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Ricardo Salgado: “Não há iates, nunca houve. E não há castelos na Escócia”

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O risco da banca, a oportunidade da Altice e as desculpas que não vai pedir

Já ponderou pedir desculpa aos seus clientes?
Os clientes foram usados pela medida de resolução, como eu acabei de lhe dizer. Não fui eu que optei pela resolução, nem que a preparei ou executei.

Está a dizer é quem devia pedir desculpas seria o governador?
Assumo a responsabilidade pelos meus atos, mas não pelos do Banco de Portugal. Pedir desculpa seria a fórmula mais fácil de me desresponsabilizar publicamente.

Sente-se ameaçado por lesados?
Não, não me ameaçam e tenho visto na missa em Cascais alguns lesados que depois da missa vêm falar comigo e dou-lhes explicações daquilo que estou a fazer.

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Ricardo Salgado: “Não há iates, nunca houve. E não há castelos na Escócia”

Sente-se seguro?
Ah, isso nunca tive o mais pequeno problema, e não o escondo.

Isso deixa-o confortável?
Não, não me sinto confortável, claro que não. Mas o que estou a fazer, julgo que é o caminho certo. É o caminho das pedras, mas é o caminho certo.

Se for condenado nos processos relativos aos lesados do BES, de que forma prevê ressarci-los?
[Pausa prolongada] Eu continuo na minha senda de procurar demonstrar que tive razão e que tenho razão naquilo que estou a defender, e levarei isso até ao final.

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Ricardo Salgado: “Não há iates, nunca houve. E não há castelos na Escócia”

É a resposta que dará aos clientes que lhe façam esta pergunta?

É, não posso ter outra nesta altura.

Falemos agora de economia. Como vê o crescimento do país?
Temos tido fatores positivos que fizeram aumentar a confiança na economia, que têm que ver com a estabilidade política. Para essa estabilidade política tem contribuído este relacionamento do Partido Socialista com dois partidos mais à esquerda, o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda, mas certamente que também tem contribuído a ação do Presidente da República.

A geringonça surpreendeu-o?
Não me surpreendeu porque compreendo muitas das medidas que os partidos mais à esquerda pretendem para a economia. Julgo que é positivo para o nosso país dar oportunidade de participar no processo político democrático aos partidos mais à esquerda e nunca foram tão ouvidos como são agora. É construtivo para o país.

Está otimista?
Estou moderadamente otimista.

Falando do setor da banca, está mais preocupado com a espanholização ou com a chinezização?
Não estou mais preocupado com nenhuma, mas tem de haver uma reanálise do sistema bancário português do ponto de vista das decisões políticas e da supervisão. E o que eu lhe digo é o seguinte: na minha opinião, o setor bancário tem de ser reorganizado com novos bancos que apoiem as empresas e a economia portuguesa. Não serão os grandes bancos internacionais que vão apoiar os portugueses, nomeadamente na crise. E pensar que os bancos gigantes não vão ter problemas de futuro é uma ideia errada.

Não defende a concentração?
A política de concentração da banca europeia é um erro. É importante que a Europa tenha uma rede de bancos médios ao nível dos países para apoiarem PME.

Como vê a concentração Caixa-Bank-BPI e Popular-Santander?
O BPI é uma sucursal do CaixaBank, faz tudo aquilo que o CaixaBank faz em Espanha. Agora pode ter a certeza de que as operações de crédito do CaixaBank em Portugal não vão ter em atenção as PME como têm os bancos portugueses.

Há espaço para a criação de novos bancos portugueses nessa área?
Acho que devia haver espaço para a criação de novos bancos.

Falando de outro setor, as telecomunicações. O primeiro-ministro disse que já escolheu a operadora que usa. O senhor já escolheu a sua operadora?
É sempre a PT.

Como avalia a OPA da Altice sobre a TVI?
Acredito que seja uma boa coisa para o país. Não conheço ninguém na Altice, mas reconheço que tem potencial. É claro que está numa fase muito complicada que a faz tomar decisões complicadas, e isso é doloroso para quem trabalha na PT. Mas não nos podemos esquecer que, desde a reprivatização, já 70% do capital da PT estava no exterior, nas mãos do investidor estrangeiro. Quando o BES desapareceu tinha uma posição de 10% na PT. A PT ficaria sem possibilidade de ser mantida em mãos portuguesas se não houvesse outros que reforçassem a posição. A CGD podia tê-lo feito e não fez. Sempre defendi os centros de decisão em Portugal. Se o GES não fosse patriota teria recusado a proposta do Dr. Mário Soares para voltar a Portugal depois daquilo que aconteceu em 1975.

Tem a sensação de que a história se repetiu, por outros motivos?
A história voltou a repetir-se, infelizmente por muitos maus caminhos, atendendo a que foi um governo de direita a tomar a decisão.

