estudo

Grande capitalismo português está a desaparecer do mapa global

António Mexia, presidente executivo da EDP
António Mexia, presidente executivo da EDP

Crise tirou dimensão às empresas portuguesas, mas não impediu o capital de ganhar pontos ao rendimento do trabalho nos anos de chumbo da crise

Só uma empresa portuguesa considerada grande pela consultora Henderson resistiu à corrosão de valor dos últimos sete anos que foi destruindo a capitalização bolsista, mantendo-se agora como a única “grande” a nível mundial que ainda paga dividendos aos acionistas: a EDP.

Esta informação foi confirmada por fonte oficial da Henderson Global Investors ao Dinheiro Vivo. Galp e Jerónimo Martins caíram do ranking por não terem dimensão suficiente. É o grande capitalismo nacional a perder relevância mundial.

Dito de outra forma, há sinais evidentes de que o grande capitalismo está, aos poucos, a desaparecer de Portugal sempre que a comparação é feita em termos globais. As grandes empresas cá sedeadas continuam a existir e muitas a dar lucro, claro, mas perderam expressão bolsista em termos relativos globais.

Não que isso impeça o capital de ir ganhando espaço aos rendimentos do trabalho. Apesar de o tecido empresarial estar mais fragmentado, enfraquecido pelos níveis de incumprimento e de dívida altíssimos, pela rarefação do crédito bancário e pela anemia na procura, os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que o volume de dinheiro que remunera acionistas e proprietários prediais aumentou. E que os salários perderam expressão.

Entre os primeiros trimestres de 2011 e 2015 (período que incorpora o ajustamento estrutural da troika e a atual legislatura, que termina em outubro), os salários perderam 7,6 mil milhões e os rendimentos de capital engordaram 2,5 mil milhões.

Colapso nos dividendos?

A Henderson Global Investors é uma consultora financeira e gestora de ativos sedeada em Londres e faz, regularmente, um levantamento dos dividendos pagos pelas maiores empresas do mundo.

Num grupo de 40 países, Portugal regista o maior colapso no valor pago em 2015 a título de remuneração acionista (referente ao exercício normal de 2014 mais a remuneração especial paga no ano passado). A quebra é de 52,5%, com o valor em dividendos afundar de 1,4 mil milhões para cerca de 650 milhões de dólares (570 milhões de euros).

Que terá acontecido ao nosso capitalismo?

Segundo os peritos da Henderson, a questão é que só a EDP sobreviveu em 2015 como grande empresa nacional global. “O nosso índice de dividendos cobre em detalhe as maiores 1200 companhias do mundo por capitalização de mercado no final de dezembro de cada ano. A Galp e a Jerónimo Martins saíram desta lista, logo foram excluídas”, explica fonte da consultora, que também gere fundos de investimentos. “Apenas a EDP se manteve no índice em 2015, tendo pago 650 milhões de euros.”

A maior parte da degradação do valor dos dividendos (os tais 52,5% a menos) tem a ver “simplesmente com a saída da Galp e da JM”, mas também reflete “o valor mais baixo do euro” uma vez que o ranking é feito em dólares.

O caso da Galp é paradigmático. A empresa terá caído da lista que se baseia na capitalização bolsista depois de em 2014 as suas ações terem desvalorizado brutalmente à boleia da queda a pique nos preços do petróleo. Em 2015, a situação melhorou tendencialmente, em todo caso, apesar da grande volatilidade.

Os dados de 2015 “referem-se a dividendos pagos durante o ano, baseados nas datas de pagamento, quando o dinheiro chega realmente aos acionistas”, diz Mark Baker, porta-voz da consultora. “Não há outra forma segura de o calcular. A data dos ex-dividendos não é de confiança”.

Os três magníficos… até 2014

Em Portugal, a análise ao ano de 2015 pode ser perturbada pela saída de empresas do ranking. Mas 2014 já não tem esse problema. Permaneceram as mesmas três de 2013: EDP, Galp e JM.

Foi um belo ano para este trio, contrastando com os 0,9% de crescimento da economia portuguesa ou os 14,1% de desemprego. Correu bem o capitalismo.

Segundo a Henderson, o bolo dos dividendos pagos pelas três grandes aumentou 17% (em dólares) e 35% (em euros) para um total de 1,2 mil milhões de euros em lucros distribuídos.

Em 2009, havia 5 grandes

O que aconteceu também nos últimos anos e que explica bem o desaparecimento persistente de empresas de proa em Portugal foi uma crise sem precedentes na zona euro, uma acumulação de erros de gestão, suspeitas de fraude, de passos muito arriscados, com recurso a cada vez mais dívida que foi derrubando negócios após negócios.

O caso do BES, que ainda aparecia no ranking em 2009 e 2010, é um dos mais notórios. Mas há mais exemplos. A Portugal Telecom aguentou-se até 2012, tendo depois implodido. O valor do BES e do BCP foi também muito destruído pela crise soberana e pelas medidas de austeridade impostas nos últimos cinco anos.

Um dos objetivos do ajustamento da troika era, justamente, reequilibrar as contas externas do país. Para tal, forçou uma redução abrupta do endividamento do Estado, famílias e empresas, com consequências diretas e nefastas sobre o consumo, a compra de habitação, o investimento empresarial, logo sobre aquilo que era o negócio central dos bancos: a venda de crédito.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
lisboa casas turismo salarios portugal

Turismo em crise já pensa no day after

O ministro da Economia, Pedro Siza Vieira. TIAGO PETINGA/LUSA

Governo estima que mais de um terço dos empregados fique em lay-off

Mário Centeno, Ministro das Finanças.
Fotografia: Francois Lenoir/Reuters

Folga rara. Custo médio do petróleo está 10% abaixo do previsto no Orçamento

Grande capitalismo português está a desaparecer do mapa global