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Jorge Tomé “É pouco provável que a família Roque volte a ser o principal acionista do Banif”

Jorge Tomé, presidente do Banif
Jorge Tomé, presidente do Banif

Jorge Tomé tem mais de três décadas no sector financeiro. Passou por várias instituições, com destaque para a CGD. É, desde 2012, o presidente executivo do Banif, fundado por Horário Roque, que morreu há quatro anos. O banco recebeu, em 2013, uma injeção de dinheiro público - 1,1 mil milhões de euros - para evitar a falência e conseguiu, esta semana, concretizar mais um aumento de capital, após o qual o Estado perdeu a maioria dos direitos de voto.

Quando, em 2012, os problemas no Banif se tornaram públicos, temeu-se pela sobrevivência do banco. Houve quem falasse de um novo BPN, pela vertente de impacto nas contas públicas. Este aumento de capital significa que esses receios podem ser postos de parte?

Absolutamente. Em 2102, todo o sistema bancário estava numa situação crítica. No Banif, um banco mais pequeno, obviamente que essa criticidade era maior. Mas sempre acreditei que o Banif tinha um bom nome, uma marca forte, a liderança nas regiões autónomas, uma presença muito forte nas comunidades de emigração, portanto, eram valores muito fortes que faziam com que o banco, com alguma ajuda do Estado, pudesse recuperar. Foi o que aconteceu.

Veja aqui o vídeo da entrevista

Neste momento, a sobrevivência do Banif não é sequer uma questão em cima da mesa?

Está completamente fora de questão. O principal sinal de que um banco comercial está saudável é a sua liquidez e o Banif tem, hoje, uma liquidez até excedentária. De acordo com as regras bancárias, um banco comercial deve ter pelo menos dez vezes as reservas mínimas de caixa e o Banif tem, neste momento, vinte vezes as reservas mínimas de caixa. Isso é um sinal de grande saúde. O segundo sinal da saúde é o seu capital. O Banif é dos bancos mais capitalizados do sistema, tem passado todos os testes de mercado. Temos aqui dois grandes sinais de vitalidade. As dúvidas sobre a sobrevivência estão mais do que ultrapassadas. Temos uma estratégia de rentabilidade e de valorização dos ativos. É isso que nos motiva.

Com este aumento de capital o Estado deixa de ter a maioria dos votos, mas mantém a maioria do capital (60%). Quando é que conta ver-se livre do Estado?

Temos um compromisso de repagar ao Estado até 2017. Temos feito isso por fases e todas elas bem sucedidas. O Estado capitalizou o Banif em 1,1 mil milhões de euros: uma parte que se pode dizer “mais capital” [700 milhões de euros] e um empréstimo contingente em capital [400 milhões de euros], com um prazo de amortização bastante curto – 2013 e 2014. Temos cumprido. Faltam 125 milhões de euros [dos 400 milhões]. Esse valor vence no final deste ano mas, com este aumento de capital e de acordo com as contas de junho, pretendemos pedir a antecipação da amortização dessa tranche. Vamos devolver esse empréstimo ao Estado antes do prazo.

Quando?

Logo que tenhamos as contas de junho fechadas pediremos autorização ao Banco de Portugal para fazer a amortização da última tranche, provavelmente em julho ou agosto.

E em relação à entrada de capital?

O Estado ainda permanece com 700 milhões de euros de capital no Banif. Tem 49% dos direitos de voto, mas 60% dos direitos económicos, portanto, temos de ter uma estratégia para reduzir essa exposição, de forma a que, até 2017, o Estado saia do Banif. Pretendemos antecipar essa data. Vamos também fazer isto por fases. Temos o objetivo de reduzir a posição do Estado no capital em 250 milhões de euros no prazo de um ano. Ou seja, na próxima assembleia geral de acionistas pretendemos que o Estado tenha apenas 450 milhões de euros. Temos ideias pragmáticas e vamos trabalhar nelas.

Na banca a confiança é fundamental. Este processo não afastou clientes do Banif?

Devo confessar que em 2012 e mesmo em 2013 perdemos alguns clientes.

Até porque os casos BPN e BPP estavam muito frescos na memória.

