Comissão de Inquérito Banif

Os deputados, o diretor de informação da TVI e a queda do Banif

Ânimos exaltados e muitas perguntas sobre o processo de construção da notícia marcaram a audição de Sérgio Figueiredo sobre o Banif.

A TVI teve ou não responsabilidade na queda do Banif? Esta foi a questão essencial a que os deputados da comissão parlamentar de inquérito ao Banif quiseram que o diretor de informação da estação, Sérgio Figueiredo, respondesse. Ou admitisse responsabilidade, ou erro, na forma como a notícia de 13 de dezembro – que dava conta de que o fecho do banco estava a ser preparado – foi construída.

Que contactos foram feitos? Houve telefonemas para o Banco de Portugal e para o ministério das Finanças? Antes ou depois de a informação ter sido avançada em rodapé, às 22:13 de domingo, sendo depois alterada sete vezes? Quem foi o jornalista que recebeu a informação?

Numa audição marcada por momentos tensos e em que os deputados da comissão parlamentar de inquérito deixaram de lado as suas divergências partidárias para se focarem em conseguir respostas de Sérgio Figueiredo muitas questões ficaram por responder.

Sérgio Figueiredo começou por dizer que a informação era “forte” e “fidedigna”, com base em fontes “fundamentalmente documentais”, sobretudo uma carta de Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, para o ministro das Finanças Mário Centeno, datada de 12 de dezembro e onde se referia que a resolução seria a única hipótese se falhasse a venda voluntária. Sobre quem recebe a notícia Sérgio Figueiredo diz apenas que o tema já estava a ser, há muito, investigado por todas as redações. O diretor de informação da TVI revela que não estava na redação nesse domingo, 13 de dezembro, mas que recebeu um contacto dizendo que a resolução do banco estava a ser preparada para a semana seguinte.

A partir desse momento a TVI foi tratando a informação, avançando de imediato com uma notícia em rodapé, atualizada sete vezes ao longo da noite. Começou por referir que o banco iria fechar para depois substituir a palavra “fecho” por “resolução”. E embora tenha inicialmente avançado que os depósitos acima de 100 mil euros não estavam assegurados 17 minutos depois essa informação foi alterada.

“Não me arrependo do que a TVI fez”, disse Sérgio Figueiredo aos deputados, que questionaram, um após outro, a decisão de ter avançado de imediato com a informação e quiseram saber que telefonemas e que exercício do contraditório tinha sido feito. Mariana Mortágua, do BE, questionou se a notícia foi um “erro” ou um erro premeditado. Sérgio Figueiredo assumiu o erro mas recusou a possibilidade de “erro premeditado”. E aceitou, em parte, a correlação entre a notícia e a fuga de depósitos na semana que se seguiu e que chegou aos mil milhões de euros, dando a machadada final na liquidez do banco: a 20 de dezembro o Banco de Portugal optou pela resolução e venda dos ativos saudáveis ao Santander por 150 milhões de euros.

O diretor de informação da TVI apontou o dedo às instituições: Banco de Portugal e ministério das Finanças emitiram comunicados mas não desmentiram a notícia “porque a notícia estava certa”. O diretor de informação da TVI deixou a ideia de que poderia ter havido uma tomada de posição mais assertiva destas instituições para tranquilizar os depositantes que estavam a levantar as suas poupanças. Mas lembrou o caso BES, onde até praticamente ao dia da resolução foram dadas garantias de que o banco era sólido.

Enquanto os deputados o questionavam sobre pormenores do processo de construção da notícia Sérgio Figueiredo ia dizendo que não estava na redação – “por razões pessoais, estava num concerto de rock’ – e que pediu a António Costa, jornalista de economia e comentador da TVI, que estava em Queluz de Baixo nesse dia, para “ir em socorro da redação”. Os contactos foram feitos “antes, durante e depois” mas não soube precisar a quem foram feitos os telefonemas antes. Nem se Jorge Tomé, ex-presidente do Banif, telefonou a António Costa ou se foi ao contrário.

