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OPA. O futuro do BPI na visão do CaixaBank

Foto: Estela Silva/Lusa
Foto: Estela Silva/Lusa

CaixaBank aponta que BPI precisa de reforçar rácios em 215 milhões, abandonar de vez a operação em Angola e continuar a cortar trabalhadores e balcões

Esta segunda-feira, ao início da noite, a Comissão do Mercado dos Valores Mobiliários (CMVM) aprovou o registo da oferta pública de aquisição (OPA) geral e obrigatória lançada pelo CaixaBank sobre o capital que lhe falta controlar do BPI.

O pedido para registo da oferta foi entregue pelo grupo catalão a 10 de outubro e a “luz verde” dada ontem pelo supervisor dos mercados sinalizou que todas as autorizações regulatórias exigidas à operação já foram obtidas mas também que a contrapartida oferecida aos acionistas do BPI, de 1,1134 euros por título, foi considerava válida, apesar das queixas e ameaças dos investidores minoritários do banco presidido por Fernando Ulrich.

Com o registo da OPA, avançou igualmente a publicação do anúncio e do prospeto da operação, este último um documento onde o CaixaBank em pouco mais de 60 páginas justifica a OPA e o seu preço mas também o futuro que antecipa para o banco português, incluindo as sinergias ao nível de custos e de receitas que os espanhóis estimam obter com a tomada do BPI, que todavia deverá continuar cotado em bolsa – ainda que o CaixaBank assuma que, caso fique com mais de 90% do capital, reserva-se ao direito de “recorrer ao mecanismo da aquisição potestativa”.

A operação

Os catalães são atualmente donos de 45,66% do capital do BPI, procurando agora comprar as 794 milhões de ações do banco que ainda lhe faltam, num investimento que, em caso de 100% de adesão à OPA, atingirá os 900,4 milhões de euros, valor que os espanhóis já depositaram num banco português, tal como exige o Código de Valores Mobiliários nestas operações.

Com a aprovação do registo da OPA, a oferta avançou quase de imediato, com o prazo para aceitar o preço de 1,134 euros a começar a contar logo a partir da manhã de hoje, terça-feira, 17 de janeiro, e decorrendo até 7 de fevereiro próximo, prazo durante o qual as eventuais ordens de venda devem ser recebidas.

De acordo com as informações avançadas pela CMVM, estas ordens devem ser recebidas até ao termo do prazo, sendo que os “detentores das ações que aceitem a oferta poderão revogar as suas declarações de aceitação até dia 2 de fevereiro de 2017”.

O resultado da oferta, não se registando interrupções, serão apurados em sessão especial da bolsa lisboeta logo a 8 de fevereiro.

Menos pessoal e balcões

Além do calendário da oferta, no prospeto ontem divulgado sobre a OPA o CaixaBank levanta também um pouco do véu à visão do que pode ser o futuro do BPI caso seja controlado pelos catalães. E numa operação desta natureza, as “sinergias” são normalmente sinónimo de corte de pessoal. Esta não foge à regra.

Ao longo do documento, são várias as referências à situação atual do BPI, raramente abonatórias, em especial em relação à eficiência do banco.

“Sem prejuízo de nos últimos anos a Sociedade Visada ter feito um esforço muito destacável para melhorar a sua posição competitiva em Portugal, em particular em termos de redução de custos, é de esperar que a sua pertença a um grupo bancário de maior escala, como é o grupo do Oferente, permita alcançar maiores níveis de eficiência, produtividade e rentabilidade no contexto de um sector bancário doméstico mais competitivo e exigente”, aponta o grupo catalão no prospeto da OPA.

O CaixaBank estima que será possível obter sinergias de 84 milhões de euros anuais ao nível dos custos e de 35 milhões de euros do lado das receitas. Nos custos, mais de metade das sinergias chegarão de cortes no pessoal e balcões: os espanhóis querem baixar o rácio de gastos com pessoal/receitas do BPI de 44% para 35%, precisando para isso de cortar 900 trabalhadores do banco português, além de fechar mais 52 balcões ainda este ano.

