Instituições financeiras

Horta Osório. O homem do leme que resgatou o Lloyds do naufrágio

Depois da ajuda estatal em 2008, o banco britânico voltou a ser 100% privado. Tesouro lucra mil milhões com a venda dos 0,25% que restavam.

No início de novembro de 2010, um curto comunicado surpreendeu o mundo financeiro do Reino Unido, Portugal e Espanha. O português António Horta Osório, que então liderava a operação britânica do grupo Santander, tinha sido convidado pelo governo inglês para dirigir o Lloyds Bank, um dos maiores, mais antigos e, na altura, mais problemáticos bancos do país.

Dois anos antes, a instituição tinha sido apanhada nas malhas da crise do subprime e, após ter adquirido o HBOS, viu-se obrigada a procurar a ajuda financeira do Tesouro britânico. O Lloyds recebeu, em outubro de 2008, 20,3 mil milhões de libras (23,9 mil milhões de euros) do Estado, que passou a deter 43,4% do capital do banco. O português ficou com uma herança pesada nas mãos.

Quando António Horta Osório assumiu a liderança da instituição, em março de 2011, já o Lloyds tinha dado os primeiros passos na sua recuperação, tendo sido implementado um pesado plano de restruturação, sob a gestão do anterior CEO, Eric Daniels. Ao português cabia garantir e acelerar o processo. “É um desafio incrível”, afirmou, citado pelo Telegraph. “Se conseguirmos recuperar totalmente o banco, serão boas notícias para a equipa, para os contribuintes e para a economia britânica”.

Tomando conta do leme, Horta Osório tratou de fazer a sua magia. Logo em 2011 foi anunciado um programa a três anos que implicava a redução de 15 mil postos de trabalho e ainda a venda de 630 agências. O apertar de cinto compensou e, em 2013, o Lloyds regressou aos lucros. Nesse ano, a revista britânica Euromoney distinguiu o português como o melhor banqueiro do mundo. “Decisões complicadas em tempos difíceis ajudaram a revitalizar o Lloyds. Agora Horta Osório pode concentrar-se em tentar fazer do maior banco do Reino Unido o melhor”, indicava a publicação.

Foi também em 2013 que o Estado britânico começou a reduzir a sua participação no capital da instituição, com duas operações de reprivatização nesse e no ano seguinte. No final de 2014, o Tesouro já só detinha 24,9%. A fatia estatal foi sendo diluída, com transações pontuais que se repetiram nos anos seguintes, até restarem apenas os 0,25% que foram agora cedidos.

Em 2017, o Lloyds volta a ser 100% privado. No total, a venda da sua participação resultou num lucro de 900 milhões de libras (1.060 milhões de euros) para os contribuintes britânicos.

Exaustão e indemnizações

Pelo caminho, surgiram vários contratempos. Logo no ano em que assumiu funções, Horta Osório acusou a pressão. O português, na altura com 47 anos, nascido em Lisboa, casado e com três filhos, que gostava de nadar com tubarões e de jogar xadrez e ténis, era também um workaholic, com alguma dificuldade em delegar trabalho. O ritmo acelerado da sua rotina fez com tivesse de pedir baixa por dois meses, em 2011, devido a exaustão. A sua situação de saúde foi mal acolhida pelos mercados financeiros. “Reconheço que a minha ausência teve um impacto sobre o banco”, assumiu em comunicado.

Não foi a única turbulência que o Lloyds atravessou. Em 2012, um escândalo relacionado com a venda indevida de seguros fez o banco ter de desembolsar 700 milhões de libras (893 milhões de euros) para compensar os clientes afetados. A situação foi herdada por Horta Osório e veio atrasar a recuperação da instituição.

Herdado também pelo português foi o episódio que em 2014 levou o Lloyds a ser obrigado a indemnizar o Banco de Inglaterra em 7,8 milhões de libras por ter manipulado um sistema que permitia às instituições banqueiras trocar ativos financeiros por dívida pública. Nesse ano o Lloyds sofreu ainda uma multa, de cerca de 275 milhões de euros, por outra manipulação, a da Libor, um indexante semelhante à Euribor.

Altos e baixos que fizeram com que tivesse passado quase uma década até o banco britânico liderado por Horta Osório ter conseguido libertar-se por completo da participação estatal. “Mas o trabalho ainda não terminou. Sendo o maior banco de retalho e comercial do Reino Unido vamos continuar a usar nossa forte posição de capital e de liquidez para ajudar a Economia Britânica a prosperar”, afirmou o português em comunicado.

O caminho futuro passa por continuar a transformar a instituição e dar seguimento à estratégia que levou a uma redução de custos operacionais de cerca de 20%, entre 2010 e 2016 e a uma maior competitividade do banco, fazendo com que a capitalização bolsista disparasse e fizesse o banco saltar de quinto maior banco do mundo, 2011, para o segundo maior banco do mundo, em 2017, logo após o HSBC.

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