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Santander absorve Popular. O que acontece agora?

(EPA/EMILIO NARANJO)
(EPA/EMILIO NARANJO)

O que aconteceu e o que implica a tomada do Popular pelo Santander? E porquê o Santander? As principais questões respondidas de forma sintetizada

O mundo financeiro acordou esta manhã com mais uma resolução bancária decidida literalmente da noite para o dia. Ontem, 6 de junho, o Conselho Único de Resolução concluiu que o colapso do Popular estava iminente, hoje o Popular já é do Santander.

Ainda há dias, a administração do Popular tentou estender o prazo para receber propostas de compra, dada a falta de avanços significativos no dossier, isto depois de em maio o banco ter negado que estava a preparar uma venda urgente do grupo. A recusa para estender o prazo, lado a lado com os crescentes receios de um colapso iminente, acabou por precipitar as decisões agora tomadas pelas autoridades.

À boleia de um artigo preparado pelo Cinco Dias, aqui ficam algumas perguntas e respostas sobre a transação anunciada esta manhã.

Quem paga?

Como o destino do Banco Popular foi decidido já durante a vigência das novas regras europeias para resoluções, os contribuintes ficaram a salvo (pelo menos até ver). O impacto da absorção do banco espanhol pelo Grupo Santander passa fatura desde logo aos cerca de 300 mil acionistas do Popular, que perderam as suas ações. Além destes, também os donos de obrigações de primeiro nível (AT1) e de dívida subordinada (Tier 2), ou seja as obrigações convertíveis em ações, viram os seus investimentos dizimados. Em “compensação”, os depositantes e os donos de dívida senior do banco ficaram incólumes.

Foi uma intervenção ou uma compra?

Foi uma intervenção e uma compra. O Conselho Único de Resolução decidiu intervir no banco quando percebeu que este estava em risco de incumprimentos vários, tendo esta sido a primeira decisão do género. Assim que foi decretada a intervenção, o Fundo de Resolução espanhol (FROB) olhou para as entidades que já se tinham manifestado interessadas no Popular e decidiu entregar o banco ao Santander. Como o Popular estava já a ser gerido pelo FROB e sem acesso liquidez, a venda foi fechada por um euro.

Porquê intervir no Popular?

O Banco Central Europeu (BCE) decretou ontem que o grupo estava em risco de colapso, sendo inviável e apresentado “risco de falhar ou provavelmente falhar” com os seus compromissos já durante o dia de hoje. A falta de liquidez do banco, que muito provavelmente seria agravada pela fuga de depósitos resultante das preocupações crescentes dos seus clientes, iria tornar este cenário inevitável, entenderam os supervisores. Como os planos de reestruturação ou os planos em que a administração estava a trabalhar à data foram considerados incapazes de resolver o problema, a intervenção foi necessária por razões de interesse público – assegurando-se logo os depósitos de particulares e empresas e que não ocorreria um rombo na atividade financeira espanhola (e portuguesa também), preservando-se a estabilidade.

Qual o valor do banco?

À cotação do fecho da bolsa de ontem, o Popular apresentava uma capitalização bolsista pouco acima de 1300 milhões de euros. Contudo, e pelos cálculos do FROB, o banco acumulava um valor negativo entre os 2 mil e os 8,2 mil milhões de euros, culpa dos elevados compromissos, escassez de liquidez e baixos rácios de solvência que acumulava. Foi por culpa deste elevado valor negativo que os donos de obrigações associadas ao capital do banco foram também chamados a pagar o resgate.

O que acontece agora?

O Santander absorveu esta manhã o Popular, incluindo a operação portuguesa, seus balcões e trabalhadores. As ações do Popular foram amortizadas, pelo que o capital do banco ajudará a conter as perdas da operação. Os 300 mil acionistas do Popular perderam todo o seu dinheiro mas poderão apresentar reclamações contra a decisão das autoridades posteriormente, especialmente aqueles que há um ano investiram num aumento de capital que colocou ações a 1,25 euros. Também os donos das obrigações associadas a capital (1250 milhões) e de dívida subordinada (684 milhões) também perderam tudo.

Porque se salvaram os donos de dívida senior?

Apesar das normas europeias preverem que também estes podem ser chamados a pagar a fatura de resoluções, neste caso não terá sido necessário avançar sobre os mesmos. Desde janeiro de 2016 que as regras europeias impõem os primeiros custos dos resgates aos investidores nos bancos, a começar por acionistas e donos de capital convertível em ações, avançando posteriormente para as dívidas seniores. Neste caso, contudo, o bail in não necessitou de recorrer a estes últimos – pelo menos pelos cálculos feitos agora, que não são necessariamente finais.

Porquê o Santander?

Tal como aconteceu com o Banif, a resolução foi tomada da noite para o dia e o “vencedor” do colapso também. Curiosamente, em ambos ganhou o Santander. Segundo o FROB, assim que o Popular foi alvo de intervenção, abriu-se um “processo competitivo” com as entidades que anteriormente tinham manifestado interesse em avançar sobre o Popular – BBVA e Santander. O Fundo de Resolução espanhol acabou por escolher este último, com o grupo de Ana Botín a comprometer-se em garantir a continuidade das operações e serviços do Popular no imediato.

E se não houvesse comprador?

O Popular seria tomado pelo FROB e seguir-se-ia provavelmente um processo em muito semelhante ao que ocorreu ao BES, com a criação de um banco de transição (Novo Banco). Os custos da operação é que seriam distribuídos de forma diferente, já que o colapso do BES ocorreu ainda antes das novas regras europeias estarem em vigor. Assim, ao invés dos contribuintes serem chamados a pagar na integra a resolução, neste caso seriam chamados os acionistas, investidores em dívida e também, muito provavelmente, os donos de dívida senior. Se no final de todos estes ainda existissem necessidades de capital, poderia caber ao Estado espanhol pagar o resto.

E Portugal?

O Banco de Portugal foi lesto em responder a esta pergunta. Logo pela manhã já informava os jornalistas que também a filial portuguesa do Banco Popular Español – o Banco Popular Portugal, S.A. – “não foi objeto de qualquer medida de resolução e está incluída no perímetro de venda, pelo que passa a integrar o grupo do Banco Santander. Para o Banco Popular Portugal, esta medida não implica qualquer alteração na atividade do banco português, que continua a operar com total normalidade, agora integrado num novo grupo bancário”.

Mas apesar da garantia de “tudo normal”, e tal como se tem verificado com a absorção do Banif, para os trabalhadores do Popular Portugal este “normal” é discutível: a absorção da rede de balcões do Popular Portugal e dos colaboradores por parte do Totta obrigará seguramente a novos cortes.

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