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Rui Riso: “Nos próximos anos comissões serão fator de concorrência entre bancos”

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Rui Riso não diaboliza as comissões bancárias. Diz que a saída de mais trabalhadores do Novo Banco é inevitável.

Aos 64 anos, o socialista Rui Riso é candidato a liderar o novo supersindicato dos bancários, o Mais, que resultou da fusão de vários sindicatos. O bancário, quadro do grupo Crédito Agrícola, foi eleito presidente do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas (SBSI) em 2011. Nessa altura, já liderava o SAMS-Serviço de Assistência Médico-Social do SBSI, do qual é presidente. Atualmente, é também vice-presidente da UGT. Licenciado em Antropologia Social, Rui Riso foi deputado na Assembleia da República pelo Partido Socialista, tendo sido eleito nas eleições de outubro de 2015. O facto de o PS ter deixado Rui Riso de fora das suas listas nas últimas eleições gerou críticas por parte do movimento sindicalista.

O Parlamento aprovou restrições às comissões bancárias no MB Way, nesta semana. Esta medida pode pôr em causa postos de trabalho nas instituições financeiras, como diz a Associação Portuguesa de Bancos?
Os postos de trabalho na banca estão em causa sobretudo por causa da digitalização. Não sabemos qual o seu impacto no número de trabalhadores bancários em Portugal. Temos a experiência de alguns países que começaram esse processo mais cedo e onde existem reduções muito visíveis. Todas as instituições dizem que o ajustamento do número de trabalhadores ainda não está fechado e todos os pretextos servem para fazer essa diminuição. Este caso das comissões… O negócio dos bancos é comprar e vender dinheiro e aí as margens são muitos estreitas e a alternativa tem sido a criação de comissões para pagamento de serviços que são prestados pelos bancos aos cidadãos. Quando pago a conta da luz pelo multibanco, não há dúvida de que estou a ser beneficiado com um serviço, senão tenho de me deslocar e ir para a fila. E a banca hoje permite-me fazê-lo de uma maneira cómoda, e esse serviço, na minha opinião, pode ser cobrado.

Mas há outras comissões que não se entende bem como é que aparecem. Taxas de manutenção de conta que são feitas de forma automática…
Estamos de acordo. Relativamente a estas do MB Way também acho que é um serviço prestado por uma tecnologia desenvolvida pela banca e que teve custos. Se calhar, nos próximos anos, as comissões serão fator de concorrência entre bancos (quem cobrar menos terá mais clientes). E é um pouco por aí que as fintech têm ganho espaço. Mas, por outro lado, há que relevar uma questão: se eu quiser abrir uma conta num banco tradicional, tenho de preencher uma série de documentos e há uma série de regras impostas pelo Banco de Portugal. Nas fintech não é assim, resta saber quem é que as regula. Porque é que posso abrir uma conta numa fintech sem apresentar documentos? Quando os bancos cobram comissões, cobram-nas por serviços que são prestados, e a partir daí o volume das comissões será o principal fator concorrencial, uma vez que relativamente às taxas de juro elas são o que são.

Podem ter implicação nos postos de trabalho nas instituições financeiras?
Tudo pode ser pretexto para fazer uma redução. Mas, por outro lado, foi muito falada nos últimos tempos a questão do encerramento das agências e o apagão de serviços bancários, em que há zonas em que as pessoas para levantar dinheiro têm de fazer 20 quilómetros, e isto é uma injustiça profunda para quem tem de se deslocar, sobretudo porque muitas são pessoas idosas, em territórios de baixa densidade, são reformadas e a quem se exigiu que tivessem conta bancária para lhe pagar a pensão. E a pessoa tem de levantar a pensão com todos estes custos associados. Para manter agências não rentáveis em determinados territórios tem de haver equilíbrios. Se há uma agência que dá prejuízo mas presta serviço à população, esse custo tem de ser coberto por alguma coisa, provavelmente comissões. Esta solução do MB Way só é possível ter em smartphones, mas há uma parte da população que não tem smartphones. Quem tem smartphone é uma pessoa mais digitalizada e vai ser beneficiada com esta isenção de comissões, enquanto as outras vão ter de pagar transferências como têm pago até aqui. Há aqui até um sentido de injustiça

As comissões têm aumentado nos últimos anos e os resultados dos bancos também. A melhor saúde financeira não deveria traduzir-se num abrandamento da redução de quadros ou até num eventual aumento?
O Millennium BCP acaba este ano com mais cento e tal trabalhadores do que no ano anterior. Relativamente a este banco, também por imposição da UE teve uma redução muito forte, teve um período de cortes salariais com o acordo dos sindicatos para defender postos de trabalho. O limite era ficar com 7400 trabalhadores. Em 2019 chegou perto dos sete mil e agora está a recuperar. Reconhece-se que se foi longe de mais e que se precisa de pessoas com outro tipo de especialização. Há espaço para continuar a fazer crescer o número de pessoas dentro dos bancos. Temos o problema que não está resolvido do Novo Banco, que se fala que poderá vir a ser dividido por três ou 4 quatro players. Ou seja, cada vez vamos ter menos bancos e menos concorrência, ao contrário daquilo que queriam.

