A proposta de um depósito com remunerações entre 1% e os 6,84% aos obrigacionistas visados pela oferta do Novo Banco para poupar 500 milhões de euros permitirá que estes investidores recuperem a totalidade do valor investido, defendeu António Ramalho, CEO do ex-BES, citado pela “Reuters”.
“Esta é uma oferta justa porque em rigor, em última instância, o que se pede aos obrigacionistas é apenas a perda de lucros futuros – a perda de juros futuros, a perda de expectativas futuras”, disse o responsável à agência, esta quarta-feira.
A imposição de perdas de 500 milhões de euros aos obrigacionistas que confiaram os seus investimentos ao Novo Banco foi uma das condições exigidas pela Lone Star para tomar conta do banco de transição que resultou do colapso do BES a troco de zero euros. Contra a indefinição e suspeição que esta operação levantou junto de analistas e agências de rating, o banco acabou por propor o acesso destes lesados a depósitos remunerados que não estarão disponíveis a mais clientes.
À Reuters, o CEO do Novo Banco assegurou porém que apesar da imposição de perdas entre 11% e 90% do valor nominal das obrigações, a oferta agora apresentada permitirá “de alguma maneira” recuperar essas perdas, mas só no caso dos títulos que vencem nos anos mais próximos.
“Nesta oferta comercial, os depósitos que incidem nas notes até 2022 – cuja oferta tendo sido feita a preço de mercado puro – têm taxas de juro que permitem que, de alguma maneira, seja retomado o valor nominal ou o valor nominal dos títulos”, garante.
“Esta oferta [depósitos] permite que o valor final seja igual ao valor de emissão. Eles perdem os juros. [Os obrigacionistas] mitigam as perdas, voltando a recuperar o valor investido. O conceito é de recuperação do valor investido”, sublinha.
António Ramalho realça também que apesar dos ‘haircuts’ aos obrigacionistas, há um lado positivo nesta imposição, pois oferece aos mesmos a possibilidade de receber parte dos seus investimentos já em dinheiro, manifestando-se “otimista” em relação ao sucesso da operação.
Os cortes e as remunerações
Conforme recorda a Reuters, a recompra de obrigações com descontos por parte do Novo Banco visa 36 séries de obrigações, com um valor nominal de 8,3 mil milhões de euros. Estas obrigações vencem entre 2019 e 2052, dependendo da maturidade de cada investimento o juro oferecido pelo ex-BES no depósito remunerado.
Como exemplo, note-se que nas obrigações que atingem a maturidade ao longo de 2019, o Novo Banco propõe um depósito a três anos com um juro anual de 6,84%,oferecendo 82% do seu valor – ou seja, se confiou 100 euros ao banco, receberá 82 euros. Um outro caso, em relação aos detentores de dívida que só vence em 2022, a oferta propõe pagar apenas 73,25% do valor, dando acesso a um depósito a 5 anos com um juro de 6,5%.
Tal como o Dinheiro Vivo noticiou ontem, esta proposta de obrigações apenas visa algumas obrigações senior do Novo Banco, já que o Banco de Portugal decidiu transferir outras linhas de obrigações de volta para o buraco negro do BES, mais de um ano depois de ter definido o perímetro da resolução. Esta decisão “fora de horas” do supervisor acabou por prejudicar pelo menos 111 particulares que avançaram com os seus investimentos no Novo Banco já depois da resolução, acreditando na palavra do então já dono do Novo Banco, o Banco de Portugal.
Estes 111 particulares exigem agora ser retransferidos para a esfera do Novo Banco, de modo a poder participar nesta oferta de troca de obrigações, evitando assim perder 100% dos seus investimentos – que totalizam 19,2 milhões de euros.