Sim, mas são casos nada comparáveis e esse tipo de comparações não devem ser feitas. Mas, enfim, o negócio bancário é um negócio de confiança e é natural que as dúvidas que havia em relação ao risco do país e ao próprio sistema bancário tenham preocupado alguns dos clientes. Não perdemos muitos clientes, teve mais a ver com a política de correção da margem financeira. O banco tinha uma estrutura de depósitos bastante desalinhada face ao sistema bancário. Cerca de 70% dos depósitos eram do chamado shopping around, clientes que só estavam no Banif porque pagávamos taxas de juro superiores. Tivemos que enveredar por uma política de correção da margem financeira, nomeadamente do lado do passivo, e isso fez com que tenhamos perdido bastantes depósitos – cerca de 300 ou 400 milhões de euros (5% do total). Mas conseguimos corrigir a margem passiva. Hoje, refeita a confiança no banco, estamos a recuperar os depósitos que perdemos.

Disse que tinha ideias para tirar o Estado do capital do banco. Será através da entrada de acionistas privados? Que ideias são essas?

Não posso revelar muito, até porque, primeiro, temos de ver a probabilidade de sucesso dessas ideias. Mas passará, obviamente, pelo reforço dos privados no capital. Para isso, temos contacto com acionistas fora do core dos acionistas que já temos. Uma parte desse dinheiro virá, provavelmente, de um, dois ou três novos acionistas. Outra parte virá de libertação de capital, que também queremos fazer no Banif. Temos uma estratégia de desalavancagem e de eficiência, o que liberta capital. Por essa via queremos também libertar algum capital para fazer uma recompra das ações do Estado. E depois haverá uma terceira via, através do core dos atuais acionistas, de aumento de capital. Temos ideias muito concretas.

Quando fala na entrada de novos acionistas, serão estrangeiros?

Eventualmente.

Existem contactos? Será concretizada alguma coisa ainda este ano?

Muito provavelmente. O banco está num processo de reestruturação, que passa também pela aprovação do plano por parte da DGCom [direção-geral da Concorrência da União Europeia]. Para atrairmos investidores internacionais é importante que esse plano seja aprovado e, para tal, o banco teria de cumprir um conjunto de requisitos, entre os quais o aumento de capital que fez agora. Portanto, neste momento, estamos em condições, vamos entrar, certamente, numa nova fase de negociação com a DGCom, no sentido de encerrar o plano de reestruturação. Se conseguirmos fazer isso, estou convencido que, na sequência de todos os contactos desenvolvidos com n investidores internacionais, é provável que um, dois ou três investidores internacionais se interessem pelo Banif, até porque o plano de reestruturação do Banif está muito mais maduro do que estava há seis meses ou há um ano.

Ainda este ano?

O nosso objetivo é um ano. Daqui a um ano, na próxima reunião de acionistas, gostaríamos que o Estado tivesse menos 250 milhões de euros no capital do Banif.

Já disse que a Guiné Equatorial irá entrar no capital do Banif com cerca de 100 milhões de euros. Presumo que faça parte desse grupo de potenciais interessados estrangeiros?

Insere-se obviamente, mas não tenho a certeza de que o instrumento financeiro da Guiné vá participar. Há negociações em curso e têm corrido bem.

Negociações que se têm arrastado.

É normal que um estrangeiro que investe cerca de 100 milhões de euros num banco queira analisar o dossier. São negociações que têm várias nuances e, portanto, isso leva tempo.

Que tipo de parceiro será uma entidade como a Guiné Equatorial?

Se esse tal investidor vier, terá que ser sempre uma parceria do tipo estratégica e não apenas um instrumento financeiro. Obviamente que o dinheiro e a rentabilidade são importantes, mas penso que aqui terá de haver sempre um ângulo mais estratégico. Não é uma questão de aumento de capital, porque esse já está realizado. Agora, os novos investidores no Banif têm que ter também uma vertente mais estratégica.

Qual é o apport estratégico da Guiné Equatorial para o Banif?

A Guiné Equatorial é um país rico da África Ocidental, é um país arquipelágico e pequeno. O Banif também é um banco de ilhas, tem uma dimensão reduzida no sistema, é um banco de nicho, mas com todas as valências de um banco universal e, para mais, tem uma experiência internacional em ilhas, nomeadamente em Cabo Verde e em Malta, dois projetos bem sucedidos. O Banif, face ao sistema financeiro da Guiné Equatorial, pode acrescentar valor, dentro de uma lógica de assistência financeira. Por outro lado, a economia da Guiné Equatorial também pode acrescentar valor ao Banif, que poderá servir de elo de ligação entre as empresas portuguesas e a economia da Guiné Equatorial. É nisso que vemos o valor dessa participação.

Não lhe causa desconforto ter como acionista um país que é recorrentemente acusado de violações dos direitos humanos?