BCE “recomenda” sair de África

Além de detalhes sobre a OPA em si e os impactos que terá na realidade do BPI, no prospeto da oferta o CaixaBank revela ainda pormenores sobre o futuro do Banco Fomento de Angola (BFA), com o grupo catalão a admitir que foi recomendado pelo todo-poderoso Banco Central Europeu (BCE) a desinvestir totalmente no banco angolano, a maior fonte de resultados do grupo português – cerca de 70% do total.

Segundo informam os catalães, “o BCE emitiu, no documento que autorizou o CaixaBank a adquirir o controlo da Sociedade Visada através da presente OPA, uma recomendação não vinculativa ao Oferente para que reduza gradualmente a participação do BPI no BFA num período de tempo razoável”.

A “recomendação” do Banco Central Europeu ao CaixaBank propõe mesmo que o grupo espanhol deve “ter preparado um plano de desinvestimento no BFA” para por em curso assim que tomar controlo do BPI. Mas segundo os catalães, “qualquer potencial desinvestimento, parcial ou total, no BFA deverá respeitar o acordo parassocial que vincula o BPI em relação ao BFA e cumprir com a legislação bancária local”.

BPI precisa de capital e dívida está cara

De acordo com os dados compilados pelo CaixaBank para o prospeto da OPA sobre o BPI, o banco português precisa de reforçar os seus capitais em breve em 215 milhões de euros, única forma de atingir um rácio de solidez em linha com os pares ibéricos, asseguram.

“De acordo com os cálculos realizados pelo Oferente, o BPI necessitaria de aumentar o seu capital CET1 [Common Equity Tier 1] em €215 milhões para alcançar um rácio de capital CET1 de 11,9% (rácio médio dosseus pares ibéricos), o que teria um impacto negativo na rentabilidade doméstica do BPI”, diz o La Caixa, entre várias outras comparações que são apresentadas entre o BPI e os bancos espanhóis ao longo do prospeto – muitas mesmo.

Mas este reforço dos rácios não é a única ameaça que pende sobre a rentabilidade doméstica do BPI, diz o grupo CaixaBank. Segundo as contas dos catalães, “o custo da emissão de dívida subordinada que o BPI tem previsto realizar para cumprir os rácios de capital resultantes do exercício de SREP [Supervisory Review and Evaluation Process]”, será alto. “Tal terá impacto significativo nos resultados do BPI”.

O BPI conta emitir 350 milhões de euros em dívida subordinada, algo que para o CaixaBank apresentará “um custo estimado de emissão de 8%-10%” que, em conjunto com o IRC de 29,5%, eleva “o custo estimado anual após impostos desta emissão” para os 21 a 26 milhões de euros, ou seja “28% dos resultados domésticos do BPI em 2015”.

Próximos passos

Com o arranque do prazo para a aceitação da oferta esta terça-feira, 17 de janeiro, os acionistas do BPI interessados em vender as suas ações ao CaixaBank já podem dar ordens de venda aos seus intermediários financeiros – a operação é assessorada pela sucursal do Deutsche Bank em Portugal.

Este prazo para aceitar a oferta decorre até 7 de fevereiro, contudo, alertam os documentos sobre a operação, há que ter em atenção aos prazos dos intermediários financeiros, que “poderão estabelecer limites próprios antecipados para o prazo de receção das ordens de venda”.

Caso os donos das ações mudem de ideias já depois de aceitar a oferta, terão “até cinco dias de calendário antes do termo do prazo da oferta” para comunicar a mudança de posição – ou seja, até 2 de fevereiro. Este prazo será mais dilatado caso surja uma OPA concorrente à dos catalães, cenário em que os donos das ações podem revogar a venda até ao último dia do prazo da oferta.

Além dos passos oficiais previstos no calendário da OPA, há ainda que ter em atenção aos efeitos colaterais do avanço da oferta pública de aquisição, já que são vários os acionistas minoritários do BPI que estão contra a OPA, sobretudo pelo preço, e que já prometeram levar a questão até à barra dos tribunais.

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