Novo Banco

Reconstruir o Novo Banco “vai custar tempo e dinheiro”

Fotografia: TIAGO PETINGA/LUSA
Fotografia: TIAGO PETINGA/LUSA

O futuro do Novo Banco pode passar por novos acionistas e pela entrada em bolsa. Antes disso, o herdeiro do BES ainda tem desafios a vencer

Roma e Pavia não se fizeram num dia, já diz o ditado. Para o Novo Banco, um futuro sem o peso da herança do Banco Espírito Santo (BES) ainda não é visível no horizonte. Reconstruir o banco “vai custar tempo e dinheiro”, avisa António Ramalho. O tempo ainda não é de colheita, mas de semear, frisou o presidente executivo do banco ao Dinheiro Vivo.

Quatro anos depois, não está garantido que o banco não vá precisar de nova injeção de capital por parte do Fundo de Resolução. Poucos meses depois da venda de 75% do Novo Banco à Lone Star, o Fundo teve de injetar 792 milhões de euros no banco, na sequência de um prejuízo recorde de 1395 milhões de euros em 2017.

A seu favor, o banco conta com o acordo de capital contingente de até 3.890 milhões de euros garantidos pelo Fundo de Resolução por um período de oito anos. O acordo dá descanso ao novo acionista, a Lone Star, e a António Ramalho. Fez parte do processo de venda da maioria do capital à norte-americana, em outubro do ano passado.

A colheita de que António Ramalho fala será, nomeadamente, a rendibilidade. Correndo tudo bem, daqui a quatro anos o Novo Banco pode estar a renascer de novo, com novos acionistas e até o regresso à bolsa do herdeiro “bom” do BES.

Depósitos engordam

Fez neste mês quatro anos desde que foi criado, para ficar com os ativos bons do BES, que foi alvo de uma medida de resolução a 3 de agosto de 2014.

Em quatro anos, muito mudou no Novo Banco: na gestão, nos acionistas, no capital, na dimensão da estrutura, na presença internacional. O banco tem vindo a implementar um plano de reestruturação aprovado por Bruxelas: está mais magro e mais robusto.

No balanço dos primeiros anos de vida do Novo Banco, houve milagres e experiências de quase morte – como durante a operação de recompra e reembolso de obrigações (Liability Management Exercise), em 2017 .

O crescimento dos depósitos é uma vitória para um banco que navegou sempre fustigado por uma tempestade (ver gráfico).

No ranking da banca por ativos, o Novo Banco desceu um lugar. Porque reduziu o seu ativo – no âmbito do plano de reestruturação – e porque o Santander integrou o Banif e o Banco Popular. O Novo Banco é agora o quarto maior banco em ativos no país, próximo do Santander, que é o terceiro maior, e longe do Banco BPI, que deixou de consolidar o angola BFA.

O ativo do Novo Banco emagreceu um terço; a carteira de crédito encolheu 25%, diminuindo em dez mil milhões de euros; o crédito internacional desceu 51%; mas o crédito às empresas continua a representar 64% da carteira de empréstimos do banco.

E o banco vendeu ativos – como o BES Investimento – e saiu de mercados no exterior.

O BES era, na sua essência, um conglomerado financeiro que atuava, nomeadamente, na banca comercial, privada e de investimento, geria ativos e, entre outros negócios, tinha uma forte presença internacional. O Novo Banco está focado no mercado português; a venda de BES Venetie, BI Cabo Verde, NB Ásia e o fecho dos escritórios em Nova Iorque e em Londres inseriram-se nessa estratégia do banco.

Estrutura mais magra

O banco também foi forçado a reduzir custos e redimensionar a sua rede de balcões. Os custos operativos do Novo Banco desceram mais de 206 milhões de euros, ou 27%, em relação a 2015.

O banco tem menos 30% dos balcões que tinha a 4 de agosto de 2014, um dia após a resolução do BES. Na altura, tinha 674 balcões, dos quais 631 em Portugal. Terminou março deste ano com 473 balcões, dos quais 448 no mercado português. O número de trabalhadores acompanhou a redução verificada na rede de balcões, na mesma proporção (ver gráfico). Para este ano, a meta do banco aponta para a saída de cerca de 400 trabalhadores.

Apesar dos avanços e da venda do banco à Lone Star, Bruxelas tem previsões para o Novo Banco menos cor-de-rosa do que as do novo dono do banco: a Lone Star é mais otimista, tanto em termos de rentabilidade dos capitais próprios do banco como da sua solvabilidade, traduzida no rácio Core Tier 1. No final de março, o banco registou um rácio de capital CET1 de 13,5% e um rácio de capital total de 13,9%.

Persistem incógnitas, nomeadamente, se o banco vai necessitar de novas injeções de capital, o que levaria a ter de ajustar o plano de reestruturação, com possíveis novos cortes de custos.

A limpeza do crédito malparado, que é inferior a 30% do total da carteira, é ainda uma prioridade. O crédito malparado bruto situa-se em 9,3 mil milhões de euros.

Passo a passo, o Novo Banco vai cortando laços com o passado. Neste mês cortou mais um: anunciou a venda da sede histórica, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, e a mudança para as Amoreiras.

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