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FMI. Bancos europeus ainda devem cortar 22 mil milhões em custos

Fotografia: Paulo Spranger
Fotografia: Paulo Spranger

FMI alerta que persistência de baixos níveis de retorno na banca é um risco sistémico para a estabilidade, pois incentiva bancos a arriscar mais

A banca europeia está a dar sinais de alguma inversão de momentum, com os índices bolsistas a reconhecerem gradualmente os avanços que o setor foi registando ao longo do último ano. As valorizações dos títulos em 2016, diz o FMI, foi a reação dos mercados aos passos positivos dados em termos de recapitalizações e no campo dos ativos problemáticos. Ainda assim, os desafios que se apresentam ao setor financeiro ainda são muitos.

“Houve progressos consideráveis nos últimos anos ao nível do setor bancário europeu e o otimismo face a uma inversão para terreno positivo das economias avançadas ajudou a impulsionar a cotação dos bancos”, reflete o FMI no relatório de estabilidade financeira hoje divulgado. Contudo, sublinha o Fundo, uma recuperação assente meramente na inversão de ciclo económico “será insuficiente por si para restaurar os níveis de rentabilidade de bancos que persistem fracos”. Para o FMI, o crescimento excessivo do setor nos anos imediatamente anteriores à eclosão da crise financeira continua a ser o maior dos obstáculos por superar.

Excesso ainda por atacar? Cortem 22 mil milhões de euros

Um dos maiores desafios estruturais que hoje o sistema financeiro ainda enfrenta, aponta o FMI, passa pelo “overbanking”, ou seja, o crescimento desmedido porque todo o setor avançou à época do crédito desgovernado e que ainda agora está por resolver. E se todos são demasiado grandes, todos estão a sofrer demasiada concorrência, enfrentando demasiado custos, sintetiza o Fundo norte-americano.

“As causas deste ‘excesso bancário’ variam de país para país, e podem ter origem num sistema bancário com excesso de ativos face ao tamanho da economia que servem, um longo rasto de bancos fracos com reduzidos níveis de capital ou pela existência de demasiados bancos com um foco demasiado fechado”, aponta o relatório.

É à conta do atraso em resolver estas ‘gorduras’ bancárias que o FMI recomenda então que a banca europeia avance de forma decidida pelo “corte da capacidade em excesso”, algo que não é comum a todos os países, notam. “Os sistemas bancários na Dinamarca, Holanda e Espanha foram os que viram as maiores reduções percentuais em termos de agências e colaboradores”, destaca o FMI. Mas faltam os outros e os outros ainda representam muito.

“A racionalização de agências, para que o rácio de depósitos por balcão de cada banco considerado atinja, pelo menos, a média europeia, poderia reduzir os custos operacionais do setor em cerca de 23 mil milhões de dólares [21,6 mil milhões de euros], valor equivalente a 23% dos resultados após impostos dos bancos considerados.” Entre os 172 bancos considerados, detalha o FMI, há 159 que precisam de cortar no excesso.

Lucrar pouco levará bancos a arriscar mais do que devem

Mesmo reconhecendo o regresso de grande parte dos bancos considerados – 172 bancos do Velho Continente, incluindo seis presentes em Portugal – a níveis positivos de retorno para o o capital investido pelo acionista (return on equity), o FMI salienta também que este permanece muito baixo (inferior a 8%) em cerca de metade das instituições consideradas, temendo mesmo que este baixo nível de retorno seja o “novo normal” para muitos bancos.

“Esta conclusão é corroborada por vários analistas que não esperam que a recuperação das economias aumente significativamente os lucros dos bancos”, prevendo ainda a persistência de níveis abaixo dos 8% pelo menos até 2019. E isto é um risco porque incentiva os bancos a correr mais riscos, alerta o FMI no relatório.

“A persistência de baixos níveis de retorno é uma preocupação sistémica para a estabilidade. Lucros baixos vão impedir os bancos de criarem almofadas financeiras de forma orgânica tornando-os mais vulneráveis a choques”, aponta o relatório de estabilidade financeira. Além disso, refere, também o baixo nível de retorno para o acionista tornará mais difícil para a banca continuar a atrair capital para o seu balanço, já que “os investidores estão normalmente mais disponíveis para recapitalizar instituições que garantam retorno acima do mercado.”

Mas pior é mesmo o que o desespero dos bancos por lucrar mais e de forma mais acelerada pode vir (novamente) a provocar: “Ao mesmo tempo, os bancos que enfrentam pressões para ser rentáveis podem acabar por decidir incorrer em mais riscos, por exemplo ao aumentar o crédito a clientes menos fiáveis”, alerta o Fundo.

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