuguesa ou ibérica. E o segundo aspeto importante de referir é que devemos separar causas conjunturais de causas estruturais, estas últimas bem mais relevantes”, começou por dizer o líder do BPI.

Fernando Ulrich marcou presença esta terça-feira numa conferência organizada pelo Partido Socialista sobre o setor bancário, a primeira de três que se realizarão antes do congresso dos socialistas, em junho, e que visam “abrir as portas do PS ao exterior”.

Segundo apontou aos socialistas presentes no Largo do Rato, a primeira destas causas estruturais foi “o facto das taxas de juro terem descido” até um patamar próximo do zero, uma redução com “consequências muito significativas para a atividade bancária”, já que amputa as margens financeiras das sociedades. Por outro lado, sublinhou Ulrich, o cenário de taxas de juro reduzidas, “é muito bom para a economia”.

“Não voltaremos tão cedo aos níveis anteriores”

Um outro facto estrutural que complicou a realidade da banca foi a obrigatória “redução dos balanços dos bancos, dos seus ativos, designadamente ao nível da carteira de créditos, algo que aconteceu em toda a zona euro”, referiu. “Não só em economias com crescimentos mais baixos, mas também porque houve um reconhecimento generalizado que o grau de alavancagem das economias era excessivo e havia que corrigir isso.”

Foi este excesso que obrigou ao apertar dos créditos à economia, reduzindo por seu turno o volume de negócios gerado pelas instituições. E este é um processo sem retorno, considera o presidente do BPI: “Não vamos voltar tão cedo aos volumes de crédito que os bancos chegaram a ter nos seus balanços”, realçou na sua intervenção.

A redução das remunerações oferecidas pelos títulos de dívida pública foi um outro factor “agridoce” identificado por Fernando Ulrich aos socialistas. É que se por um lado são sinal de que os contribuintes estão a pagar menos juros pela dívida pública, por outro lado este cenário retira aos bancos mais uma fonte de rendimentos – que tem sido essencial nos últimos anos.

“Até há poucos anos os bancos investiam em dívida alemã ou italiana, títulos que davam algum rendimento. Mas neste momento a Alemanha paga juros negativos. Foi mais uma fonte de rendimento que existiu e desapareceu”, disse. E admitiu: “É bom para a economia e para os contribuintes mas é mau para os bancos.”

Quanto aos dois últimos factores estruturais que aumentaram as dificuldades ao setor bancário europeu nos últimos anos, Fernando Ulrich identificou as alterações que levaram à criação de uma “regulação mais exigente e mais cara”. Mas não criticou estas mudanças, o contrário, apontando “compreender” as alterações dado “os excessos cometidos” no passado.

“A maior exigência tem um preço, como os custos para ter capacidade interna para responder às regulamentações, maiores exigências em termos de sistemas informáticos… tudo junto implica um custo de regulação que não existia há cinco anos.”

Um outro factor a deteriorar as contas e os balanços da banca surgiram do incremento da concorrência de “não bancos”, disse Ulrich. “Com as inovações tecnológicas surgiram uma série de entidades que estão a tentar, com sucesso, entrar em determinadas partes do negócio bancário”, algo que tem impacto com mais concorrência e “consequências acrescidas nos custos, já que exigem mais investimento em tecnologia para os bancos também oferecerem esse tipo de capacidades”, explicou Ulrich.

Soluções? Concentração inevitável

Quanto às soluções que os bancos têm procurado neste novo enquadramento, Ulrich apontou que na banca “há economias de escala muito grandes” e que os bancos, “com maior dimensão e uma boa gestão”, conseguem obter ganhos significativos, daí ser natural que se estejam a registar movimentos de concentração.

Sobre os movimentos de consolidação, Ulrich apontou que estes movimentos “não são específicos de Portugal” mas que a “redução do número de concorrentes é um movimento inexorável de avanços e recuos e uma resposta económica às exigências a que o setor está sujeito”, explicou, apontando depois que estes movimentos “têm sido assim em todos os setores económicos”.

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