Em relação ao Novo Banco, em 2018 pediu mais de 1100 milhões de euros ao Fundo de Resolução e, ao longo desse ano, saíram 450 trabalhadores. Agora o banco pede outros mil milhões relativos a 2019. Os funcionários do banco têm razão para estar preocupados?
Têm, porque desde o início que foi definido que sempre que o banco necessita de capital contingente terá de reduzir o número de trabalhadores. É óbvio que isto terá um limite, porque sem trabalhadores o banco não consegue crescer nem gerar lucros. Mas a questão do capital contingente está definida desde o início, ainda que se saiba que esse ajustamento tem vindo a ser feito de forma tranquila, sobretudo com antecipação de algumas reformas e rescisões por mútuo acordo. Não há dúvida de que há muitos trabalhadores competentes e que estão já a ser disputados por outros bancos, em que houve também reduções fortes.

Vai ser candidato à presidência do Mais Sindicato, que nascerá da fusão dos sindicatos do setor financeiro?
Estou a pensar nisso, sobretudo porque… não vou dizer que é um sonho de menino, mas esta unificação é um objetivo muito antigo que se persegue nos sindicatos. O sindicato do norte entendeu ficar de fora, é com eles, mas nós entendemos que isto é um reforço do sindicalismo, quer no setor financeiro quer no sindicalismo democrático da UGT.

Vídeo. “Está fora do meu horizonte” ser candidato a liderar a UGT”

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O secretário-geral da UGT apontou o seu nome como um dos possíveis sucessores na liderança da UGT. Estaria disponível?
Arrisca-se muito a que lhe diga que não. Não consigo considerar porque, antes de mais, tenho 64 anos. Os mandatos na UGT acabam aos 70, eventualmente só faria um mandato. Mas há outra questão determinante e o secretário-geral da UGT sabe disso – enquanto presidente do Mais e como candidato à próxima direção tenho um projeto para concluir, que é um projeto complexo por causa do sistema de saúde e por causa da nossa condição de empregador de 1500 trabalhadores, a quem queremos continuar a garantir um emprego de qualidade para que possamos ter o subsistema garantido no futuro. Esta é a minha grande preocupação. Está fora do meu horizonte ser secretário-geral da UGT.

O caso Luanda Leaks teve consequências no setor financeiro. Este processo mina a confiança dos cidadãos nos bancos?
A confiança dos cidadãos nos bancos foi muito abalada com a questão dos produtos financeiros tóxicos, essa sim foi, no meu sentir, a grande hecatombe. As pessoas terem o dinheiro aplicado num produto financeiro tido como sólido e um dia acordarem e não terem lá o dinheiro. O Luanda Leaks afeta a imagem do setor e particularmente o banco que está a ser observado.

Mário Centeno é dado como certo como governador do Banco de Portugal. Se for esse o caso, será uma boa escolha?
Não tenho essa capacidade analítica, mas que Mário Centeno já mostrou a sua competência, já. Com certeza que será um bom governador do Banco de Portugal.

Vídeo. Coronavírus: “bancos estão a preparar-se”

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Portugal e o sistema financeiro português estão preparados para uma eventual crise provocada pelo covid-19?
Mário Centeno sempre disse que hoje Portugal está preparado para enfrentar alguma crise. Esperemos que não aconteça nada, que se consiga travar o contágio do vírus, penso que as medidas que estão a ser tomadas são muito desagradáveis e que obviamente minam a confiança dos mercados. Mas esperamos, se houver uma crise, que estejamos preparados para ela, pondo à prova a ação do professor Mário Centeno.

Os bancos estão preparados do ponto de vista da proteção dos funcionários para uma eventual necessidade de proteções com máscaras?
Estão todos a preparar-se. Saiu uma nota da DGS em que todos temos de fazer o que conseguirmos fazer. Se não houver máscaras, não se podem comprar. Todas as organizações têm planos de contingência, gabinetes onde as pessoas possam estar se estiverem contagiadas à espera de serem transferidas para outros locais. As máscaras têm de estar disponíveis. As empresas vão ter de se adaptar.

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