Todas as transferências de dinheiro e movimentos de capitais obedecem a regras muito rigorosas de compliance. Nessa vertente mais política, vemos uma democracia africana. Não vemos separações relativamente à Guiné Equatorial ou outros países africanos. Esse é um aspeto que, sinceramente, não nos preocupa. Mas se houver problemas nessa matéria, e não é essa a leitura que fazemos, dando-lhe também uma resposta política, acho que devemos ser mais pela inclusão do que pela exclusão.

O Banco de Portugal tem que se pronunciar sobre a idoneidade dos acionistas. Qual é o feedback em relação ao acionista Guiné Equatorial?

O Banco de Portugal só se pronunciará quando tiver da parte do instrumento da Guiné Equatorial uma manifestação real de interesse.

Mas o interesse é público, pelo que presumo que, do ponto de vista informal, já tenha havido algum comentário.

Informalmente há conversas, porque o Banco de Portugal conhece o que se passa no Banif, está atento ao que se tem dito sobre esse investimento da Guiné Equatorial, e põe questões. O Banco de Portugal está obviamente informado, mas ainda não teve elementos objetivos para se pronunciar.

Antes da recapitalização, Horácio Roque controlava a maioria do banco, mas, entretanto, essa posição foi-se diluindo, até porque o Estado chegou quase aos 100%. Após este aumento de capital, com quanto é que ficaram Fátima Roque, ex-mulher, e as filhas?

Ainda não tenho os últimos números, mas o grupo Rentipar, com a Açoreana, deverá ter ficado com cerca de 6,5%.

Na sua opinião, alguma vez a família de Horácio Roque poderá voltar a ser maioritário, ou o principal acionista do Banif?

A pergunta deve ser feita à Rentipar.

Enquanto gestor terá informação sobre isso, já que anda à procura de investidores para o banco.

De acordo com a informação de que se dispõe, isso será pouco provável.

A família Roque jamais controlará o banco?

Não sei se é para sempre, nunca se sabe o dia de amanhã. À luz da informação que temos, achamos pouco provável, mas nunca se sabe.

Após a morte de Horácio Roque assistimos a uma disputa litigiosa pela herança, que incluiu o Banif. A situação está sanada?

Não me pronuncio sobre questões de acionistas. O que posso dizer é que o banco está blindado relativamente a essas questões.

Enquanto gestor não tem qualquer dificuldade que resulte dessa disputa litigiosa?

Não.

Tem condições para continuar?

Tivemos sempre o melhor relacionamento com todos os acionistas, designadamente com o acionista Rentipar, que, neste momento, ainda é o maior acionista do Banif.

Um dos pontos desse plano de reestruturação é a redução de custos, tanto ao nível da rede de balcões, como do quadro de pessoal. Esse trabalho já terminou, ou o fantasma dos despedimentos continua a pairar sobre o Banif?

No ano passado, tivemos um programa de redução do quadro de pessoal de 300 pessoas e este ano já anunciamos também um programa para 300 pessoas, que está em fase de finalização. Em matéria de pessoal, temos o quadro praticamente estabilizado. Em termos de redução de balcões, começámos, em 2012, e continuámos em 2013. Fechámos cerca de 56 balcões e temos um programa para este ano de 60 balcões. Ao todo, teremos mais de 130 balcões encerrados, desde que tomámos conta do Banif. Depois disso, teremos de fazer um novo balanceamento em matéria da rede de balcões. Uma coisa é certa, só vamos ficar com balcões que tenham dimensão e rentabilidade.

A rede vai voltar a ser analisada. Poderá haver nova redução?

Pode haver redução adicional de balcões.

Com a correspondente redução de quadros de pessoal?

Sim.

Já tem uma ideia?

Não, vamos fazer as coisa por fases. Neste momento, temos um programa de redução de 120 balcões. Para este ano são mais 60 e já fechámos uma boa parte. Depois temos de fazer uma reanálise dos balcões que subsistem para ver se passam pelo crivo da rentabilidade.

Outro ponto do plano de reestruturação assenta na venda de ativos. Estão à venda as operações no Brasil e em Espanha e também querem vender a participação que têm na Açoreana. Conheceram-se poucos progressos.

Para vender ativos temos de os vender bem, não os podemos vender a desconto. No caso dos bancos que tiveram investimento público e têm de fazer desalavancagens, num período de crise financeira, é natural que os potenciais compradores vejam uma oportunidade muito oportunista, e, portanto, também temos de contrariar isso. O Brasil foi um caso complicado, tivemos de fazer um trabalho de grande transformação, que está concluído. Agora, essa operação está em condições de ser vendida. O processo está em curso, temos três interessados.

Também a venda do Brasil se tem arrastado?

