Seguradoras

Galamba de Oliveira: “É preciso um fundo para responder a grandes catástrofes”

José Galamba de Oliveira, Presidente da Associação Portuguesa de Seguradores.
(Leonardo Negrão / Global Imagens)
José Galamba de Oliveira, Presidente da Associação Portuguesa de Seguradores. (Leonardo Negrão / Global Imagens)

Presidente da Associação Portuguesa de Seguradores diz que nos próximos meses será feita proposta para se criar um fundo contra catástrofes.

O presidente da Associação Portuguesa de Seguradores considera, em entrevista ao Dinheiro Vivo, que existe a necessidade de se criar um fundo que permita responder a grandes catástrofes. José Galamba de Oliveira defende que se deveria incentivar a poupança, criando produtos semelhantes aos primeiros PPR, cujo espírito foi desvirtuado.

Entre alterações de legislação e regulação, alterações climáticas e inovação tecnológica, o que tem mais impacto na atividade das seguradoras?

Todos têm impacto. Mas em horizontes temporais diferentes. Os impactos regulatórios são os mais imediatos. O tema da evolução tecnológica é uma revolução e o setor está atento. Há boas ferramentas que nos vão ajudar a alavancar e a tornar mais próximos do consumidor. As alterações climáticas também podem incrementar a frequência e a severidade de alguns fenómenos catastróficos de origem natural, como as tempestades, grandes incêndios, etc. E isso é uma preocupação. Alguns desses riscos que hoje estão a ser seguros ficam com prémio de risco tão alto que deixa de ser viável fazer seguro.

Há muito que se fala da necessidade de se ter um fundo sísmico em Portugal. Devia haver um fundo que abrangesse não só esse risco como também os decorrentes das alterações climáticas?

O que vemos em alguns países é que existem fundos para este tipo de eventos extremos, uns mais focados nos sismos e outros alargados a outro tipo de catástrofes. Temos feito estudos com vista à criação de um mecanismo para catástrofes que possa abarcar o risco sísmico, que em Portugal é importante (basta considerar que Lisboa é a segunda cidade europeia com maior risco sísmico). Mas também para grandes catástrofes, como os incêndios. Estamos a estudar isso com o regulador para depois podermos dialogar com as autoridades. Estamos a falar de um mecanismo para catástrofes que vai ter dois pilares: um sísmico, outro para outro tipo de catástrofes. Estamos a falar de riscos diferentes e que são tratados pela indústria como pilares diferentes.

É expectável ter um mecanismo destes a funcionar até 2020?

Em termos técnicos, acredito que nos próximos dois meses vamos ter uma proposta concreta com o regulador. Obviamente que isto depois entra na discussão política e aí não controlamos os timings. Acredito, dos contactos que tenho feito, que Portugal precisa de ter um mecanismo desses em vigor no curto prazo.

Nos próximos dois meses vamos ter uma proposta concreta para a criação de um mecanismo para catástrofes que possa abarcar o risco sísmico.

Como funcionaria o financiamento desse mecanismo?

Esse é um tema que está ainda em fase de discussão. Pode implicar a constituição de uma pool correspondente aos prémios da cobertura de risco sísmico. Em Portugal, cerca de 16% das casas já têm essa cobertura, em Lisboa, a percentagem até é superior. Essa é uma forma normalmente feita em muitos países. Outra é criar uma taxa como já existe para a Proteção Civil e INEM. Ou então um mix dos dois modelos.

Em relação aos incêndios do ano passado. Qual foi o valor pago em indemnizações?

O valor pago entre os dois grandes eventos, o de Pedrógão em junho e depois em outubro, aproximou-se dos 300 milhões de euros. A maioria, cerca de 250 milhões, foi do incêndio de outubro. Esse foi muito mais do que um incêndio florestal. Destruiu fábricas e portanto o grande valor de indemnizações teve que ver com negócios, empresas, perdas de exploração e danos de materiais seguros.