Falando de política, escolheu Manuel Pinho para ministro da Economia, como disse Ricciardi?
Há pessoas que têm por costume comentar tudo e falar de tudo, mesmo daquilo que não sabem. E eu julgo que o Ricciardi tem excessos temperamentais. Manuel Pinho quando veio trabalhar connosco vinha do FMI e foi diretor--geral do Tesouro no governo de Cavaco Silva. Em 2002, era ouvido pelo Presidente Sampaio e pelo secretário-geral do PS, Ferro Rodrigues. Saiu do BES em 2004. Não precisava de apresentações. Tivemos pena de ele ter deixado o banco. Mas não fui eu, nunca me passaria pela cabeça estar a apresentar ou a sugerir nomes a primeiros-ministros para membros do governo. Pode ter a certeza de que eu não sugeri nada ao engenheiro Sócrates.

Falando de Sócrates, o que espera dos tribunais em relação à Operação Marquês?
Ainda a procissão vai no adro. Ninguém pode falar nessa matéria, mas têm sido divulgados depoimentos do Ministério Público, via imprensa. Sobre prazos, não faço ideia. Sei que estou num rol com dezenas de pessoas, a grande maioria não conheço.

Já que falamos de Portugal, quando liderava o BES, chamavam-lhe DDT, que fazia e desfazia negócios e mandava em tudo. Como reage a isso?
[Risos] Chegado onde cheguei, hoje não tenho dúvidas de que essa história de que dominava tudo foi criada com o propósito de me atacar. Creio que estará relacionada com a palavra inveja, usada por Camões no final de Os Lusíadas. A demonização das pessoas ou das gerações nunca é boa para as sociedades e é normalmente injusta. Portanto, acho que isto foi uma criação artificial para acabar comigo.

Criação de quem?
Não faço ideia. Terá que ver com os media, mas não vou atirar pedras a quem quer que seja.

Sente que muita gente que apoiou, sobretudo empresários, “cuspiu no prato da sopa”, virou-lhe as costas agora?
Não posso dizer que não tenham acontecido alguns factos desses, mas eu considero que tenho um espírito positivo. Ouça, o BES era de facto o banco das empresas em Portugal. Não era só das pequenas, era das médias e das grandes. E das multinacionais! Não havia multinacional em Portugal que não tivesse conta no BES. Isto pode ser presunção da minha parte, mas a grande maioria das multinacionais tinham contas no BES.

Disse, meses após a queda do BES, que “o leopardo quando morre deixa a sua pele e um homem quando morre deixa a sua reputação”. Como é que gostaria de ser lembrado?
Estou a lutar pela minha reputação. Portanto, o leopardo é uma frase, é uma composição chinesa, oriental, os chineses são sábios. Aprendi a conhecê-los e a ter uma grande consideração e estima pelos chineses, e usei essa frase na comissão parlamentar de inquérito. Mas é possível que essa frase volte a aparecer por aí.

Vai aparecer nas suas memórias?
Não lhe posso dizer mais.

Já têm título, as suas memórias?
Não.

Serão publicadas quando?
Espero que até ao final do ano, vamos ver.

Esse exercício tranquiliza-o ou desperta alguns ódios, até dentro do clã familiar?
Tal como disse na comissão parlamentar de inquérito, não ataco a família. Em todo o caso, há uma pessoa que me ataca sistematicamente e que provavelmente, enfim, terá de ter uma referência diferente.

O seu primo Ricciardi não ficará imune à crítica, é isso?
Não lhe posso dizer nada sobre isso.

Não pode adiantar nada, em jeito de pré-publicação? 

Não. Não é segredo de justiça, mas é o meu segredo pessoal.

Há quem considere imoral a sua reforma de 90 mil euros. Como comenta?

Essa reforma é só no papel, não é? O que resta dessa reforma é talvez menos de um terço disso. Por causa da fiscalidade?
Sim, e agora houve uma alteração nos fundos de pensões. É matéria que vou contestar, porque descontei uma brutalidade toda a vida para ter uma reforma melhor.

Portanto, acha que é justa?
É.

Como conseguiu pagar a caução de três milhões a que ficou sujeito no processo Monte Branco?
Isso julgo que foi divulgado. Eu tinha duas contas na Suíça. A partir de uma delas, do Credit Suisse, trouxe os fundos para liquidar cá a caução. E o Ministério Público sabe disso. A outra conta foi arrestada, já não tem saldo.

Tendo o património arrestado pelas autoridades, como tem sido a sua vida a nível económico-financeiro? Passou a fazer contas? Mudou o estilo de vida?
Ah, claro que mudou. A minha mulher está a chamar a atenção para isso. Mas sempre fui de contas.

Que prazer deixou de ter e mais lamenta?
Há dez anos que não faço vela de competição, e era o meu desporto preferido. Mas daí até ter iates… A primeira vez que foram a minha casa vinham à procura dos iates, em Monte Carlo. Não há iates, nunca houve. Ah, e não há castelos na Escócia, também foi outra coisa que disseram que eu tinha.…

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