Assegurou confiar nos jornalistas e nunca lhes ter perguntado quem era a fonte. Recusou demissões de quem “quis dar o corpo às balas”. E o arrependimento que tem é de não ter tratado o tema de outra forma, introduzindo um especial informativo naquele momento em vez de ter esperado pelo noticiário da meia-noite, onde a informação foi desenvolvida. Admitiu que, aos domingos, a capacidade da redação está a meio gás. E recusou, das várias vezes que foi questionado sobre o tema, dizer quem tinha recebido a informação em primeiro lugar. Defendeu que nomear o jornalista podia comprometer a fonte. Que um jornalista de desporto levava a umas fontes e um jornalista de outra secção a outras. Várias vezes repetiu o argumento, numa tecla onde os deputados insistiram muito em bater.

Sobre a fonte que passou a informação ninguém perguntou. Sérgio Figueiredo frisou várias vezes que não a iria revelar, mesmo depois de João Almeida ter lembrado que vários responsáveis tinham dito na CPI que a notícia era falsa. O diretor de informação da TVI disse apenas que a notícia não tinha vindo do Santander, respondendo a uma pergunta do deputado do PCP Miguel Tiago, sobre a relação entre o banco e o acionista da TVI, a espanhola Prisa. Sérgio Figueiredo exaltou-se com a insinuação e recusou a instrumentalização da redação da TVI. “O que está a sugerir insulta a redação toda”.

Não foi a única vez que os ânimos se exaltaram. Houve piadas com o atraso nas cartas referidas – “Pode ter sido o carteiro”, disse Figueiredo – a referências a informação passada em parques de estacionamento no caso Watergate. A Abreu Amorim, do PSD, disse que não o contrataria como jornalista. Este acusou-o de insultar a inteligência dos deputados da comissão. Miguel Tiago usou o termo “negligência”. João Almeida, do CDS, acusou-o de estar a culpar o anterior governo. Sérgio Figueiredo perdeu as estribeiras. “Não lhe admito que ponha palavras na minha boca”. Esqueceu-se da etiqueta da comissão e deixou cair o sr. Deputado, tratando João Almeida por você. Retratou-se em seguida, alegando cansaço. Estava a ser ouvido há mais de três horas.

Sobre a queda do preço das ações exalta-se e diz que o banco valia “zero” e que “se fosse um eletrocardiograma estava morto”. João Galamba, do PS, atira que a informação sobre o fecho do banco era falsa e que não havia documentos sobre os depósitos. Sérgio Figueiredo admite que não tinha nenhum documento escrito e que a interpretação sobre a garantia de depósitos “não foi a mais adequada”. Mariana Mortágua questiona, após ler o código deontológico dos jornalistas, se “fecho” é a mesma coisa que “resolução”, ao que o diretor de informação da TVI rebate com a necessidade de simplificar os termos económicos. Numa das correções da notícia, nessa noite, passou a usar-se o termo resolução.

Procurando abstrair-se dos apartes dos deputados – até António Filipe, presidente da CPI, teve de intervir dizendo que os apartes fazem parte da vida política – Sérgio Figueiredo defendeu a sua opção de divulgar de imediato a informação. “O jornalismo cumpriu a sua função”, apesar de admitir que a situação é “incómoda” para a TVI. Admitiu o erro – o comunicado da direção de informação da TVI após a notícia prova isso mesmo – mas apontou que a relevância dada à notícia da TVI era “desproporcional” no desfecho do Banif. “É um filme de quatro anos e a TVI chegou no último segundo.”

Ainda assim, a estação de Queluz de Baixo terá de enfrentar o processo que está a ser preparado pelo Banif. Na próxima terça-feira é a vez de António Costa, jornalista e comentador que foi “em socorro” da redação, como afirmou Sérgio Figueiredo, responder aos deputados.

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