Tem. Toda esta venda decorre num período difícil. Os compradores estão interessados numa licença no Brasil, licença de direito estrangeiro, que tem valor, mas obviamente que gostam de explorar essa oportunidade, pelo facto do Banif ser obrigado a vender por razões do investimento público. Este é um jogo de criação de valor, ou de menos destruição de valor.

E em relação à venda de património imobiliário?

Está a decorrer. No ano passado, vendemos cerca de 150 milhões de euros de um total de mais de mil milhões de euros. Temos um programa para este ano, pensamos cumpri-lo. São ativos que não fazem parte do core business do banco, portanto, temos de os vender, mas temos sempre de ver qual é o melhor preço.

A CGD vendeu os seguros e o BES também já anunciou que irá desinvestir na Tranquilidade. Isso poderá prejudicar os objetivos de venda da participação de 48% que têm na Açoreana?

Não. Não faz sentido uma participação tão qualificada na Açoreana, o que faz sentido é a bancassurance. Temos uma estratégia de cross selling em curso, com bons resultados, e queremos continuar a desenvolvê-la, mas para isso não precisamos de ter uma participação na Açoreana. Temos o objetivo de alienar a nossa participação até ao final de 2015.

Em que fase é que estão?

Estamos a olhar para o mercado. Temos várias abordagens, mas não há nada em concreto.

O plano de reestruturação do Banif ainda não está fechado com a DGCom. Existe, inclusive, a possibilidade de Bruxelas vir a impor novas condições. O que mais pode ser exigido ao Banif?

Fechámos com a DGCom, no ano passado, chamado commitment catalogue, onde foi definido um conjunto de métricas e de linhas de orientação para a estratégia do banco. Temos implementado com sucesso esse conjunto de medidas e estamos convencidos de que não haverá mais medidas.

Não antecipa mais austeridade para o Banif?

Não. O perímetro do Banif que está definido nesse conjunto de medidas já é o limite para ter a viabilidade e a rentabilidade que a própria DGCom também pretende.

Porque é que não está fechado?

Faltava um requisito que tínhamos de cumprir, que era o aumento de capital. Agora, vamos aguardar.

O Banif reduziu os prejuízos de 584 milhões de euros, em 2012, para 470 milhões de euros, em 2013. Para quando o regresso aos lucros?

Em 2014, certamente não haverá ainda resultados positivos. O nosso objetivo é, em 2015, apresentar já resultados marginalmente positivos.

Será possível reduzir ainda mais os prejuízos este ano?

Vão ser reduzidos substancialmente.

E alguma vez será possível voltar aos níveis de lucros e de rentabilidade de antigamente?

Obviamente que o paradigma da indústria bancária mudou. A ideia que se tinha de fazer resultados e conseguir rentabilidade através da expansão do balanço acabou. Hoje, a indústria bancária tem que se nortear com outras regras e outros princípios e as regras são, basicamente, a eficiência, ter uma estratégia comercial muito mais focada e mais dirigida, desenvolver uma plataforma de banca online mais robusta, com mais conteúdos e mais segura, porque a eficiência das operações bancárias via banca online tem um custo menor do que a banca tradicional. O modelo de gestão bancária mudou, e bastante, mas se seguirmos estas tendências, certamente, a banca terá rentabilidades de capitais superiores a 10%. No passado, chegaram a 17%, ou 20%. O mercado está bastante mais concorrencial, mudou e, portanto, o objetivo é uma rentabilidade acima de 10%.

O Banif é mais pequeno e, por isso, não será supervisionado pelo Banco Central Europeu. Essa é uma vantagem para o Banif?

Só formalmente é que é assim, porque o Banif está sujeito à regulação do Banco de Portugal e as regras são basicamente as mesmas.

Quando se fala do pós-troika há uma ideia generalizada de que o país não poderá voltar à vida que tinha antes, sustentado em crédito. Nessa nova normalidade, fará sentido ter tantos bancos, ou a consolidação pode ser uma saída?

Verifica-se um movimento de redução de balcões, porque, de facto, o mercado estava bastante bancarizado. Em relação a concentrações, não acredito muito nisso, porque acho que a concentração no sistema bancário em Portugal não acrescenta valor às operações que serão fusionadas. Uma fusão tem de ter dois objetivos, tem de haver sinergias do lado dos custos e sinergias dos lados dos proveitos, ou seja, tem de haver, depois da fusão, mais negócio e menos custos, e considerando os bancos que hoje operam no sistema, haverá certamente sinergias no lado dos custos, nomeadamente nos serviços centrais, mas haverá sinergias negativas do lado dos proveitos.

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