O valor pago em indemnizações nos dois grandes incêndios do ano passado aproximou-se de 300 milhões de euros.

Mas já foi tudo pago?

Não sei dizer se está a 100%, mas a maioria estará paga. Alguns atrasos com os pagamentos tiveram que ver com a necessidade de reconstrução, pedidos de orçamentos e stocks. Nas fábricas que arderam ardeu também o departamento de contabilidade e portanto os registos de stocks.… Agora, praticamente um ano volvido sobre essa fase, a maioria das indemnizações estão pagas.

Mas comparativamente com outras catástrofes noutros países, o pagamento foi mais rápido ou mais lento?

Não tenho essa informação. Mas o feedback que fui tendo das visitas que tenho feito ao terreno foi apreciado o facto de muito rapidamente as seguradoras terem colocado no terreno equipas multidisciplinares com disponibilidade de irem até adiantando montantes para se iniciar a construção mais rapidamente, quer das casas quer das fábricas, comércios, etc.

Em 2017 os resultados das seguradoras portuguesas tiveram uma evolução positiva. Já é possível fazer um balanço do primeiro semestre?

O crescimento que vimos no ano passado tem sido confirmado nos primeiros meses de 2018. Temos tido boas taxas de crescimento no segmento dos acidentes de trabalho, o que tem que ver com um aumento do emprego; os seguros de saúde também continuam a crescer e do automóvel também.…Notamos que na área de vida é que comparado estamos a crescer mais nos PPR, que acelerou no final de 2017 e manteve-se nos primeiros meses de 2018. Isso tem muito que ver com o facto de não haver grandes alternativas: os depósitos a prazo continuam a ter taxas muito baixas. A verdade é que as pessoas têm canalizado uma boa parte das suas poupanças nestes últimos meses para reforçar PPR.

Nos seguros de saúde o crescimento está relacionado com os problemas no Serviço Nacional de Saúde?

Há dois efeitos. Hoje, nos pacotes de remuneração das empresas estão já incluídos seguros de saúde. Dois terços dos seguros de saúde são de grupo. Mas este é um seguro que é muito apreciado pela sociedade em geral. Mesmo nos anos de crise tiveram um crescimento porque é um seguro em que a pessoa vê maior retorno da anuidade que está a pagar. Basta ir a uma consulta ou a um hospital.

Dois terços dos seguros de saúde são de grupo

Em relação aos PPR, o regime fiscal atual está a ajudar a captar mais poupança?

O regime mudou e neste momento não há nenhum benefício à entrada para os PPR, na medida em que são poupanças de médio/longo prazo. Há ainda algum benefício à saída em sede de IRS para as pessoas que o mantêm durante a vigência do contrato. Os PPR foram desvirtuados nos últimos anos… e hoje já não são um produto só para a reforma, podem ser desmobilizados para várias outras situações como pagar prestações da casa, colégios, etc. Este produto tornou-se mais líquido e isso justificou o abandono dos benefícios fiscais. Mas continuamos a ter um problema com a taxa de poupança e, portanto, faz sentido voltar a criar incentivos de poupança para a reforma, desenvolvendo um produto alinhado com o PPR original, com condições de mobilização mais estritas. Nesses produtos faz sentido ter benefício fiscal à entrada. A nível europeu, a poupança é também um tema.

Os PPR foram desvirtuados nos últimos anos. Faz sentido voltar a criar incentivos de poupança para a reforma, desenvolvendo um produto alinhado com o PPR original, com condições de mobilização mais estritas.

Tem-se discutido a necessidade de se criar um produto europeu de poupança…

Está em discussão na Comissão Europeia e pensamos que existem condições para que possa ser aprovado no próximo ano. Não difere muito do nosso PPR. E há quem diga que a experiência dos PPR em Portugal foi fonte de inspiração. Tem características únicas, como a portabilidade de poder ser transitável de um país para outro. Uma vez legislado, é preciso que o governo decida como vai ser o tratamento fiscal desse produto.

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